24 março 2008

Mais humanismo precisa-se!

O estatuto do aluno separa aqueles que frequentam o ensino obrigatório dos que já ultrapassaram essa fase e estão no facultativo. Presentemente a fronteira é o 9º ano de escolaridade. O aluno que frequenta o ensino obrigatório nunca pode ser expulso. Por isso todas a série de medidas correctivas, recuperadores, de inserção ou reinserção na comunidade escolar, mesmo as sancionatórias.
Os artigos seguintes descrevem aquelas medidas a que é possível recorrer para obter uma disciplina sem coação física.
A velha direita quer continuar a excluir alunos do ensino obrigatório.
Artigo 26.º
Medidas correctivas
1 — As medidas correctivas prosseguem os objectivos referidos no n.º 1 do artigo 24.º, assumindo uma natureza eminentemente cautelar.
2 — São medidas correctivas, sem prejuízo de outras que, obedecendo ao disposto no número anterior, venham a estar contempladas no regulamento interno da escola:
a) (Revogada.)
b) A ordem de saída da sala de aula, e demais locais onde se desenvolva o trabalho escolar;
c) A realização de tarefas e actividades de integração escolar, podendo, para esse efeito, ser aumentado o período de permanência obrigatória, diária ou semanal, do aluno na escola;
d) O condicionamento no acesso a certos espaços escolares, ou na utilização de certos materiais e equipamentos, sem prejuízo dos que se encontrem afectos a actividades lectivas.
e) A mudança de turma.
3 — Fora da sala de aula, qualquer professor ou funcionário não docente, tem competência para advertir o aluno, confrontando-o verbalmente com o comportamento perturbador do normal funcionamento das actividades da escola ou das relações no âmbito da comunidade educativa, alertando-o de que deve evitar tal tipo de conduta.
4 — A aplicação da medida correctiva da ordem de saída da sala de aula e demais locais onde se desenvolva o trabalho escolar, é da exclusiva competência do professor respectivo e implica a permanência do aluno na escola, competindo aquele, determinar, o período de tempo durante o qual o aluno deve permanecer fora da sala de aula, se a aplicação de tal medida correctiva acarreta ou não a marcação de falta ao aluno e quais as actividades, se for caso disso, que o aluno deve desenvolver no decurso desse período de tempo.
5 — A aplicação, e posterior execução, da medida correctiva prevista na alínea d) do n.º 2, não pode ultrapassar o período de tempo correspondente a um ano lectivo.
6 — Compete à escola, no âmbito do regulamento interno, identificar as actividades, local e período de tempo durante o qual as mesmas ocorrem e, bem assim, definir as competências e procedimentos a observar, tendo em vista a aplicação e posterior execução, da medida correctiva prevista na alínea c) do n.º 2.
7 — Obedece igualmente ao disposto no número anterior, com as devidas adaptações, a aplicação e posterior execução das medidas correctivas, previstas nas alíneas d) e e) do n.º 2.
8 — A aplicação das medidas correctivas previstas nas alíneas c), d) e e) do n.º 2 é comunicada aos pais ou ao encarregado de educação, tratando -se de aluno menor de idade.
Artigo 27.º
Medidas disciplinares sancionatórias
1 — …
2 — São medidas disciplinares sancionatórias:
a) (Revogada.)
b) A repreensão registada;
c) A suspensão da escola até 10 dias úteis;
d) A transferência de escola;
e) (Revogada.)
3 — …

23 março 2008

Menos demagogia precisa-se!

Este artigo do estatuto do aluno é a fonte da polémica. Apresentado pela direita como gerador de indisciplina, por não se ficar pelo efeito puramente disciplinar das faltas, na realidade só visa a recuperação dos alunos a quem seja possível e de modo atempado convencer da conveniência em se integrarem no normal funcionamento da escola, sem exclusões precipitadas e definitivas.
A velha direita só sabe utilizar a régua e a cana.
Artigo 22.º
Efeitos das faltas
1 — Verificada a existência de faltas dos alunos, a escola pode promover a aplicação da medida ou medidas correctivas previstas no artigo 26.º que se mostrem adequadas, considerando igualmente o que estiver contemplado no regulamento interno.
2 — Sempre que um aluno, independentemente da natureza das faltas, atinja um número total de faltas correspondente a três semanas no 1.º ciclo do ensino básico, ou ao triplo de tempos lectivos semanais, por disciplina, nos 2.º e 3.º ciclos no ensino básico, no ensino secundário e no ensino recorrente, ou, tratando -se, exclusivamente, de faltas injustificadas, duas semanas no 1.º ciclo do ensino básico ou o dobro de tempos lectivos semanais, por disciplina, nos restantes ciclos e níveis de ensino, deve realizar, logo que avaliados os efeitos da aplicação das medidas correctivas referidas no número anterior, uma prova de recuperação, na disciplina ou disciplinas em que ultrapassou aquele limite, competindo ao conselho pedagógico fixar os termos dessa realização.
3 — Quando o aluno não obtém aprovação na prova referida no número anterior, o conselho de turma pondera a justificação ou injustificação das faltas dadas, o período lectivo e o momento em que a realização da prova ocorreu e, sendo o caso, os resultados obtidos nas restantes disciplinas, podendo determinar.
a) O cumprimento de um plano de acompanhamento especial e a consequente realização de uma nova prova;
b) A retenção do aluno inserido no âmbito da escolaridade obrigatória ou a frequentar o ensino básico, a qual consiste na sua manutenção, no ano lectivo seguinte, no mesmo ano de escolaridade que frequenta;
c) A exclusão do aluno que se encontre fora da escolaridade obrigatória, a qual consiste na impossibilidade de esse aluno frequentar, até ao final do ano lectivo em curso, a disciplina ou disciplinas em relação às quais não obteve aprovação na referida prova.
4 — Com a aprovação do aluno na prova prevista no n.º 2 ou naquela a que se refere a alínea a) do n.º 3, o mesmo retoma o seu percurso escolar normal, sem prejuízo do que vier a ser decidido pela escola, em termos estritamente administrativos, relativamente ao número de faltas consideradas injustificadas.
5 — A não comparência do aluno à realização da prova de recuperação prevista no n.º 2 ou àquela que se refere a sua alínea a) do n.º 3, quando não justificada através da forma prevista do n.º 4 do artigo 19.º, determina a sua retenção ou exclusão, nos termos e para os efeitos constantes nas alíneas b) ou c) do n.º 3.

22 março 2008

Menos generalização precisa-se!

Quando se analisam casos de violência, como o reportado recentemente, a primeira ideia que ocorre ao espírito das pessoas, na sua ânsia de dissecar o problema que lhe está na origem, é perguntar se é sinal de um clima de violência generalizada, se é um caso isolado, o que parece não ser o caminho certo.
Podemos dizer com certa segurança que não é um caso esporádico, mas que, sendo sinal de violência latente, só ocorre esporadicamente. Teoricamente poderá generalizar-se a uma percentagem na área da décima, não mais. A generalização mais trivial incorre no erro de juntar àqueles capazes de desencadear um espectáculo assim aqueles capazes de gozar com o espectáculo, enquanto tal.
O bom senso recomendaria que só os primeiros fossem objecto de estudo e tomada de posição já que entrar no domínio dos outros é entrar num campo tão vasto que acabaríamos por não chegar a conclusões válidas. Neste caso só a aluna em causa deve ser objecto de observação, com a sua envolvente familiar e as suas reacções típicas no ambiente escolar. Ou já é assim insolente no ambiente familiar ou reprimida só dá azo à sua insolência no ambiente escolar.
Se houvesse, como em tempos havia, um clima de medo, os outros retrair-se-iam e não gozariam com o espectáculo. Aparentemente respeitariam mas só alguns o fariam conscientemente. Hoje que o medo não é utilizado como instrumento de educação podemos com certa segurança afirmar que ninguém de entre os alunos repudiará um bom momento de riso.
Perante um ambiente de insolência criado pela aluna e a que a professora eventualmente poderia por cobro recorrendo ao apoio da restante comunidade escolar, a atitude dos restantes alunos entra no claro domínio da cobardia, de quem quer aproveitar-se de uma situação sem contribuir para ela. Mas aqui não poderemos ir muito mais além, sem cair no perigo da generalização.
É necessário encontrar as regras sociais mais correctas que possam ser aceites genericamente e que incutam em quem as tenha que respeitar o medo pela penalização social, e não só, que se lhe aplique ou na melhor da hipóteses o respeito que a esses mesmos possam merecer aqueles outros, professores, pais, políticos, etc. que têm que dar suporte a essas normas.

21 março 2008

Mais respeito precisa-se!

As manifestações de falta de respeito nas escolas são comuns e têm razões variáveis. Muitas pessoas de gerações anteriores costumam mostrar alguma compreensão para estes actos já que o que funcionava em muitas situações no sentido de garantir o respeito era o medo.
Por isso se encontram pais a dar razão aos filhos em situações em que eles vêem arbítrio da parte da autoridade. Para que isto aconteça é necessário que os filhos sejam educados no sentido de dominar os seus caprichos, de não se deixarem arrastar por um egoísmo cego. Esses pais dão sempre razão aos filhos porque são incapazes de ver para além da sua própria experiência.
A situação como a reportada num vídeo que corre por aí não é a cultura de rua a invadir a escola, antes pelo contrário, é a cultura de salão a invadir a educação. Aquela rapariga imaginava-se na sua casa, no seu quarto, na sua sala, onde é senhora de tudo e vive um mundo particular de contactos e gostos.
Esta situação, sendo a replicação na escola do que se passa ou já terá passado incólume em casa, tem que ser tratada em primeiro lugar no contexto familiar para que possa ser compreensível e tratada no contexto escolar. Se não houver reporte nas soluções de um lado para o outro a questão fica coxa e dá origem a uma mentalidade distorcida da parte do aluno.
A cultura de salão é hoje um mal tão grave e mais vasto que a cultura de rua e tem que ser tratada também a nível global. Outrora havia uma cultura que se afirmava pela sofisticação, pelo culto do sentimento de posse, de superioridade, de “finesse”. Essas pessoas procuravam beneficiar de normas de comportamento social próprias.
Hoje a fantasia permite que se criem domínios em que a imaginação sobreleva à inteligência prática, à necessidade de respeito, mais do que de pessoas, de normas de comportamento social que já não assentam no medo mas se destinam a todos e a que todos devem obediência.

20 março 2008

Menos menosprezo precisa-se!

As forças que se digladiam no PSD e que, segundo os mais optimistas, podem levar à sua desagregação são mentalmente comparadas por Meneses às forças contestatárias do tempo de Sá Carneiro. Não terão o mesmo poder, mas para Meneses convém-lhe derrotar inimigos fortes.
A realidade é manifestamente diferente. O passado das pessoas naquela altura era pouco valorizado até para não criar controvérsias e divisões que não interessava realçar. Hoje as pessoas têm um passado de que se não podem livrar sem terem uma razão forte para tal.
Ou uma pessoa assumiu há muito ser independente e apoiar os partidos segundo as suas opções e prática ou então o mais normal será ter-se colocado de um lado da barricada e lá permanecer, muitas vezes a contra gosto. A excepção será a pessoa definitivamente descrente e que adere a outro partido.
O que caracteriza a maioria dos membros de um partido é a apatia, pelo que é fácil a alguém que tenha palco mediático e seja hiperactivo afirmar-se sem que isso diga nada sobre o seu valor ou qualidade. Quando muito dirá do pouco valor dos outros.
Mas menosprezar o valor e a qualidade dos outros só porque não têm disponibilidade para aparecer nos meios aonde se afirmam os papéis políticos é desprezível. Afirmar-se criando o deserto à sua volta não foi a estratégia de Sá Carneiro. Este criou discípulos e até herdeiros lhe não faltaram.
Meneses não manifesta qualquer respeito pelos membros do PSD, pelos que têm valor próprio derivado do seu contributo social e político. Aqueles que aderem, que não pagam cotas e a quem nada se mais pede, senão votar nas directas só servem para descredibilizar o partido. Fracos por fracos deixe-se ficar com os que tem.

