31 março 2007

Perante um cartaz destes, alguém se sentirá bem aqui?

Se eu fosse a algum lugar onde encontrasse um cartaz destes, interrogar-me-ia se estava lá bem, pois ficaria quase com a certeza de que as pessoas que lá vão, na sua maioria, são “sacrop”, ambientalmente incultas, indesejáveis.
Além disso, as pessoas, mesmo sentindo-se culpadas, não gostam de mensagens tão agressivas. È necessário educar e para tal o uso de termos como limpo e lixo não é muito eficaz. Uma linguagem mais “soft” seria mais adequada e até podia ser mais abrangente.
Limpas, presume-se que as pessoas venham para cá. Lixo é aquilo que as pessoas entendem que se destina a ser apanhado por alguém. Seria conveniente referir um valor que diga alguma coisa aos visitantes e fazer referência também à natureza e aos locais apropriados, porque Ponte de Lima pode dizer alguma coisa só a nós. Os outros estão de passagem.
O que está em causa aqui em Ponte de Lima é a defesa do ambiente e, se nós sabemos que muitos dos nossos visitantes vêem nas margens pouco cuidadas do nosso rio o local ideal para arremessar detritos e fazer as mais elementares necessidades, a mensagem podia ser:
Sejam ambientalmente cultos!
A urbanidade fica bem em qualquer lado!
Não abandonem o vosso lixo fora dos locais a ele destinados!
Não conspurquem a natureza!
O ruído também polui!

30 março 2007

Ser dono é que é bom, quem afirma é … Daniel Campelo

Normalmente quem se dedica à política, e em particular quem se dedica à gestão da coisa pública, não pode ter a ideia de vir a ser dono, patrão. A avaliar pelas suas afirmações, Daniel Campelo promove à categoria de situação ideal aquela em que a pessoa, só pelo facto de ser eleita para o desempenho de uma determinada função, sê-lo-ia para ser senhor absoluto, sem ter necessidade de respeitar uma clara definição de poderes.
Se D.C. tem razão ao dizer que “é necessário combater as tendências corporativas de várias instituições” não pode ser usado esse discurso para reforçar o poder pessoal, do dono, situação mais agradável para as pessoas, mas que se não coaduna com o poder democrático exercido pelos colectivos.
A situação desagradável em que D.C. está a nível do C.D.S. leva-o a classificar Paulo Portas como aquele que tem “duas caras e uma postura de representação teatral”, mas não pode generalizar quando afirma que “As pessoas, muitas vezes, não gostam de seriedade e na política estão mais tentadas a votar nas que falam bem, mesmo que não façam nada”.
Há experiência para todos os gostos mas não cabe na nossa generosidade a afirmação de que “temos de ensinar às pessoas a usar o voto a favor de si e não dos partidos”. Esta dicotomia simples é muito característica de quem quer aproveitar sentimentos primários anti-partidos.
No mesmo sentido aponta a afirmação de que “o papel do deputado é altamente frustrante, pois não faz nada, não tem poder de decisão, salvo meia dúzia que trabalham nas comissões”. Se há quem não entenda isto como um ataque à democracia representativa, há também quem o assim interprete.
Evidentemente que até já há propostas para mudar este estado de coisas na Assembleia da Republica, mas não se pode confundir o trabalho de um parlamentar com o de um executivo, mesmo que este não queira ser “dono” absoluto do cargo que ocupa.
Da parte de Daniel Campelo ficaria bem que em Ponte de Lima praticasse mais a democracia, não quisesse ser o dono de tudo, antes quisesse ver os outros a trabalhar, os seus vereadores por delegação de poderes e dando à Assembleia Municipal a possibilidade de se organizar e de exercer com alguma eficiência o seu poder.
E daria uma satisfação a si próprio, se é como diz que ”Eu odeio gabinetes cheios de papéis” e que “passo 14 horas por dia a despachar papéis”. Um conselho: Gaste melhor o seu tempo que ninguém lhe agradece.