19 março 2008

Mais clareza precisa-se!

No seu percurso Filipe Meneses já conseguiu alguns objectivos:
1. Ocupou a zona central do palco mediático no que se refere à direita.
2. Tornou os seus contestatários figurantes de segunda e menorizou-os.
3. Marcou a agenda política do PSD com minudências em que os seus opositores se enredam, revelam as suas fragilidades e gastam energias.
4. Descredibilizou quem não se lhe opôs no momento certo e à falta doutro tema aproveita agora aquelas minudências para tirar ilações globais.
5. Criou um corpo de fiéis que acreditam num passeio triunfal por uma alameda de ignorantes e impotentes, súbditos e subservientes.
6. Deu a ideia que a distribuição de benesses passará por ele e não tem pejo em chamar invejosos àqueles que queria a seu lado.
Porém manifesta algumas fragilidades:
1. A truculência empregue na manifestação das suas ideias não esconde a borbulhagem que o ataca.
2. O alvo da sua linguagem continua a ser só o PSD.
3. A falta de definição do que é herança e rotura com o velho PSD, porque não chega fazer propostas radicais e dizer como era bom o passado.
4. A falta de um posicionamento nítido, que as pessoas percebam, entre a social-democracia e o liberalismo militante que mais sobressai em si.
5. A escolha clara de uma linguagem para se dirigir ao povo, que não o choradinho do esquerdismo ou o radicalismo da direita.
6. A escolha do sector social alvo a privilegiar: o rural, o suburbano ou o urbano, já que o corridinho das febras e das sardinhas já não atinge todos os sectores sociais.

18 março 2008

Menos capricho precisa-se!

O dirigente da oposição tem um enorme deficit de decisão definitiva. A sua hiperactividade remete-o para a tomada permanente de decisões. Quando os assuntos sobre os quais lhe cabe decidir são poucos, não tem poder, anda aos rodopios, simula sucessivas tomadas de decisão, sem se preocupar com o seu acerto, até parar em alguma versão definitiva, porque ele assim quer.
Não haverá problema para ele se um dia tiver que voltar ao assunto, dar mais uma reviravolta à questão, reerguê-la, tomar enfim outra decisão. Aliás poderá dizer que quase todos os assuntos foram já alguma vez motivo de decisão e o mundo não avançaria se não houvesse uma repensar das questões mais problemáticas. O problema está naquilo em que se mexe.
Filipe Meneses sente-se com capacidade para mexer em tudo, embora a sua aproximação à realidade seja feita unicamente com a ajuda das suas ideias gerais, das ideias dos seus modelos estrangeiros, com o seu próprio vazio e futilidade. Um bom líder não pode ser aquele que repele as ideias dos seus correligionários e se feche num casulo no qual germina as suas larvas que depois coloca no ambiente exterior a ver se sobrevivem.
Os meninos caprichosos procedem assim. Quando tem a possibilidade de ter um orçamento de Estado atrás de si são particularmente inventivos. Todos os dias têm soluções novas. E não resistem a pô-las a todas na praça pública. Que elas sejam contraditórias entre si não lhes interessa em particular. Que este modo de agir possa causar desconfiança ou implicar custos não recuperáveis não lhes interessa.
Os meninos caprichosos também se adaptam à democracia. Quando esta não tem força, fazem por realçar o seu papel de decisores, por se apropriarem eles da força, do poder. Quando a democracia impõe regras, só assumem a responsabilidade das decisões que têm sucesso, ofuscando a origem das outras. Só têm satisfação pessoal no que podem atribuir a si mesmos.

17 março 2008

Menos arrogância precisa-se!

A oposição desunha-se a procurar uma qualquer característica pessoal que possa atribuir a José Sócrates para o desacreditar. Vasculharam o seu passado, demasiado trivial para que tenha qualquer efeito a sua utilização como arma de arremesso. Acabaram por ficar pela arrogância, uma postura que na opinião dos seus críticos terá para com o povo miúdo, mas que a realidade manifestamente nega.
Era o que faltava querer que o primeiro-ministro fosse uma pessoa subserviente para quem quer que seja. As decisões do governo são quase sempre lesivas dos interesses de alguém sem que muitas vezes se não veja quem vai ganhar com isso. Quer dizer que este governo encontra sempre mais gente contra várias da suas medidas concretas do que quem as apoie.
Isso passa-se um pouco com todos os governos. Mas quando um governo como este procura conciliar os interesses do desenvolvimento nacional com o apoio aos menos favorecidos nem sempre obtém um apoio claro destes, até porque estes entendem normalmente que esse apoio ainda lhes não chega mas também não se ouvem porque não têm palco e visibilidade suficiente.
As decisões que um governo toma são a diferentes níveis e sofrem variadas contestações, são mais ou menos apuradas e quem as põem em causa sustenta mais ou menos as suas razões. O que não se pode dizer é que a dose de capricho que possa haver numa tomada de decisão se agravou com este governo, antes pelo contrário.
Quem necessita de ser menos arrogante é a oposição e particularmente certas das suas personagens, até porque a arrogância é um sentimento de carácter pessoal, que só por liberalismo de linguagem estamos a aceitar que se aplique a um governante, enquanto tal. Quem será mais arrogante que Paulo Portas? Quem o quererá mais ser que Filipe Meneses?

16 março 2008

Menos radicalidade precisa-se!

A radicalidade imposta à política nacional, em que as posições se extremam cada vez mais, tem como efeito imediato o estreitar da base de apoio de todos os partidos em presença que ambicionam deter o poder. Os outros, sem essa preocupação imediata, aparentam estar melhor de saúde do que nunca.
O abalo provocado nas certezas, ou pelo menos na capacidade de o governo conseguir levar avante as suas reformas, resultado em muito de uma oposição interna decrépita, quase imbecil, é de molde a ser necessária uma grande força e determinação do governo para o ultrapassar.
O abalo provocado na credibilidade da oposição, que já estava seriamente abalada pela inacção do seu governo anterior, resultado em muito de velhas guerras internas entre barões partidários, dificilmente terá recuperação porque o seu actual líder gosta mesmo de viver neste ambiente de bulício permanente.
Não se vê como Filipe Meneses vai conseguir meter algum tino naquela cabeça eternamente convencida que encontrou todas as verdades e que de forma constante procura ter algumas certezas. Já que não consegue juntar todas as tropas com certeza que com a sua ambição desmedida consegue que muita gente tenha a fezada e o apoie.
Não se vê como Filipe Meneses vai conseguir gerir a já pouca disponibilidade dos outros para o ouvir, para aceitar os seus golpes baixo, altos, de todo o género que dispara em todas as direcções à procura de que, seja com medo ou não, acatem a sua liderança, lhe dêem o cheque em branco, só com o qual sabe viver.

15 março 2008

Mais razoabilidade precisa-se!

Quase toda a gente fala de uma esquizofrenia colectiva, mas poucos são aqueles que aceitam a doença em si. Cada qual faz a comparação do seu próprio estado de saúde com o daqueles que lhe estão mais próximos e é normal concluir que, se não está melhor, decerto que não está pior.
Todos temos uma pressa imensa de obter um objectivo qualquer, indefinido, nunca alcançável e que portanto nunca nos dará aquilo que deste o berço ambicionamos, ter razão. Só alguns poucos, felizardos, não precisam de realizar os seus objectivos, que também os têm, para se sentirem com razão.
Alguns ainda menos conseguirão acertar nos objectivos que definiram para a sua vida e os vão realizando, adquirindo desse modo a razão que é a causa última da sua luta constante. Mas nunca terão descanso porque sempre estarão sujeitos ao apelo de mais ambição, mais ambição.
Isto de nos quererem impingir a ideia que temos de ser eternos insatisfeitos é um tremendo erro, maior ou menor conforme a sociedade em que nos inserimos e nos transmite essa ideia de trabalharmos incansavelmente em seu favor. Porque são quase todos uns cínicos, nada dispostos a cumprir pela sua parte, é uma mensagem que só tem como destino o outro.
A nossa saúde mental e a da sociedade exigem que consigamos aplicar nas nossas ambições um modelo de razoabilidade, que não é mais do que deixar de andar permanentemente à procura de ter razão, com a exigência esquizofrénica de que ninguém tenha mais razão do que nós.
Todos nós precisamos de objectivos na vida, mas os felizardos são, como atrás se disse, aqueles que não necessitam de os ver realizados para se sentirem com razão. Se todos pensássemos desta forma, a sociedade seria muito mais razoável para todos nós.

14 março 2008

O que pode fazer um político que não se preze

O nosso principal problema, visto por aquilo que se pode entender por senso comum, é o ritmo. A nós falta-nos ritmo a nível nacional, a nível local, a todos aqueles níveis que nós gostamos de deitar abaixo, nem que seja num nível como o futebol que já pusemos nos píncaros da lua. Digamos que se há níveis a que nos portamos bem, não acreditamos que seja por muito tempo.
O melhor será sempre puxar pelo ritmo, exigir sempre mais, assim nunca ficamos mal, não é por nossa culpa que as coisas não vão para a frente. Empreguemos um ritmo infernal, quem disser que não pode que se vá embora, quem não estiver disposto a esfarrapar-se que desapareça. A maioria dos políticos talvez pense que dar à língua a um ritmo assim convence alguém. E convence.
Político que se preze, se for do governo tem que estar calado que não nos vai pedir para sairmos do nosso ritmo que nós não queremos, os professores não querem, os médicos não querem, os magistrados não querem, ninguém quer, deixem-nos sossegados.
Político que se preze, se for da oposição tem que zupar neste ritmo ronceiro do governo, arre porra que não sai do sítio, não nos dá incentivos para andarmos a um ritmo mais acelerado, não dá estímulos a ninguém, nem a professores, nem a médicos, nem a magistrados.
Político que não se preze não se deixa levar pela demagogia. Porque é que isto acontece? Como é possível ter perspectivas tão diferentes conforme o local em que nos colocamos? Se a um nível nos parece haver um ritmo certo ele pode ser transferível outro nível? Como é possível encontrar o ritmo certo? Interessará ele a alguém? Podemos copiar o ritmo de um outro País?
Político que não se preza pede-nos mais empenho na laboração e menos na contestação a qualquer aspecto mais rigoroso. Político que não se preza dá sempre à língua a um ritmo que não agrada a ninguém. E não convence.

13 março 2008

As reservas do PSD já bolem

Está visto que a malta bem-pensante do PSD está bem colocada na vida e não está para se preocupar em demasia com a vida política, mesmo que dela dependam alguns dos seus tachos. Pensarão que já tiveram o seu tempo, que agora é ocasião para nova gente.
Esta questão podia ser vista sob dois aspectos, um positivo pois era bom que os velhos não ficassem toda a vida a entupir o acesso dos novos à ribalta, outro negativo porque um acesso desregrado provoca distúrbios e dá um espectáculo triste de uma multidão ululante à procura de tacho.
E isto perturba a malta bem-pensante do PSD, mesmo que a tal multidão ululante se resuma afinal a uma direcção tão truculenta que faz barulho por milhares. O problema é que esta nova gente está cheia de velhas manhas e vejam lá que já foi buscar a Salazar aquela velha fórmula de despedir o pessoal. Só querem o palco para si.
Eles querem criar um cenário em que tudo seja novo e eles sejam os maestros que possam experimentar todos os instrumentos e sons. Os outros são espectadores e esporadicamente serão chamados ao palco para compor o cenário. Até nova ordem têm que se manter calados porque todo o ruído é maléfico.
É necessário dar a ideia do seu interesse pela política e que ele assenta numa paixão desinteressada pela coisa pública. Mas eles têm que ter um tempo para pôr ordem na sua cabeça antes que pretendam pôr a ordem na cabeça dos outros.
A malta bem-pensante do PSD bem fala, mas é porque está esquecida das armas do jogo sujo, da chantagem emocional, da utilização dos sentimentos primários de pertença e de partilha. Esta nova malta está mesmo decidida a remexer no baú da história, a desenterrar sentimentos e fantasmas e a pôr toda esta gente a bulir.

12 março 2008

O veneno começa a aparecer à luz do dia

A malta bem-pensante do PSD deixou que Meneses se engalfinhasse em Mendes e tal como dois meninos truculentos chamaram todas as atenções sobre si. No fim da briga o que perdeu fugiu, o outro ficou dono do palco.
Estava visto que, se esses bem-pensantes gostavam pouco de Mendes, demasiado envolvido na baixa política, gostavam ainda menos deste febril navegante que quer recriar os tempos de indefinição em que surgiu a figura de Sá Carneiro a tentar dar um rumo ao partido e ao País.
Mas como é possível esta gente ter sido assim apanhada se não há nisto surpresa? Por comodismo, porque ninguém com valor está para se sujar na praça pública perante políticos deste cariz?
Este novo homem do leme começa a criar os primeiros enjoos mas a sua estratégia é premeditada. Quem se não sentiu bem pode já saltar do barco. O facto de a realidade ser diferente da dos finais dos anos setenta não o preocupa minimamente porque Meneses se convenceu, como médico já desclassificado, que, havendo os mesmos sintomas se deve aplicar o mesmo tratamento adoptado noutro tempo. Tanto evoluiu a medicina para nada.
Os apoiantes de Mendes estão órfãos, como órfãos ficaram os que apoiaram os dirigentes anteriores a Sá Carneiro. Os bem-pensantes são agora convidados por Meneses para tirarem da brasa a sua sardinha enquanto vão a tempo. Não duvido que alguns vão provar do veneno.

11 março 2008

Os comunistas, a vida partidária e o ensino

Os comunistas andam a tentar afectar a vida partidária. As arruaças que fazem à porta das sedes socialistas, e mesmo que seja noutros locais onde os dirigentes socialistas se dirigem, só dizem da forma miserável para que querem que descaia a vida política.
Os comunistas não são capazes de aprender com os erros do passado. Não é a sua votação que lhes permite exigir alguma inflexão na política definida pelo governo nesta legislatura. Mas poderão manifestar o seu desagrado, só que há outras formas mais democráticas de o fazerem sentir.
Os comunistas vêem sempre os socialistas como a barreira que necessitam de deitar abaixo. Se os socialistas estão no poder tentam fazer-lhes a vida negra, convictos de que tratam melhor com um Filipe Meneses qualquer do que com quem tem uma ideia coerente e moderna para Portugal. Uma ideia socialista que privilegia a liberdade, a primeira ideia que eles põem em causa.
Porque os comunistas não negoceiam com ninguém. O seu dirigente Nogueira nos sindicatos de professores é que dirige, controla e orienta todas a acção comunista no sector mais vulnerável do Estado, a educação. Que apareça alguém que tenha sido ouvido e que se não tenha deixado somente arrastar por uma acção não apropriada para discutir o que está em causa?
Os comunistas servem-se destes “inocentes” professores para criar um clima de instabilidade, em que o efeito prático de contribuir para a criação de um corpo de privilegiados lhes não interessa. Para eles o importante é não permitir que a ensino estabilize, conseguir que as ideologias continuem a influenciar o ensino, manter uma forma de financiamento num grupo rico.

10 março 2008

A invocação dos mortos na ajuda aos vivos

Um morto deixa sempre uma herança. Ao morrer atrás de si deixou uma vida, um percurso, ideias mais ou menos avulsos, mais ou menos coerentes, mais ou menos consistentes. Um morto não tem porém a versatilidade de um vivo para sabermos a sua ideia sobre um aspecto qualquer da actualidade.
Como o morto está morto para todos os efeitos, no aspecto das ideias não há herdeiros que se possam arrogar do direito de o ser, mesmo que haja quem procure estar mais próximo do procedimento que o morto adoptaria se fosse por acaso ainda vivo. Então no seu passado temos que procurar a situação mais parecida com a actual e ver qual a atitude que o morto tomou.
Pode ter sido no princípio, no meio ou no fim, mas a verdade é que há sempre uma décalage que o próprio, se fosse vivo, se encarregaria de gerir e que nós só por aproximação poderemos imaginar. Como é evidente nunca poderemos estar seguros de ter uma interpretação coincidente.
Os mortos invocam-se para nos dar razão, o que pressupõe que consigamos convencer os outros de que a nossa maneira de ver é a mais correcta. Mas os mortos também se invocam para nos dar força, o que é uma manifestação de confiança. Quem invoca os mortos para lhe dar força fica sempre a ganhar em relação a quem os invoca para ter razão.
Os comunistas invocam Cunhal para lhes dar força. Santos Silva invoca-o para lhe dar razão. Mas Santos Silva ainda cometeu outro erro. Colocou este sacripanta do Nogueira ao lado de Cunhal. Foi a maior ajuda que lhe podia ter dado. Ter Cunhal ao seu lado sem necessidade de provar que ele lhe daria razão vai-lhe afectar positivamente o ego.

09 março 2008

A política é feita também de afectos

A política é feita de afectos, de causas e das pessoas que na nossa opinião as corporizam e estamos prontos a defender. Tudo isto deve ser obtido no fim de um processo de observação e análise a que devemos submeter a realidade. Mas estamos sempre em confronto com pessoas que não se dão a esse trabalho ou só se preocupam em obter argumentos a favor das suas ideias já pré-definidas. O diálogo torna-se difícil.
Pior ainda quando estão em causa posições de poder. Aí poderá haver negociação e se todos apelam ao diálogo é evidente que se não querem ficar por aí. Daí não ser correcto acusar alguém de falta de diálogo quando é justo termos objectivos de convencer ou forçar alguém a ceder em algum aspecto.
Por isso nós podemos dialogar e fazê-lo com base apenas nas nossas ideias ou sem estarmos a negociar pensarmos naquilo que faríamos se detivéssemos algum poder. A análise do percurso político que desejamos para o País, das ideias que vistas de um ponto de vista abstracto estamos decididos a defender ou daquelas que vistas de um ponto de vista concreto verificamos ser possível implementar no País determinarão o nosso posicionamento.
De qualquer modo quando há empenho intelectual nosso, quando verificamos que as resistências dos outros também são de natureza afectiva é perfeitamente legítimo e claramente responsável que nos empenhemos de um modo afectivo na defesa das nossas convicções.

08 março 2008

Uma luta justa, a da Ministra

Melindrados, feridos ou mesmo a sangrar os professores tem que abandonar a ideia de que são um corpo especial de funcionários públicos, com privilégios especiais, horários de trabalho mínimos, férias máximas, remunerações avantajadas. Os professores não são mais pagos para serem os agentes de defesa da ideologia do Estado. Afinal para quê o Estado precisa deles se só transmitem má educação e maus princípios.
Esta visão de conjunto, resultante da permissividade com que os professores em geral, que se diferenciam deste paradigma mas delegam a sua representação em gente de má índole, não poderá ser generalizada. Porém ninguém gosta de perder benesses e se alguém lhes diz que essas benesses são direitos está normalmente inclinado a deixar-se advogar. Esta atitude passiva ou de Maria vai com as outras não é nada inocente.
A Ministra da Educação tem sido particularmente dialogante, sendo certo que ela possui do seu lado o apoio da grande maioria da população que, por mais respeito e gratidão que possa ter pelos professores em geral, não se deixa arrastar por atitudes sentimentais quando o que está em causa não é nada daquilo que os manipuladores pretendem. Os professores é que andavam enganados sobre qual o lugar que lhes cabe na sociedade.
A Ministra luta por um melhor ensino, pela construção de condições para que ele se processe melhor, que hoje sem disciplina e organização, sem empenho e colaboração não há avanço que persista.

07 março 2008

Um professor nunca mais será visto com os mesmos olhos

As lutas que os professores desenvolveram no período democrático da nossa vida colectiva não foram de modo a se verem privados de uma certa sacralização que sempre os beneficiou. Antes do 25 de Abril de vez em quanto lá havia um professor vítima da política salazarista de controlo absoluto do ensino desenvolvido na escola. A maioria calava-se.
O professor, fosse pago por quem fosse, era visto como o portador de um saber que era essencial para que nós progredíssemos. Beneficiava sempre de um sentimento afectivo positivo mesmo quando as circunstâncias da vida nos levavam a aceitar mal a escola. Os 1750 Escudos que um professor primário recebeu durante tantos anos eram uma referência para todas as outras profissões ditas intelectuais e não se destacavam delas como hoje.
A ligação que se criou nesses tempos entre alunos e professores genericamente ainda hoje se mantém. A mais íntima será com os professores do ensino primário já que o ensino era geralmente assumido por um só professor durante pelo menos um ano, mas muitas vezes durante mesmo os quatro anos de escolaridade.
As lutas que os professores foram desenvolvendo permitiram-lhes sem grandes custos alterar significativamente o seu estatuto de modo totalmente descabido em relação à maioria dos outros sectores profissionais. Beneficiaram do alargamento do ensino a todas as camadas sociais, assenhorearam-se da condução da política educativa, entraram em autogestão.
Mas os professores não têm sabido ser humildes, não tem sabido ser solidários com a restante população, não tem sabido ser leais para quem lhes confiou uma tarefa tão nobre e daí a dessacralização que se está a operar e que vai levar a que um professor nunca mais seja visto com os mesmos olhos de antigamente.

06 março 2008

Tudo por respeito e por gosto

Os professores que se têm integrado nestas últimas manifestações espontâneas/programadas dizem-se vítimas de uma falta de respeito pelo seu papel social. Na realidade o valor desse papel deve ser avaliado sob vários ângulos e tem que ser admitido até um papel negativo, que a escola seja hoje um factor de excessiva diferenciação social e até de exclusão.
O papel social do professor em abstracto é relevante mas está hoje longe de corresponder ao investimento que é feito no ensino, seja por via do Estado ou do orçamento familiar. É perfeitamente legítimo que o Estado assim como os particulares reavaliem esse gasto e os professores portugueses têm que se convencer que isso não é para agora apenas, mas terá que ser permanente e para sempre.
Os professores não gostam que não gostem deles como se fosse obrigatório gostar. Os professores têm conseguido manter bem longe da escola essa possibilidade de serem contestados, essa avaliação de qual afinal a valia do seu trabalho. E tomavam tudo isso por respeito e por gosto. Tantos anos a viver numa redoma, num mundo fechado levou-os a serem melindrosos e quando não preguiçosos.
A falsidade tem que ser afastada da escola. Uma falsidade que é verdade não está a ser posta em causa pelo laxismo que é recomendado na avaliação dos alunos. Mas isto é a um outro nível, que terá também que ser alterado por outras vias. A falsidade que se vive na escola a nível de responsabilidade ainda está por ser posta a nú.