29 março 2007

"A terra é de todos”, quem afirma é ... Daniel Campelo

Daniel Campelo afirmou na sua entrevista ao AltoMinho que “Ao menos podiam entregar ou dar a terra a quem a queira tratar. Sou a favor de “A terra a quem a trabalha””, porque “Ela é de todos”. Nem Álvaro Cunhal seria tão assertivo.
“Quem vive dela e para ela devia ser muito melhor tratado”, sentenciou e bem, não porque “Da terra é que sai tudo”, que isso já lá vai, mas sim porque, melhor se dirá, além dos agricultores não haverá mais quem possa contribuir para a sua preservação em termos ambientais, paisagísticos, ecológicos.
Porque, por mais brigadas florestais que se arranjem, por mais subsídios que a esse fim se destinem, tudo será diferente se não se conseguir ligar as pessoas à terra, não da maneira prisioneira que perdurou séculos, mas por esta proporcionar um modo de vida agradável e economicamente viável, que garanta rendimentos equiparáveis a outros sectores.
Mas afinal D.C. tem outras soluções. Vai haver hortas sociais, do género da antiga “Quinta do Olho Marinho” onde hoje está o Centro de Saúde e redondezas. E até tem um programa “Evite o Psiquiatra com uma horta ou um jardim”. “É um anti-stress útil e evita o recurso a medicamentos”, afirma.
Mas além da “ocupação de tempos livres, saúde e ruralidade”, D.C. ainda tem outro projecto que partindo da “convicção que … o mercado de turismo e de comércio de alimentos” vai por aí “visa reforçar tudo o que for protecção do ambiente e produção biológica”, já que “o Vale do Lima, neste momento, tem todas as condições para ser uma lugar de excelência”.
E entramos no ciclo de afirmações claramente erradas ou não confirmadas. “O Parque desportivo de Ponte de Lima é o maior do Distrito, “Somos a região que tem melhores acessos a terrenos, água e saneamento com preço inferior ao do custo e zonas industriais prontas a serem utilizadas”.
D.C. fala, aparentemente sem pestanejar, em seis parques industriais ou de armazém e comércio e “todos eles empregam centenas de pessoas” e diz que “o maior ritmo de instalação de empresas verifica-se em Ponte de Lima” e se mais não fora é porque “não temos mão-de-obra disponível”, “ou porque não têm a formação adequada”, só se desconhecem as solicitações.
D.C. afirma que “o pequeno comércio tem de se desenvolver pela diferença, pela qualidade e personalidade do produto que vende”, mas se nós não produzirmos nada como pode afirmar que “temos de nos individualizar pela qualidade dos nossos produtos”.
Parecem discrepâncias menores, coisas que passam facilmente sem reparo, mas revelam-se afinal, bem analisadas, perigosas misturas de ideias certas com outras menos certas, baseadas nas tais pias mentiras, e são incapazes de garantir a almejada “visibilidade no futuro”.

28 março 2007

Uma entrevista defensiva de Daniel Campelo

Daniel Campelo em entrevista ao AltoMinho apontou algumas razões para a sua forma de ver as coisas que não mudando nada de essencial revelam alguns cambiantes, pelo que responde e pelo que omite.
A base do seu poder é a mesma, é pessoal, e pode ser exemplificada com a sua frase “Consigo de manhã arquitectar uma ideia, à tarde estar a trabalhar nela e no dia seguinte construí-la.” Aceita-se como revelador de dedicação ao seu trabalho, mas repudia-se como método.
Quantas ideias nós temos, que tal depende da criatividade de cada um, a que atribuímos desmesurado valor e que após uma período de mais ponderação, do acalmar dos ânimos, do deixar pousar a poeira, verificamos serem desajustadas, megalómanas ou minimalistas ou mesmo simplesmente não apropriadas.
Mas cada um é livre de se convencer de que tem sempre boas ideias e nas alturas próprias. Aliás nós não precisamos de tantas ideias assim. Nós precisamos de uma ideia para Ponte de Lima, uma ideia que sirva quem cá vive e quer viver e na qual se consubstancie o essencial da nossa identidade.
Os verdadeiros criadores terão depois hipótese de no seu canto darem azo à sua criatividade. Não sou contra a inclusão dos jardins, antes pelo contrário, nessa ideia de Ponte de Lima. Só não aceito que se diga “Se a questão for de espaços verdes, é melhores serem concentrados”, tipo “mancha verde”
Não penso que se deva cimentar e alcatroar tudo e deixar uma faixa junto ao Rio. A quantidade de verde não é o problema mas a sua localização, a estruturação do espaço urbano. “Temos a veiga da Correlhã, de Crasto e o Festival de Jardins, entre outros.”, disse Daniel Campelo.
Tratam-se de arrabaldes e sabemos como eles são no geral, terrenos de pousio para progressão do cimento e do alcatrão. A veiga de Crasto vai sendo cimentada, agora para a Feira do Gado, logo para a Feira do Cavalo, não se vê a lógica, a beleza, o enquadramento. Perdeu-se a naturalidade secular, ganhou-se algo efémero, anacrónico, sem futuro.
Daniel Campelo diz que já perguntou aos da oposição qual era a terra que poderia servir de modelo. Já sabemos que a grande maioria são maus modelos, o que havia era que escolher o modelo base, não necessariamente utilizado algures, que se coadunasse melhor com o caso de uma vila ribeirinha, que tem de aproveitar essa mais valia para se valorizar.
Se Ponte de Lima quer ser Cidade do Lazer não pode ter só jardins e ecovias para passear e sarrabulho para desfazer. Sabendo as ideias fixas que pairam na cabeça de Daniel Campelo, a oposição tem que se limitar a sugerir remendos e para o que ganha já faz muito. A situação tem cinco pessoas, políticos, ao serviço e mais os técnicos que constituem o seu pessoal de apoio.
Além de mais o sector político a que o Presidente da Câmara pertence só é responsável pelos solares, porque os herdou, de resto nunca construiu nada de sólido em Ponte de Lima. O pouco que há deve-se à arraia-miúda, de quem sobe a pulso e muita da qual, se anda encostada ao poder, é porque é poder.
Depois Daniel Camelo revela a sua principal característica, como político: Diz umas verdades daquelas que todo a gente concorda e depois intercala-as com afirmações não confirmadas, mais umas pias mentiras, daquelas que os espíritos mais fracos aceitam com certa facilidade. Faremos a análise.