05 março 2008

Veneração e recompensa

Muitas vezes mais valia estar calado. Eu não falo contra o direito de qualquer um de nós de falar. Mas quando se quer atingir um objectivo conjunto com outras pessoas é natural que uns ajudam ao falar, outros prejudicam claramente. Por alguma coisa há líderes, porta vozes, assessores de imprensa e até outras mais modernas para escolher o sítio, o que se diz e a quem se diz.
Os professores que se têm integrado nestas manifestações espontâneas/programadas são de dizer coisas que não deviam, aparecem como pessoas que por qualquer coisa se melindram, que se acham acima de quaisquer críticas, que querem veneração e recompensa.
Os professores não se acham funcionários como outros quaisquer, não aceitam que são funcionários embora seja no desempenho duma função que consiste o seu trabalho. Para se ser professor seria bom mas não é necessário ter espírito de missão, debaixo do qual muitos se querem acobertar. Entre os outros funcionários públicos há muita gente que dá formação, que prepara os seus companheiros melhor que no ensino para a execução das suas tarefas.
Os professores não gostam que não gostem deles como se fosse obrigatório gostar. De certo que aos alunos não se lhes pode dar o poder de gostar ou não do professor, porque lá se iria a disciplina, mas é um desplante tremendo querer que os outros sectores sociais, os superiores hierárquicos, o governo gostem dos professores que temos.
Os nossos professores não sabem viver na rua como professores e agora que baixaram ao alcatrão das cidades, trazem à baila assuntos despropositados, põe em causa aquilo que é suposto não interessar abordar neste ambiente, aquilo que devia estar reservado para ser discutido em órgãos próprios de gestão e orientação pedagógica do ensino.
Estes professores querem-se atribuir uma importância que só os regimes que apostam em fazer o controle ideológico dos seus alunos lhes dão. Eles bem sabem que já hoje a sua importância é menor, perante o ensino modular, o ensino via Internet, e será cada vez menor perante a expansão de instrumentos de ensino que não exigem uma mediação tão constante e prolongada, quando muito um leve acompanhamento chega.

04 março 2008

Mediação não se vê, mas clarificação vai havendo

No programa Prós e Contras foi proposta uma mediação. Não haverá dúvida que esse caminho podia ser seguido sem perca da dignidade de ninguém, mas a verdade é que faltará ainda muita distância para que isso seja possível na sociedade portuguesa, onde é pela crispação que se faz a mobilização das tropas favoráveis contra as inimigas. Meneses, o PCP, os sindicatos andam a juntar tropas, não andam a esclarecer o povo.
Numa sociedade em que se sabe que o demasiado legalismo é inoperante, mas mesmo assim se exige que todas as garantias e mais algumas estejam estipuladas na lei, é difícil fazer justiça por acordo entre as partes e o que se passa na política é só um aspecto deste excessivo rigor na defesa de posições próprias que dá origem a um imobilismo revoltante.
Os últimos desenvolvimentos na discussão do problema do ensino não levarão à mediação mas já vai havendo uma clarificação nas posições assumidas quer por grupos de interesse, quer por interessados, quer por técnicos, até mesmo alguns políticos se têm visto na necessidade de intervir para que não se deixe andar e depois a sociedade venha a pagar por isso.
É hábito tentar aproveitar as divergências de opinião entre políticos do mesmo partido, mas isso só faz sentido se as opiniões forem de pessoas competentes para o efeito. E neste caso é legitimo que sejam invocadas essas opiniões. São várias as que no PSD se vêm agora afirmar contra esta aliança espúria de Meneses & Nogueira, essa firma porreira.
No PCP não há divergências mas o Jerónimo já veio dizer que não vai à manif, não viesse a ter que dar um beijo ao Filipe e andar de braço dado com a direita. Ele que tão bem recebido foi em Anadia não deveria retribuir desta maneira, mas é lá com ele.

03 março 2008

Porque estas reformas são mais formais?

O interesse político imediato está a baralhar os dados desta questão tão profunda, tão marcante, tão decisiva para o nosso futuro. Ouvi ontem dizer que uma falha desta reforma que o governo tem em marcha é não se discutir o conteúdo e só se preocupar com os aspectos formais.
O problema é que muitos dos aspectos formais desta reforma já há muito estão identificados como a causa pela qual não passam outras tentativas que já têm sido lançadas de alterar os aspectos substanciais do ensino. Esta alteração é nomeadamente formal para que os aspectos formais não impeçam uma verdadeira revolução a fazer no ensino.
Uma intervenção efectiva da sociedade, uma participação interessada, mas esclarecida, dos agentes económicos, serão mais ou menos eficazes se no aspecto formal forem correctamente definidos os seus limites. Não há qualquer eficácia numa intervenção deste tipo que não passe pela presença de pleno direito nos órgãos de decisão das escolas.
A gestão dita democrática das escolas patrocinada pelos sindicatos comunistas é uma situação anómala a nível dos organismos do Estado. Na sociedade civil não se permite que quem paga não oriente, num organismo público é o Estado que deve definir a base legal em que assenta o seu funcionamento e em casos como o ensino é perfeitamente legítimo que todos os interessados participem nesse funcionamento, sem nunca se chegar ao ponto a que se chegou de que só mandam os que têm que cumprir.
Dizer que os professores estariam sempre prontos a colaborar numa verdadeira reforma centrada nas questões que têm por base o aluno é uma falácia tão grande como pretender pôr um restaurante a funcionar sem a estrutura física e sem definição das funções de cada cozinheiro.
A organização, a disciplina, a responsabilidade e a liderança são hoje a base do sucesso em qualquer domínio da actividade humana. Embora possam defender certos direitos dos professores, os sindicatos não podem ser mais os definidores da política de ensino, nem detentores de qualquer poder que possa sabotar todas as legítimas orientações dos órgãos superiores de gestão.
Para que será esta Meneses & Nogueira, uma firma porreira?

02 março 2008

Por um ensino moderno e sem angústia

Os sindicatos arriscam aqui e agora tudo. Não haverá apelo, seja dos pais, do Presidente da República, seja de quem for que os faça parar. Os sindicatos querem readquirir uma clientela que vinham perdendo. Assentaram toda a vida democrática o seu poder sobre o domínio objectivo dos centros de decisão no sector do ensino e perdendo-os ninguém mais lhes vai dar importância.
Os sindicatos puseram-se numa encruzilhada e não vão sair dela com dignidade. A sua acção tem sido nefasta, corrosiva, mais preocupada em destruir os pressupostos ideológicos em que assentava o ensino antes do 25 de Abril do que em contribuir para a definição de outros princípios que devem servir de base para um ensino moderno e sem angústia.
A não satisfação das pessoas deve-se aos problemas económicos que afectam pais, alunos e futuros integrantes do mundo do trabalho. Mas os sindicatos ideologicamente conotados não aceitam que a economia seja claramente posta no centro do problema, não aceitam que os alunos sejam preparados em função do papel que lhes pode ser atribuído na sociedade.
Resolver aqueles problemas económicos para os sindicatos é resolver a velha questão da atribuição do poder a um partido único, capaz de pôr a economia a funcionar de pernas para baixo. A verdade é que, quando isto já não passa pela cabeça de ninguém, surge esta união contra natura entre Meneses e Nogueira que pretende que tudo fique na mesma no ensino para que aquele sonho comunista ainda seja possível.
Aquelas senhoras que aparecem na televisão a defender a sua dignidade de professores empenhados foram convencidas que todas as culpas pela ineficiência do sistema lhes foram atribuídas e que se devem manifestar por isso. Nem isto é verdade, nem ninguém pôs a questão neste ponto. Alterar o sistema é muito mais do que passar atestados de estupidez a alguém.
Ficam-se pelo Meneses & Nogueira, uma firma porreira!

01 março 2008

Meneses & Nogueira, uma firma porreira!

Esta união contra natura entre Meneses e Nogueira que pretende destruir a reforma que o PS quer fazer e de que o PSD nunca foi capaz, contribui para a manutenção de um estado parasitário de muita gente que do ensino só faz uma garantia de uma boa reforma e de um vencimento condizente.
A educação é o sector que mais ministros tem tido depois do 25 de Abril, é o sector mais contestado, que mais insucesso revela entre todos os sectores de actividade a que se dedicam os portugueses. Haverá outras razões, do foro económico, do foro familiar, da falta de uma base de apoio, mas não há dúvida que os professores têm-se habituado a navegar incólumes nestas águas, sem aceitarem as responsabilidades que manifestamente lhes cabem.
A educação é o sector que mais licenciados emprega e em que pode haver um maior entendimento pela uniformidade de habilitações e de modos de vida, maior facilidade de circulação de informação entre os seus agentes. A educação é o sector que deveria estar na vanguarda da modernidade virado única e exclusivamente para o aluno, a sua razão de existência.
Da escola espera-se uma adequada socialização da juventude, a sua preparação para os desafios do futuro, para que se não sinta desadaptada numa civilização concorrencial, para vir a, se necessário, fazer várias reconversões durante a sua vida activa.
Os professores dão uma imagem de imobilismo que contradiz tudo o que seria de esperar. Os professores deturpam a informação, não servem de exemplo para alguém, inclusive para os alunos. Os professores deixam-se manipular por outros professores sem escrúpulos que dominam sindicatos e outras associações com uma perspectiva somente economicista.
Depois do Nogueira surge agora com o maior desplante o Meneses. Meneses & Nogueira, uma firma porreira!

29 fevereiro 2008

A dedicaçao a uma profissão a tempo inteiro

O ensino unificado foi aceite por muitas boas almas como uma forma de combate às desigualdades sociais que havia mas que se não eliminaram após o 25 de Abril. As escolas incentivaram o conformismo, a aceitação da mediania porque isso era uma forma de não passar por elitista, ninguém queria ser responsável pela diferença.
As classes poderosas mexeram-se, procuraram o ensino particular, procuraram as explicações, na realidade quase aulas paralelas, para que os seus filhos não fossem vítimas da bandalheira reinante. As classes desprovidas de meios conformaram-se, apelaram à força de vontade dos filhos, quando esta não chegou para vencer as dificuldades, viram entrar a desilusão e quiçá a droga nas suas vidas.
Perante um professorado que, na grande maioria, olha a prática do ensino como um part-time, exerce profissões liberais como engenheiros de construção civil, contabilistas, comerciantes, se dedica despudoradamente às explicações, os alunos estão desprovidos de meios de defesa e os pais incapazes de fazerem inverter situações desfavoráveis aos seus filhos.
Só uma acção persistente do governo é capaz de ir corrigindo estas situações, o que não é fácil perante a força paralisante dos sindicatos, sedentos de sócios para continuarem as suas acções, de protagonismo para justificarem as quotas dos filiados.
O governo tem que diminuir o tempo dos seus filiados que cada sindicato está no direito de utilizar para as suas actividades. O governo tem de ter uma política educativa aceite pela sociedade e adequada ao estado da economia que faça pôr em prática por todos os profissionais da educação. A igualdade de oportunidades não pode esquecer as diferenças naturais e a necessidade de diferenciação que a vida económica exige.
O governo tem que privilegiar aqueles que executam somente a profissão de professores, dispensando progressivamente aqueles que tem outras formas de rendimento. Uma profissão a tempo inteiro é uma exigência, que resolveria muitas das questões do ensino.

28 fevereiro 2008

Meneses e Nogueira olham um para o outro com a desconfiança de quem não sabe se se segue um beijo ou uma mordidela de víbora?

Em Portugal o ensino era um dos sectores que no 25 de Abril se encontrava em situação claramente mais desfavorável do que na Europa desenvolvida. Se houve um aumento quantitativo dos alunos e dos anos da sua escolaridade, a verdade é que no ponto de vista qualitativo nunca houve a definição de um ponto de referência nem qualquer significativo aumento qualitativo.
Após uma clara degradação inicial tudo que viesse foi entendido como ganho, sem nunca se ter avançado deveras. À medida que foram definidos novos patamares de escolaridade obrigatória, foram-se baixando os níveis de exigência. Os que clamaram por uma melhoria do ensino só se preocuparam na realidade com as suas condições remuneratórias.
O aparelho de ensino, a todos os níveis, desde os órgãos de planificação do Ministério aos órgãos de gestão das escolas, foram tomadas por uma pretensa vanguarda defensora das suas prerrogativas e que tudo fez para sabotar sub-repticiamente, ou quando necessário mesmo às claras, as ténues mudanças que os sucessivos Ministros tentaram implementar.
Os sindicatos não podem impor qualquer política educativa porque são uma só das partes e tão só funcional deste problema. A economia não pode contribuir tão só para o sistema de ensino e prescindir de ter algo a ver com ele. Aqueles que vivem do sistema não o podem gerir a seu belo prazer. Em todos os outros serviços da função pública isso é tido em conta e o ensino não pode ser diferente.
Para que o ensino tenha uma melhoria a nível global estas reformas ainda estarão longe de chegar. Mas sem um corpo lectivo disciplinado, organizado, obediente em relação ao princípio da responsabilidade política, que não fira os seus valores morais, sem uma máquina administrativa e lectiva bem preparada não há governo, nem vontade que resista.
O que sindicatos e PSD querem fazer em conjunto é uma sabotagem permanente. Àquele ar com que olham uns para os outros seguir-se-á um beijo ou uma mordidela de víbora?

Quanto mais este País estará sujeito a este espectáculo?

Filipe Meneses anda empenhado em criar problemas ao governo e qualquer questão lhe serve. Simultaneamente é a governabilidade deste País que ele está a pôr em causa.
Para muitos não haverá nada a perder e não há como experimentar, como dar a este aventureiro a possibilidade de pôr em prática uma visão política que ninguém descortina mas que terá o direito de advogar.
Se a Ministra da Educação cometeu erros, inclusive de querer resolver um exagerado número de questões ao mesmo tempo, o que permite alargar a base contestatária, não há dúvida que é da oposição que surge o propósito de confundir uma série de questões.
A Filipão agora só interessa ser do contra, convencido que está que ser radical é a única maneira de chegar a primeiro-ministro e depois vai ter o tempo todo do mundo para tentar resolver os nós que está agora apostado em criar. Filipão está apostado em fazer perder tempo ao País.
Filipão é um empata, que age sem convicção, que ziguezagueia ao sabor dos ilegítimos interesses que a acção do governo vai atingindo. Filipão, como político já há muito não devia ter lugar neste País, não fora a imprensa gostar do folclore que uma personagem destas proporciona.
Que se cuidem porque estas afinidades com os sindicatos comunistas não são casuísticas, antes revelam que intrinsecamente se trata de pessoas com muitas mais concordâncias no que respeita à maneira como desejam condicionar a vida da sociedade, actuando a níveis fulcrais como o ensino e a liberdade de imprensa.

27 fevereiro 2008

16 - Que política para Ponte de Lima?

O nosso passado pode ser um constrangimento para muita coisa, pode-nos influenciar o futuro consciente ou inconscientemente, mas está provado que não tem nada a ver com as nossas possibilidades de sucesso nesta ou naquela área de actividade, isto é, o nosso sucesso só está dependente da falta ou existência de tempo ou de condições.
Nos tempos da Idade Média, mais ou menos em todo o mundo, os filhos dos agricultores teriam necessariamente de continuar a ser agricultores e a tempo inteiro. Nos tempos de Salazar, mais ou menos em todo o País, mas particularmente em Ponte de Lima, os filhos de agricultores teriam necessariamente de continuar a ser agricultores ou trabalhar em actividades complementares, entre as quais se pode incluir a construção civil.
Nos tempos de Campelo em Ponte de Lima os filhos de agricultores já só podem ser agricultores em casos excepcionais e os restantes terão que ir necessariamente para as tais actividades complementares. A não ser que optem por uma actividade de certa forma similar da agricultura que é a jardinagem. Porque, e aqui está a razão pela qual falo em Campelo, a jardinagem foi colocada no seu tempo como uma profissão de sucesso.
Tudo o que seja criar beleza é meritório mas também o são todas as actividades mais práticas que tenham conjuntamente fins lucrativos. A beleza para ser admirada não necessita de ser dissociada da vida normal e enclausurada em jardins exóticos.

26 fevereiro 2008

15 - Que política para Ponte de Lima?

Na economia mercantil a que nós viemos todos parar, sem que muitos ainda saibam como, a tudo é atribuído um valor de mercado. Isto faz com que tenhamos uma comparação imediata entre o valor de uma mercadoria estabelecido aqui e o valor da mesma mercadoria numa outra região qualquer do mundo. Como ainda por cima a globalização ocorreu para muitos à mesma ocasião, foram surpreendidos pela existência de um preço padrão que é utilizado por todos como de referência.
Os efeitos da globalização chegaram cá com uma velocidade estonteante para aquilo com que nós estávamos habituados numa região em que os ciclos económicos seriam de quinhentos anos. O último ocorrera com a chegada das novas culturas descobertas na América, como o milho, o feijão, a abóbora e outras. Agora chegou apenas a notícia de que os cereais tiveram um aumento extraordinário na bolsa de Chicago e tudo pode mudar.
Será viável a agricultura com o fim de obter energia? Tornar-se-á compensatório voltar a velhas culturas? É de crer que não. Efectivamente os outros factores de produção pertencem à mesma linha e já estão a encarecer antes de se colher o cereal e a terra mantém nesta região do País as mesmas características que lhe conhecemos há décadas, agravadas com a pressão urbanística que se faz sentir nos sítios mais extravagantes.
Olhar para trás não parece ser seguro. Perdemos a observação daquilo que se passa à nossa frente, perdemos as oportunidades que se nos podem deparar nos novos domínios de actividade e desvalorizamos cada vez mais o nosso trabalho, a nossa capacidade de incorporar mais valias, o preço que nós temos o direito de exigir por nós mesmos.

25 fevereiro 2008

14 - Que política para Ponte de Lima?

Só existem duas formas de lutar pelo progresso. Uma passa por adquirir conhecimento, acumular dinheiro, cooperar, organizar, empreender. Outra passa por exigir que o Estado faça tudo, ensine, crie empregos, pague bem, dê assistência, dê mesmo cultura ou divertimento. Em Portugal quer-se sem comunismo isto que não foi possível obter com comunismo.
Nesta terra de retaguarda, historicamente resguardada de conflitos extremos, colocada à margem do progresso, que só muda por pressão insustentável da economia, que soçobrou perante a economia de mercado, tendo que procurar novos modos de vida, até existe dinheiro mas não sabe lidar com ele. Após a ostentação do ouro ou o seu esconderijo na arca, surgiram as promissórias e os certificados de aforro.
Nunca em Ponte de Lima se procurou mercado para os seus produtos para além da próxima curva da estrada. A Adega perdeu-se no meio das suas indefinições e desvios. A fábrica do queijo perdeu-se à míngua de matéria-prima. A salsicharia faz um percurso seguro mas muito concorrido. Os acessórios de automóvel são uma excepção, mas por natureza inconstante.
A pedra é hoje a nossa imagem de marca. Tudo indica que o poderá ser durante muito tempo. Mas o grande empregador é a construção civil e as obras públicas. O mercado galego é hoje o principal destino dos nossos trabalhadores. Amanhã não se saberá. Andamos pelo Algarve, Sines, Lisboa, Porto, Braga, Andorra, Paris, por toda a Europa, nada nos mete medo.
Empregamos os lucros numa casa própria e pomos o dinheiro no banco. Nada estudamos, nada organizamos, somos uns insolentes que pensamos saber tudo e que temos direito a esperar tudo feito.

24 fevereiro 2008

13 - Que política para Ponte de Lima?

Em Ponte de Lima, só pelo facto de alguém ser de Ponte de Lima, está desde logo desvalorizado. Nós desdenhamos de nós próprios, desprezamo-nos mesmo e essa já é a imagem que passa lá para fora. Até há uns anos eram só os Vianenses que a tinham, mas isso passava por ser uma simples rivalidade regional sem qualquer valor.
Há uns dois anos lançaram uma telenovela de nome Sete Vidas em que uma das personagens principais era uma descabelada caída em Lisboa e vinda de Ponte de Lima. Tinha todas as características de quem não vai além da mais iníqua vulgaridade. Também Ponte de Lima é apreciado como sítio bonito mas onde a própria natureza, pela sua exuberância, não favorece os autóctones.
Podemos dizer que imagens são imagens e cada qual que tenha a imagem que quer ter. Mas isto se visto em termos económicos demonstra que o preço que estão dispostos a pagar por nós está deveras depreciado. Viana do Castelo pagava-nos para sermos empregados de lavoura e empregadas domésticas. Lisboa paga-nos para sermos jardineiros, a reserva ecológica do País. Dá-nos relativo sossego mas fraco pagamento.
Não podemos exigir no todo nacional mais do que os prejuízos e os benefícios do desenvolvimento económico sejam distribuídos equitativamente. Se quem tem os benefícios não está disposto a pagar eventuais prejuízos de outros e pelo contrário ainda reclama mais avanços para compensar os próprios aspectos negativos que sofre, como sairemos nós desta marginalidade a que nos condenaram?
Era bom mas não poderemos querer só jardins e ter rendimentos de trabalhadores de indústrias complicadas ou de actividades que exigem a junção de muitas pessoas. Quem quiser progresso terá que se dispor a sofrer cada vez mais os seus impactos negativos.

23 fevereiro 2008

13 - Que política para Ponte de Lima?

Ponte de Lima sempre tratou de modo diferenciado os seus naturais e os forasteiros, que são sempre agraciados com uma benevolência que por cá se não usa. Os de cá já são conhecidos há muito, toda a gente sabe que eles não prestam, podemos tratá-los mal à vontade, o que não convém seja feito com quem nos visita esporadicamente ou se instala vindo de fora.
Em Ponte de Lima não é dada primeira, quando mais segunda hipótese, a ninguém. Ou é porque é filho deste ou daquele ou porque se não dá com o padre ou não sai da sacristia ou porque não estudou o que devia, o que ele sabe nem sequer interessa a ninguém. Em Ponte de Lima caminha-se da subserviência para a bajulação num instante. Em Ponte de Lima olha-se para o poder que emana, não para a alma que irradia.
Em Ponte de Lima para se ter uma espécie de auréola que cubra uma pessoa e de certo modo a proteja dos mal-intencionados é necessário ter algum grupo de pessoas arregimentadas para o efeito. Podem ser amigos, conhecidos, interessados num tratamento recíproco que lhe reconheçam as qualidades, que tornem virtuoso o seu trabalho, a sua vida, a sua dádiva.
Em Ponte de Lima só vingam os vingativos porque só querem que progridem os invejosos, que vençam os vaidosos e só estes o são. Em Ponte de Lima só se olha para quem detém o poder ou para aqueles que podem a ele ascender desde que com eles tenhamos uma relação de certo privilégio.
Em Ponte de Lima o poder ofusca, o brilho que dele possa emanar ofusca, os poderosos são bajulados, os humildes humilhados. Em Ponte de Lima quem não tem poder é fraco, é maltratado e tratado como subserviente.

22 fevereiro 2008

13 - Que política para Ponte de Lima?