26 março 2007

A vitória dum monstro da hipocrisia nacional

Repentinamente, lembrei-me que em tempos, e hoje ainda que esporadicamente, ocorrem factos semelhantes a este no Portugal profundo. Uma freguesia inteira, com meia dúzia de excepções, dizia cobras e lagartos do padre. Não lhe poupavam insultos e maldições à boca pequena, mas quando chegava a hora, todos se engalfinhavam para pegar ao pálio.
Estas falsidades estão-nos na alma. Quando das coisas sérias se faz espectáculo, sujeitamo-nos a isto, ou antes, sujeitam-se aqueles que também queriam levar a água ao seu moinho. Porque agora pouco poderão dizer que abominam estes exercícios de memórias e suposições.
Supostamente Salazar teria possibilidades de se submeter em certos períodos do seu reinado a actos plebiscitários e de os ganhar, mas a desconfiança estava-lhe na alma e quando os realizou foi fraudulentamente.
Nada disto me custa aceitar, o que me choca é que as pessoas, obcecadas que andam por denegrir o Estado, não vislumbrem que se não têm memória deveriam ter feito suposições bem mais sérias do que as que fizeram.
Salazar nunca fez plebiscito sérios, muito menos faria eleições. Salazar assumiu-se como um cruzado e, tendo sido padre sem nunca dizer missa, aproveitou-se da religião para a sua cruzada, sabendo que há um anti-clericalismo por vezes feroz na intelectualidade mas fraco e inconsequente nas camadas populares.
Salazar criou aliados, suficientes para darem à população uma ideia de força, incentivou a apatia e o semi-analfabetismo, delimitou o campo inimigo, tão pequeno quanto possível, mas remetendo para lá quantos manifestassem alguma opinião contrária.
Uma das razões para a sua vitória, fruto do activismo de uns brincalhões que nós somos, foi dada como residindo no facto de que Salazar tornou o Estado uma pessoa de bem. Desvaloriza-se o peso da máquina repressiva constituído pela polícia política e seus tentáculos, de que muitos se esquecem.
Claro que se lhe dermos o crédito desta suposição hoje o peso do Estado é incomparavelmente maior. Incluamos nele, como é devido, todos os poderes, como as Câmaras Municipais e outros, aquelas instituições que provocam um efeito padronizador de hábitos e comportamentos, veremos que ele exerce um poder incomensurável e muita gente se sente saudosista da simplicidade de outros tempos.
Uma simplicidade que paradoxalmente também é vista se o modelo for Álvaro Cunhal, pessoa que se ensandeceu por ter lutado com tão pouca companhia contra um poder de raízes tão profundas. Também Cunhal tentou restringir as opções a dicotomias imperfeitas de que este final é exemplar.
Os seus discípulos querem manter viva uma luta digna no seu tempo, mas só o conseguem fazendo todas as suposições favoráveis, com a premissa que herdaram de que a sua ideia sairá sempre vitoriosa, nem que para tanto tenham que ir redimensionando continuamente em baixa os seus objectivos.
Cunhal não mereceria o título em disputa, mas também não merecia que o pusessem a lutar contra fantasmas. É a vontade de estar sempre presente em todas as lutas, a vã pretensão de dar seriedade a uma coisa feita a brincar, é querer manter vivo quem no pós 25 de Abril nos não deixou sonhar.
Salazar é um fantasma que, caso renascesse, não seria ilegível porque já não saberia viver neste tempo. Salazar no seu tempo foi um déspota primário, que soube manipular, assustar e deslumbrar mas hoje não enganaria ninguém.
Cunhal brilhou porque num só ano conseguiu criar alguma realidade e muita ilusão sobre um partido pequeno com uma grande influência, mas que ele nunca reconheceu como somente a manifestada nas eleições. No restante foi um retroceder continuo que só tem como coroa de glória não ter criado vítimas.
O que faltou a quem fez tão bizarra escolha é o senso das realidades perante as quais reagem. Hoje é verdade que o Estado assume um carácter absoluto como não tinha noutros tempos, mas não é politicamente despótico, é-o no sentido de haver um interesse colectivo que o Estado assume como nunca tinha assumido até ao presente em Portugal.
O desenvolvimento não se compadece com os processos mais defensores dos direitos individuais que nos estão na memória, mesmo sem nunca terem sido reais, e de que hoje se faz facilmente tábua rasa. Perante o colectivo relativizam-se direitos e quase se espezinham.
As pessoas atemorizam-se com a complexidade crescente do Estado e com o número crescente de pessoas que dele dependem. Há crescentes direitos de que podemos usufruir mas muitos só na teoria. Neste sentido o Estado actual pode não ser uma pessoa de bem, mas seguramente que o Estado não democrático é efectivamente uma pessoa de mal.
Outra razão invocada foi o papel primordial dado por Salazar à Nação. É dos conceitos necessários e que paradoxalmente só se firmou quando tivemos que bater o pé (moralmente) contra o País a quem devemos a nossa existência, a Inglaterra. Isto só mostra que é necessário redefini-lo e aproximar mais o Estado da Nação, sem desta fazer nada de estático.
Em democracia até das brincadeiras de mau gosto podemos tirar conclusões.