Ponte de Lima com os seus 45.000 +- habitantes, mesmo que com uma grande dispersão populacional, também com uma unidade geográfica acentuada pela confluência e marcada pelas serranias à sua volta, não tem porém uma massa crítica que lhe permita assumir um papel relevante em qualquer domínio de actividade económica, nem sequer tem uma opinião pública consistente.
Daniel Campelo herdou um concelho, uma população resignada, talvez mesmo temerosa de um futuro que nem mesmo a maioria dos seus emigrantes perscrutaram lá fora. As actividades dos emigrantes raramente se dirigiram à avançada indústria, aos especializados serviços. Poucos terão regressado para trabalhar e os que o fizeram dedicaram-se de preferência ao comércio.
A população limiana tem que optar por correr os riscos de se integrar de pleno na economia de mercado e tentar elevar o valor da mais valia que a sua intervenção possa constituir ou resignar-se de vez a ter que emigrar permanentemente, trabalhar sem preparação por baixos salários, continuar a praticar actividades complementares, como a agricultura.
Daniel Campelo aposta nesta última opção até porque é a única hipótese de manter uma paisagem de certo modo equilibrada, único aspecto que lhe interessa para as imagens televisivas e dos homens grandes que por cá vão passando. Porque é evidente que ele continua a tratar-nos por homens pequenos, o que diga-se, não sei se será legítimo.

21 fevereiro 2008

12 - Que política para Ponte de Lima?

As Câmaras Municipais receberam muitas competências delegadas pelo poder central e que torna difícil fazer a comparação entre o exercício actual do poder autárquico e os exercícios anteriores, particularmente de há uns 15 anos para trás.
Também por isto, mas principalmente porque é o futuro o que mais nos interessa, todo o estudo e discussão se deve centrar sobre aquilo que deve ser feito independentemente da apreciação sobre o que já não tem cura.
Há dois aspectos em que é imprescindível ter uma boa perspectiva de futuro. A atracção de bom investimento com criação de emprego e o ordenamento do território com uma distribuição territorial dos equipamentos e aglomeração de recursos de modo o mais racional possível.
Todo o desperdício se reflecte na qualidade dos serviços prestados e no retorno ou eventual rendimento do investimento feito. O efeito de atracção só se consegue com a suficiente massa crítica que é tanto maior quanto maior a qualidade que se exige. O desperdício e a falta de gosto comprometem seriamente o futuro.
No mundo actual exige-se melhor ensino, melhor acessibilidade a todos os bens, melhores rendimentos e torna-se cada vez mais difícil inovar, corresponder à complexidade dos problemas para os resolver ou sequer para os encaminhar, compreender a economia como domínio em que o Estado tem tanto menos meios de intervenção quanto mais se lhe apela para que o faça.
A pouca exigência de hoje, disfarçada com muita baboseira e quando justa mal direccionada, pagar-se-á cara no futuro. Temos que exigir cada vez mais ao poder local, não o desculpabilizando em tudo.

20 fevereiro 2008

11 - Que política para Ponte de Lima?

A política em Ponte de Lima é mínima. Os actores políticos são mínimos. Houve um tal atrofiamento das faculdades de expressão de um pensamento livre, crítico e sem subserviência que levou à transformação dos actores políticos em marionetas.
Em Ponte de Lima não há política. As pessoas limitam-se a ficar satisfeitas por ter uns amigos nos órgãos de poder, quiçá lá um ou outro também gosta de se dar bem com a oposição. Mas esta limita-se a alguns tertulianos da Havanesa e a uma incipiente conspiração do Rio Lima.
O poder político autárquico efectivo está nas mãos de três pessoas que procuram e conseguem controlar todas as relações com os outros órgãos subalternos e com as forças económicas que se queiram implantar em Ponte de Lima. São Daniel Campelo, Vítor Mendes e Gaspar Martins.
Conseguem absorver, sem lhes dar na prática qualquer resposta efectiva, as reivindicações dos presidentes de junta, que desprezam se forem no presente ou tiverem sido no passado da oposição. A divisão administrativa actual com a exagerada dispersão de freguesias é favorável à sua manipulação vergonhosa.
Conseguem controlar o grande poder exercido pelos construtores civis, que mesmo quando não vêm os seus interesses satisfeitos, se não dispõem a procurar apoio na oposição, o que é normal noutros lados. Na verdade parece que os partidos também não sabem viver sem esses apoios.
O facto de nem neste sector, fonte de quase todas as corrupções e compadrios, haver grandes empresários residentes permite que a divisão do território seja congeminada possivelmente lá fora. Os grandes interlocutores são poucos e normalmente impõem-se por si mesmos.
O núcleo político no qual se discute a volumetria de construção e outros assuntos relevantes é diminuto e sólido, profissional e sério, não brinca em serviço.

19 fevereiro 2008

10 - Que política para Ponte de Lima?

O sector bancário é indispensável em qualquer economia de mercado em que a acumulação de dinheiro é exigida pelo nível de investimentos que se impõem. O sector bancário é indispensável em qualquer economia de mercado em que a intermediação entre depositantes e investidores tem que ser segura.
Mas o sector bancário, quando desregrado, é um sector rapinante, que quer absorver todas as economias particulares, extrair lucros de todos os empréstimos que se realizem, controlar toda a massa monetária. Da maneira como está representado em Ponte de Lima o sector bancário dá-nos um espectáculo deprimente de vermos um ricaço em cima de um desgraçado tirando-lhe da carteira os últimos tostões.
O sector bancário não investe em Ponte de Lima e não dá condições especiais a quem cá quer investir. A depressão que tomou conta da economia limiana só tem como justificação a sangria dos seus recursos que é feita pelos bancos, pelas distribuidoras de bens, pelos fornecedores de materiais e serviços.
Em Ponte de Lima só resta o rendimento mínimo, seja sob a forma de juros mínimos, empregos mínimos, margens de lucro mínimas, exportação de mão-de-obra de habilitação mínima. Só falta falar da política mínima.

18 fevereiro 2008

9 - Que política para Ponte de Lima?

Quanto mais desenvolvida economicamente é uma sociedade maior é o valor atribuído a um serviço. A matéria-prima, os utensílios utilizados, mesmo sendo muito semelhantes podem dar origem a um produto que é fornecido a um preço muito diferente. Isto não se passa na indústria, passa-se um pouco no comércio e mais no serviço de hotelaria. Quando maior a componente de trabalho humano e de disponibilidade de serviço houver mais caro este é.
Se verificarmos que o preço de um café pode quadruplicar em estabelecimentos do mesmo nível de exigência em diferentes países e mesmo duplicar dentro de um país como o nosso em estabelecimentos similares, concluiremos que é o nível geral da economia no território circundante que influencia estes termos de troca.
Quando se investe em serviços é nos meios mais desenvolvidos que isso se faz. Os craques da bola investem hoje muito em restaurantes mas não os vêm construir a Ponte de Lima. No entanto em Ponte de Lima é necessário que se coma e por isso têm que ser os autóctones a investir nesse sector, mesmo aceitando rendimentos mais reduzidos de que outros, aqueles que o podem fazer nas grandes cidades com a expectativa de ganhar mais.
Se já ouve um tempo em que havia procura de Ponte de Lima para investir em novos serviços a verdade é que hoje se verifica um retrocesso evidente. Algumas empresas fecharam as suas delegações cá. Outros retraíram-se. Perante outras hipóteses em cidades mais dinâmicas e em que o serviço tem outro valor esses investidores deixaram de pensar em para cá vir.
Vamos continuar a ter maus serviços porque, a não ser o sector bancário, ninguém mais vem para cá investir. E vamos continuar a ser economicamente deprimidos.

17 fevereiro 2008

8 - Que política para Ponte de Lima?

O sucesso das pessoas na sua vida depende de muitos factores e há muitos analfabetos que conseguiram reunir um grande património. Na construção civil, nos transportes, no comércio, na restauração, numa incipiente indústria se conseguem criar grupos económicos a partir de uma base em que a instrução não foi o factor determinante.
Hoje porém acredita-se menos nestes milagres e é cada vez mais difícil ultrapassar certas barreiras que se colocam no acesso a certas profissões e actividades. Se é certo que dinheiro chama dinheiro, não há dúvida que, se não houver know-how, se terão que encontrar os colaboradores certos para vingar na maioria das actividades que possam trazer lucros.
Hoje o valor de uma pessoa no mundo da economia mede-se pelo valor que através da sua actividade ou conhecimento é capaz de acrescentar ao objecto do seu trabalho. Se uma pessoa aprendeu, seja onde for, na escola ou na vida, a como tornar mais valiosa a mercadoria que lhe é entregue, merece e normalmente é melhor remunerada.
A tão fraca mais valia acrescentada em Ponte de Lima às mercadorias que por cá transitam ou se fazem deve-se muito à fraca habilitação da sua população. Não que uma malga de marmelada feita por uma doutora valha mais do que uma outra feita por uma campesina, mas sim se aquela conseguir dar-lhe uma pureza superior, o que em teoria estará ao seu alcance.

16 fevereiro 2008

7 - Que política para Ponte de Lima?

Só com a Escola Preparatória de Ponte de Lima, as salas de Telescola e a Escola Técnica, depois Secundária, de Ponte de Lima começou a haver possibilidades de acesso ao ensino público para a grande maioria da população limiana.
Numa altura em que a Escola Técnica de Ponte de Lima poderia começar a dar os seus primeiros frutos, a destruição do ensino técnico levou à uniformização do ensino. A quase todos os possíveis técnicos que frequentaram esta Escola se abriram as portas do ensino como mestres de trabalhos manuais ou oficinais e perdeu-se o seu objectivo inicial.
Mais tarde seria aberta uma Escola Profissional Agrícola que, perante o panorama de declínio da produção agrícola também haveria que repensar a sua função. Primeira derivou para as actividades, como a hotelaria e a gastronomia, de algum modo ligadas à actividade primordial, mas no presente a intenção é a integração de novas e distintas actividades no seu curriculum.
A um outro nível a Escola Superior Agrária tem os mesmos problemas e terá que se adaptar às novas exigências. A Universidade Fernando Pessoa, porque tem uma base alargada no Porto, tem feito uma adaptação mais fácil e rápida às exigências do mercado local, extinguindo e criando novos cursos.
Se analisarmos a empregabilidade das pessoas que saem dos vários ramos de ensino verificamos que é muito fraca se considerarmos os empregos mais favoráveis que potencialmente lhes poderiam ser facultados. Seria de exigir muito mais às pessoas mas seria de exigir muitíssimo mais aos potenciais empregadores.

15 fevereiro 2008

6 - Que política para Ponte de Lima?

Hoje Ponte de Lima é um concelho atravessado por boas vias de comunicação percorridas por centenas de meios de transporte, o que falseia um pouco a sua real actividade. Já se passa nos outros meios de transporte aquilo que vai ser mais evidente com o TGV: Vamos ficar a ver passar os comboios. Até os aviões para e de Pedras Rubras nos gostam de sobrevoar.
Teoricamente a nossa situação é privilegiada e na prática sê-lo-ia, não fora tudo ter o seu momento para ser aproveitado e isso não foi feito. Um porto de mar a vinte quilómetros, duas fronteiras a trinta e quarenta quilómetros, uma cidade mais poderosa a outros trinta quilómetros. No centro Ponte de Lima cujo papel deveria ter sido aproveitar esta situação e não se deixar absorver pela força atractiva desses pólos de desenvolvimento.
Haverá os seus culpados para que as coisas corressem como, no nosso tradicional pessimismo, sempre esperamos que viesse a ser. A inexistência de forças económicas poderosas, que não na área da especulação fundiária, impediu iniciativas que poderiam ter dado a Ponte de Lima uma centralidade decisiva nas áreas de serviços, de abastecimentos, de pequena produção.
As forças políticas, particularmente as que têm exercido o poder em Ponte de Lima, têm sido no geral favoráveis àquelas forças económicas que vivem da especulação fundiária, e isso também têm constituído um factor negativo na instalação doutras actividades, têm sido um entrave ao desenvolvimento.

14 fevereiro 2008

5 - Que política para Ponte de Lima?

Hoje Ponte de Lima é um concelho incaracterístico. A construção de casas nos lugares mais remotas e a maior altitude disfarça a desertificação que nessas áreas se está operando a bom ritmo. As freguesias serranas já quase não tem equipamentos de iniciativa privada e os de iniciativa pública seguem pelas mesmas razões o mesmo rumo. Mesmo assim só neste aspecto Ponte de Lima não estará tão mal como os outros concelhos do interior alto-minhoto.
Por outro lado na sede do concelho e nas freguesias limítrofes a construção vai de vento em popa e só os problemas no sector, que se detectam um pouco por todo o mundo, vão levando as pessoas a refrear a sua vontade de apostar nessa área como zona de habitação e de investimento, mesmo que não produtivo e só especulativo.
É verdade que não seriam expectáveis estes fenómenos, se bem que houve uma política municipal que lhes foi favorável. Dificultou-se a construção nas aldeias e deram-se facilidades na Vila mas contraditoriamente é a facilidade de transporte que aqui como noutras regiões tem levado à centralização. A única política municipal que poderia ter contrariado esta tendência seria o incentivo à criação de pequenos centros urbanos dispersos.
Desiluda-se quem pensa que tudo vai ficar na mesma ou que o Estado pode fazer tudo a gosto de cada um. Mas ao Estado, agora mais através do poder local, deveria caber controlar os excessos, usando racionalmente os seus meios, localizando convenientemente os equipamentos públicos, ordenando o território, desincentivando o povoamento disperso e favorecendo o povoamento ordenado nos tais centros urbanos de que se destacam desde já Freixo e Gandra, mas em que se poderia incluir mais dois ou três.

13 fevereiro 2008

4 - Que política para Ponte de Lima?

As pessoas mais activas de Ponte de Lima quiseram que os seus filhos estudassem mas era terrivelmente difícil, dispendioso, só tarde e más horas houve ensino secundário oficial. Só com a reforma Veiga Simão e a instalação da Escola Técnica de Ponte de Lima sectores mais vastos da população tiveram acesso à escolaridade que até aí era privilégio das capitais de distrito.
Os que puderam abandonaram a tempo a actividades tradicional da família e foram para outros sectores em especial o funcionalismo, cujas necessidades os residentes nunca conseguiram sequer satisfazer. Ponte de Lima recebeu um fluxo de pessoas de proveniências variadas para se ocuparem do seu ensino, dos órgãos da administração central cá estabelecidos, de certos serviços mais especializados.
O comércio estagnou, uma estratégia defensiva apoderou-se de quase todos os ramos de actividade. Numa certa fase o turismo de habitação ou quejandos pareciam constituir uma panaceia, já que a agricultura ia subsistindo à base de subsídios é certo, mas era o fundo de garantia para as outras actividades. A subsidiocracia instalou-se.
Os homens dedicados à agricultura tiveram sempre dois grandes escapes na emigração e na construção civil, que nos anos sessenta serviram mesmo para os que foram experimentando dificuldades nas suas tradicionais actividades.
Perante um presente incaracterístico e um futuro pouco prometedor, muitos viraram-se para o passado, deslumbraram-se com aquilo que sempre lhes tinha passado à margem, uma vivência com certa harmonia mas também com muita subserviência. Um saudosismo sem novas ideias tomou conta da intelectualidade e a política aproveitou-se disso.

12 fevereiro 2008

3 - Que política para Ponte de Lima?

A base da economia concelhia foi durante séculos a agricultura. Embora fosse uma agricultura de subsistência, que nunca assumiu um aspecto mercantil significativo, devido à pequena dimensão da propriedade, conseguia satisfazer as necessidades primárias de uma população pouco ambiciosa.
Sempre houve aquele tipo de actividades complementares como a moagem, lagares de azeite, alambiques, serrações, carpintarias, tanoarias, ferrarias, sapatarias, costurarias, alfaiatarias, construção civil e principalmente na sede do concelho havia comércio de tudo um pouco.
Embora estas actividades ocupassem muita gente nem sempre constituíam por si só a ocupação única das pessoas, que por vezes se dividiam sazonalmente ou mesmo no dia a dia por mais do que uma. Mesmo os empregados do Estado procuravam complementar os seus rendimentos.
A emigração sempre foi o escape maior para os momentos de crise. Na década de sessenta atingiu tal dimensão que passou a desempenhar um papel dinamizador mas sem que chegasse a impulsionar outras actividades, como seria desejável. Durante muito tempo os emigrantes ainda sonhavam voltar a ser lavradores, a dedicarem-se a um pequeno ofício ou comércio.
A evolução, a integração em espaços económicos mais vastos levaram à deterioração desta certa harmonia, à destruição dos pequenos misteres, sem que aqui se criassem alternativas significativas. O poder político limitou-se a consagrar o passado como se mesmo esse conseguisse ser mantido.

11 fevereiro 2008

Qual o papel de que Alegre anda à procura?

Manuel Alegre sabia que não podia criar uma tendência dentro do Partido Socialista. Manuel Alegre sabia que dentro do Partido Socialista, que ele acusa de governamentalização, não tem lugar relevante porque de forma acertada a actual direcção tudo tem feito para que o Partido não seja uma correia de transmissão do Governo, mas também nele não interfira inopinadamente.
Manuel Alegre sabia que a estratégia presidencial era difícil e correu contra outro dinossauro num papel caricato, mesmo que menos caricato o dele do que o de Mário Soares. Manuel Alegre sabe que os votos que lhe deram não resultam de qualquer ligação especial ao povo, qualquer compromisso consistente com o povo, mas de uma conjuntura atípica na política nacional.
Manuel Alegre sabe que o povo lhe não deve nada que não esteja já pago e mais que pago. Manuel Alegre sabe que não deve nada ao povo, o povo não o tornou fiel depositário de nenhuma ideia valorosa, não espera dele qualquer análise inteligente da realidade, embora constantemente ele se arrogue de um valor e de uma representatividade que não tem.
Manuel Alegre sabe que sempre seria um escape nas eleições presidenciais, mas que gostaria de ter desempenhado sozinho esse papel de cavaleiro solitário contra o terrível Cavaco Silva. Manuel Alegre sabe que Mário Soares o tornou num segundo escape. Também este está pago e bem pago e o povo já pôs de parte de vez, e ainda bem, os “D. Sebastião”.
Manuel Alegre sabe que se quer vingar porque estudou bem a figura que queria e não lha deixaram fazer. Mas Manuel Alegre anda permanentemente à procura da figura que melhor lhe assenta. Manuel Alegre vai pensar melhor a figura que vai encarnar, sem perder o seu ar aristocrático de homem das letras que tem relutância em misturas com a ralé.
Manuel Alegre só se veria bem encarnando qualquer figura majestática mas não quer arriscar tudo, não vá ela cair na lama, no escárnio e mesmo no ódio de todos os socialistas, não sei quem mais lhe possa dar algum valor.

10 fevereiro 2008

2 - Que política para Ponte de Lima?

Não vale a pena estarmos a discutir esta questão de sermos ou não a autarquia mais atrasada do País. Não valeria se a considerássemos uma questão de fé. Mas também não vale porque objectivamente o é. E não cairá os pergaminhos a ninguém por aceitar que assim é.
O nosso atraso é efectivo se tivermos em conta que a nossa situação geográfica é extremamente favorável, que temos mão-de-obra bastante, temos um coberto vegetal capaz de assimilar, disfarçar os efeitos negativos de algumas indústrias menos convenientes da área química.
O nosso atraso é efectivo se tivermos em conta os índices de aproveitamento escolar, a média da escolaridade dos nossos habitantes, a pouca preparação técnica do nosso tecido laboral, a insipiência, para não dizer idiotice, ingenuidade e a vulgaridade, mas a que não falta a vaidade, a arrogância e a sobranceria do nosso tecido empresarial.
O nosso atraso é efectivo porque grande parte de nós continua a ter de se deslocar para fora do concelho para angariar rendimentos para poder fazer uma vida com certa normalidade.
O nosso atraso é efectivo porque nos não podemos comparar com nenhum concelho que esteja pior que nós. As nossas condições, a nossa dimensão, a nossa localização, as nossas comunicações são incomensuravelmente melhores que todos aqueles com que nos queiram comparar.
O nosso atraso é efectivo e só o devemos a quem tem andado todos estes anos a vangloriar-se de um passado que inexoravelmente está condenado.
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09 fevereiro 2008

1 - Que política para Ponte de Lima?

Estaremos condenados a ser a autarquia mais atrasada do País? Estaremos ou não? Tal depende da vontade das pessoas que serão chamadas a participar na vida pública limiana.
Sempre gostamos de viver de uma maneira um pouco diferente daquela que transmitimos aos outros. Se fosse feita uma análise séria às fontes de rendimento da população limiana verificamos que a principal é nos dias de hoje a indústria, mas não a do sarrabulho, como diz Campelo.
A área de serviço público, incluindo os serviços camarários e os da administração central, sofreu nos últimos anos um grande desenvolvimento, que terá necessariamente um resfriamento, e talvez um retrocesso, se a este governo se suceder um mais liberal e privatizante.
A área de serviços privados não teve o desenvolvimento que se imponha a um concelho com a situação geográfica privilegiada como o nosso, mercê das políticas erradas patrocinadas pela Câmara Municipal e do atavismo tradicional dos agentes económicos locais.
A indústria tradicional, afora a das pedreiras, estagnou e desapareceu mesmo, mercê do fim do ciclo económico dos produtos que constituíam a sua base. Reforçamos é o nosso papel de fonte de mão-de-obra da indústria da construção civil e obras públicas.
A hotelaria tem-se reduzido ao turismo de habitação e similares cujos resultados práticos, mercê também do gato que se quer vender por lebre, estão longe de corresponder às expectativas. Para cúmulo, além de se não desenvolver, este tipo de hotelaria tem condicionado a instalação de outros equipamentos mais acessíveis à clientela média deste País.
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08 fevereiro 2008

Encontrar-se-ão árvores na floresta do poder local?

Autarquias locais, principalmente câmaras municipais, onde se presume que o poder está mais perto do cidadão, que se conhecem melhor os seus problemas, blá, blá, blá...
Na realidade onde pouco de significativo que interesse de imediato às pessoas é decidido e muitas vezes mal. Onde há mais corrupção, mais dificuldades se criam, mais favores e vinganças se fazem.
O poder local é a maior feira de vaidades e onde haveria menos razão para elas existirem. Todos os serviços são cobrados, tudo é pago, mesmo aquilo que pareceria uma dádiva da natureza. Paga-se a água, os jardins, a limpeza, o saneamento, as honrarias que se atribuem, os auto-elogios que se fazem, as promoções que se patrocinam.
O poder local, se estivesse mesmo perto de nós, não precisaria de trombetas e bombos, de palcos e palanques, de realçar a sua acção e principalmente de denegrir a inacção ou acção contrária dos outros, para fazer valer as suas razões.
O que de significativo se faz na acção autárquica raramente tem a oposição de alguém. O que são floreados, obras pomposas, gastos sumptuários pode e deve ser contestado por todos os opositores.
O poder central que está longe, que necessita de se afirmar, marcar presença nos mais longínquos espaços do território tem que se fazer ouvir. O poder local torna-se ridículo por adoptar as mesmas lógicas, que na realidade se não lhes aplicam.
No poder local a floresta é a promiscuidade, a árvore é aquilo que nós perseguimos há muito tempo.