25 março 2007

Sacralização dos demónios e diabolização dos santos

Umas premissas político-ideológicas, uma mistura de duas realidades distintas, umas conclusões desajustadas, salvam-se estas por si. Com elas o João Carlos redime-se mas não em absoluto http://pontedelima.blogspot.com/2007/03/reflexo-de-fim-de-semana-os-perigos-do.html.
Enquanto a nossa preocupação única, obsessiva, for substituir Daniel Campelo, não estamos a prestar nenhum contributo válido à democracia e ao confronto de ideias e opiniões.
O mal do P.S.D. é que perdeu dois mandatos para Daniel Campelo por pequenas margens e por força das suas más opções pessoais. E perdeu outros dois mandatos porque foi reduzido à insignificância, pela debandada dos seus quadros, por motivo da força compressiva do Queijo Limiano e da construção televisiva de uma imagem retórica.
O P.S.D. tem pressa da desforra, alguns p.s.d.’s pelo menos, mas terão que ter paciência, vai custar-lhes reconstruir o aparelho político e vão ter mais concorrência. Mas acima de tudo vão ter que colocar os pés nesta terra.
Estamos tão longe de Lisboa (como estaríamos do Porto, não se vão aproveitar os regionalistas) que lá só há lugar para uma pessoa de Ponte de Lima, o homem do Queijo Limiano.
Nós herdamos esta dificuldade, aqui parece que também há um só homem, e pior ainda não é lá que podemos derrubar Daniel Campelo, é neste lugar recôndito, bravo e de brandas memórias, de que ele assumiu a condição de líder natural.
Não curando de saber o que há de ridículo na imagem que, lá em Lisboa, Daniel Campelo tem, nem em quanto ela terá contribuído para o anedatório nacional, era bom que o deixássemos andar, percorrendo o seu caminho e estudarmos o que cá leva as pessoas a nele confiar.
Por nós, com o nosso modesto saber, vamos contribuindo para a formação de uma “massa critica”, suficientemente evoluída para ter respostas, não só textuais, mas técnicas, actuais e numa perspectivas do futuro. E para que “surjam” pessoas em quem possamos confiar, verticais e não que sobrevoem. As asas que elas possam ganhar não nos devem tapar o Sol.
Há pessoas que se transfiguram, mas as populações também transfiguram as pessoas por força dos cargos que elas ocupam. Digamos que há um discurso ao dispor de quem assume o poder, de quem o exerce sem escrúpulos. Se uns vêm arrogância e prepotência, outros só vêm uma identificação perfeita entre a personagem e o lugar que ela ocupa.
Esta é a cultura que tem que ser mudada. Sem a exigência de uma escrupuloso desempenho e sem uma clara dissociação entre pessoa, desempenho e cargo, sem isso não há uma intervenção cívica que torne transparente a relação entre eleitos, e até a administração em geral, e a população que elege ou delega a execução de determinadas funções.
Daniel Campelo não é o Santo nem o Demónio. Todos nós temos a nossa quarta parte de responsabilidade como pais da “criatura”. Se ele usou um discurso maniqueísta é porque na Vereação Camarária e na Assembleia Municipal não teve oposição consistente no seu discurso ou a oposição limitou-se a raras fogachos entre períodos de um seguidismo atroz. Que roça o limite da “tacanhez”.
Simplificando, e assumindo estes fracos epítetos, não se espantem com a sacralização dos demónios e a endemoninhação dos santos. Um demónio a sério sempre foi melhor santo. A um demónio a brincar ninguém vai querer sacralizar.