07 fevereiro 2008

As brutas pedras da blogosfera

O comentário breve, mordaz, insidioso é, diz-se, o mais apreciado na blogosfera. Quem o publica entende-se como o mais inteligente, actualizado, avançado mesmo de todos os que andam por estas paragens e pelo mundo ao redor.
A tirada pitoresca dá uma ideia de um espírito aberto, capaz de brincar com coisas que não merecem ser vistas com a seriedade que muitos de nós, os chatos, lhes queremos dar.
Muitos ganham na blogosfera, no seu círculo de indefectíveis, o estatuto de infalíveis, de indivíduos capazes de, no momento certo, fazerem a apreciação justa, sentenciosa, inquestionável.
Na verdade agem como autênticas pedras cuja firmeza impressiona, mas só convencem os convencidos, só influenciam os influenciados, só perturbam os perturbados.
Na verdade são brutas pedras.

06 fevereiro 2008

O ódio cega, a companhia reconforta

Há quem use a blogosfera como se de um órgão de informação institucional se tratasse. Há quem a use para postar o seu comentário e fica à espera que muitos outros blogosféricos venham confirmar que têm o mesmo gosto em relação a qualquer assunto corrente. Há quem se abstraia e procure de certo contribuir para que os outros possam partilhar um qualquer desvario, bom ou mal, é do gosto de cada um.
O mais atractivo para mim é o comentário, a forma crítica de abordar os problemas, mas é aí que se encontra o mais negativo. Como seria agradável se tudo fossem comentários que trouxessem a sua janela de novidade, aquele olhar abarcador que nos elucida ou minucioso que, por mais pequeno que seja nos mostra o pormenor que nos falhou, de que nos não apercebemos, a que não demos a devida importância.
Mas há quem opine porque tem que opinar e mais nada. Não tem trabalho porque os modelos, as posturas e até as opiniões já estão encontrados há muito. Os factos sempre vão aparecendo ou então continua-se a bater no ceguinho, que é sempre quem está mais à mão. Às vezes basta uma palavra, uma expressão para exprimir um ódio que se guarda, uma vingança que se anseia, um ressentimento que se avoluma.
Este modelo permite às pessoas ter a sensação de que transformam o circunstancial e efémero em definitivo e quase eterno. É comum dizer-se que o ódio cega. Na verdade o olhar que se transmite, contaminado que está pelo agente transmissor, é sempre igual qualquer que seja o objecto que se está a ver. Estas pessoas já não têm esperança em que haja algo de diferente.

05 fevereiro 2008

Um olhar para lá do C.A.N.’2008

A simbologia é a criação distintiva do homem em relação a outros seres. Mesmo quando tentamos contactar com o corpo ou o rosto partimos do princípio de que ele simboliza algo ou um conjunto de “algos” que podem ser ideias, impressões, sentimentos, etc., etc.
No actual estado da civilização a ideia de dor é de tal maneira repudiada que, muito para além de não a queremos ver em prática, ainda renegamos tudo aquilo que a possa transmitir. Um símbolo de dor é já a dor, como que nos habitua a algo que queremos ver bem longe de nós.
O Campeonato Africano de Futebol que se está a desenrolar no Ghana, como todas as manifestações deste género, tem a intenção de nos transmitir alegria. Compreende-se que assim seja, mas não nos podemos esquecer que a dor anda muitíssimo perto.
E no entanto nada de significativo é feito para acabar com a dor que dilacera África. Parece que temos a noção que os africanos são insensíveis à dor e como tal não dignos de comiseração. Portugal tratou-os assim nas colónias, mas eles trataram-se pior quando de lá saímos.
Os símbolos de dor vindos de África, fossem crianças, mulheres ou velhos sofrendo, tiveram o seu tempo e aparentemente tiveram efeito na altura. No entanto já não saem do domínio das trivialidades.
Que será necessário fazer, que símbolo havemos de inventar, para que África seja vista na plena dimensão do seu drama civilizacional em que a doença, a guerra, a fome deixem de ser olhadas como seus males normais?

04 fevereiro 2008

Meneses, um homem com carisma?

O Carisma é aquilo que nós conhecemos pelos efeitos mas estamos longe de conhecer pela substância. Se não fora assim nós talvez pudéssemos ir buscar um pouco de carisma mas nos ajudar a triunfar.
O carisma não é só apanágio de religiosos e políticos e alguma dose se destinará a outras pessoas que assim podem ocupar diferentes lugares de referência. Muitas pessoas identificam os males do actual estado da civilização somente pela ausência de carisma naqueles que são essas referências.
Em particular na política às pessoas agradava-lhes que os líderes fossem pessoas com carisma. Além de formalmente se mostrarem democráticas, as pessoas como que se desculpabilizariam mais facilmente do que se tivessem que estar a explicar outros critérios que utilizassem nas suas escolhas.
A nossa política anda sempre à volta desta incógnita de quem é o dirigente mais carismático. Os activistas são aqueles que procuram ganhar adesões para o seu lado. Mas a nossa política faz-se maioritariamente pela negativa e assim os melhores são aqueles que mais conseguem roubar apoios aos seus adversários.
Na nossa política do contra há que destruir tudo que possa contribuir para a credibilidade do inimigo. Não interessa sequer ter-se um carisma evidente, espera-se que a sorte o traga e faz-se com que os outros o percam. Qualquer Meneses se pode lançar a esta tarefa indigna de não ser mais do que um aprendiz de feiticeiro na criação do carisma que lhe falta e na tentativa de destruição do que a Sócrates sobeja.

03 fevereiro 2008


Regresso à imagem?

Não.

Esta Obra de Mueck de 1998 retrata na perfeição o meu estado de espirito em muitas ocasiões desta vida já com os seus dias e as suas vicissitudes próprias.

Uma perspectiva mais central está no final deste blog substituindo a velha garça, não expulsa mas tão somente remetida para o seu próprio blog.

Isto é arte, não tirem conclusões apressadas.

Cuidado com a estratégia adversária

JN: Todos parecem ter encontrado as causas para a actual fragilidade do país em António Guterres. O pecado dele foi ter feito Portugal crer que poderia ser uma imensa classe média?
António Barreto: Não posso negar o que diz. No Governo dele tudo era possível, tudo era fácil e o que havia chegava para todos. Todos iriam ter tudo. Para o conseguir, ele nunca corta a direito, nem toma decisões. Habituámo-nos a viver à balda e à borla.
JN: Ficou tudo condicionado aí?
António Barreto: Uma parte importante; não tudo. Há outras coisas que vêm já dos governos de Cavaco Silva. A constante mais permanente nos últimos 30 anos foi a demagogia.
(transcrição duma entrevista de António Barreto ao JN de hoje)

Uma das razões para tanta compreensão de Cavaco Silva para com este governo pode estar aqui, nesta certeza que hoje temos de que António Guterres foi um mãos-largas, mas há erros cometidos que o foram já pelo governo de Cavaco e que Guterres não corrigiu.
Cavaco Silva está deixando que o presente governo de José Sócrates emende os mais gravosos esbanjamentos na época das vacas gordas, que retire, mesmo que a posteriori, do curriculum de Cavaco as falhas que terá tido ou que os cavaquistas cometeram em seu nome.
Nunca se sabe é qual será a atitude de Cavaco quando estes problemas estiverem resolvidos. Procederá como Eanes, Soares e Sampaio que foram mais rigorosos no segundo mandato em função dos seus objectivos pessoais?
Se é certo que Cavaco ainda se não livrou no seu partido da má moeda, há-de ter como fim neste primeiro mandato matar dois coelhos duma só cajadada. O Partido Socialista tem que estudar bem os timing de modo a não ser surpreendido por jogadas que estejam em preparação. Porque Cavaco não há-de querer ficar para a história como “compagnon de route” do P.S.
E os velhos marretas têm que ter juízo.

02 fevereiro 2008

Uma Presidência tricéfala?

Nem sempre os Presidentes da República assumiram posições muito claras principalmente nos seus segundos mandatos. Tiveram aí uma maior intervenção e mais tendenciosa, mais em consonância com as suas próprias ideias, assumindo nítidas divergências com os executivos. No primeiro mandato foram mais passivos, mais envergonhados de apoiar ou desapoiar ou então mandando mensagens sub-reptícias, encapotadas.
Inesperadamente Cavaco Silva tem assumido neste seu primeiro mandato uma intervenção de que se não estaria à espera face às suas opiniões quando era Primeiro-Ministro. O certo é que a sua actividade tem sido no geral bem vista, dirão alguns porque o Governo está a pôr em prática uma política mais próxima da sua ideologia de direita.
Esta forma de participar activa e opinativamente tem surpreendido os candidatos derrotados Manuel Alegre e Mário Soares, notórios abencerragens que no seu papel de vigilantes se não querem deixar ultrapassar. Lançam acusações vagas, pretendem abafar o papel nefasto que o actual Presidente estará a exercer e que o Governo inflicta na sua política de rigor.
Não se cuidam de fazer coro com os maiores imbecis da direita canhestra. Se continuarem a preparar assim o descrédito e a desmoralização da governação de Sócrates, se elevarem os seus interesses egoístas acima do interesse nacional, como infelizmente ainda há quem os siga, vão contribuir para entregar o oiro ao bandido que aqui tem um nome bem conhecido: Meneses, um suicidário sem Norte nem Sul.

01 fevereiro 2008

A ganância como estilo de vida

Uma das coisas que há uns anos mais chocava as pessoas era a ganância. Infelizmente parece ser mal que se terá espalhado tanto que deixou de ser mal visto. Pelo contrário há já forças que acham a ganância tão importante para a economia como o é a produtividade.
Um movimento no sentido de tornar menor a apetência das pessoas por se apropriarem em excesso, isto é, gananciosamente, daquilo que lhes está à mão, porque ninguém pode ser dono absoluto de nada, seria bem-vindo, mas creio que, mesmo com os altos patrocínios que se lhe referem, esta causa não alcançará facilmente os seus objectivos.
Já muitas personalidades se referiram aos altos proventos dos gestores de topo em todo o mundo, questão que em Portugal assume um aspecto mais escandaloso dada a disparidades de rendimento. Cavaco Silva já a vai abordando com certa persistência.
Mas foi José Sócrates que identificou claramente o vírus provocador, só que não chega, ficamos com a questão no domínio da ética. É necessário que na economia se diga que a ganância não faz qualquer falta, que as pessoas podem trabalhar com afinco e determinação quando têm outros valores como seus guias.
Estamos no domínio do rendimento das pessoas mas também valeria para as empresas que, com o fim de obter lucros desmedidos, exploram as condições de dependência do cliente em relação a si para o explorarem quanto podem. Aqui ganham os gestores mas também os sócios ou accionistas.
Como as empresas se desculpam muitas vezes com a necessidade de serem competitivas, de se defenderem da aquisição por estrangeiros, ainda mais vorazes do que elas, já seria bom que neste aspecto pessoal mais indecoroso, desleal, pecaminoso em qualquer perspectiva ética, se avance no sentido de sermos mais comedidos e solidários.

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

Acerca de mim

A minha foto
Ponte de Lima, Alto Minho, Portugal
múltiplas intervenções no espaço cívico

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck
O mais perfeito retrato da solidão humana