Que mensagens para Paulo Portas

Quando Paulo Portas entrou na política nacional, primeiro através do seu discípulo Manuel Monteiro, depois pelo seu pé e com a sua voz, o discurso do C.D.S./P.P. privilegiava os temas fracturantes ou com possibilidades de o ser.
Entre as suas mensagens estava a defesa do mundo rural e o consequente ataque à Comunidade Europeia (Vivam os seus 50 anos), como factor determinante da perca da sua influência.
Como não pode haver sol na eira e chuva no nabal, mas pode haver cinismo político, a direita tentava segurar parte do seu eleitorado tradicional com o discurso e a outra parte, a do capital, a que não dá relevância a coisas como a coerência, com os euros.
Ora hoje os agricultores ainda são menos do que então e já viram que o seu sucesso não depende deste tipo de políticos. Quanto à direita crua e dura não gosta deste repetitivo folclore, a não ser para o dar ao povo.
Outra mensagem era destinada à captação do voto dos velhos “retornados”, ainda saudosistas do degradante sistema colonial. E simultaneamente de todo o género de oportunistas que, sem esquecer os que ainda hoje foram injustiçados, queriam que lhes fosse pago um serviço à Pátria, ao tempo representada por um governo despótico, a quem obedeciam sem condições.
Ganho o voto, foi esquecida a promessa, não explicada a incoerência da generalização de um apoio que deveria ser selectivo, abandonado o problema com uma anualidade ridícula para os que não precisam, irrisória para os necessitados e verdadeiramente penalizados na sua vida militar.
Que mensagens tem agora Paulo Portas para mexer, como tanto gosta, nas turbas águas onde então pescou com algum sucesso. O seu carácter arruaceiro não é de molde a ficar parado, a não ser que nas feiras, que ele tanto gosta de frequentar, o seu brilho já não seja o que foi noutros tempos.
Se o discurso político deste trauliteiro passar, mesmo sem estes espectáculos mediáticos, mesmo que ele consiga assumir uma imagem de alguma seriedade, nem que seja para uma votação semelhante à última conseguida, é porque não aprendemos nada.

24 março 2007

Mensagens que não voltam atrás

A mensagem chegou breve e clara:
“Tenho disponibilidade para estar contigo sexta, a partir das 15.”
Que pior altura para uma resposta cristalina, não envenenada!
Talvez:
“Impossível, esse tempo é o tempo de outro tempo com bastante grau de previsibilidade.”
Sei que não ficará satisfeita, que não procurará saber mais nada e que muito demorará que me contacte outra vez.
Tenho um grave problema entre ideias a resolver. Afigura-se-me que haverá turbulência, que nada pior que estas premunições para deixar uma pessoa paralisada, incapaz de reagir se não por impropérios, vociferando.
Não encontro ponto algum onde colocar um travão, uma escapatória, uma inversão.
Não sei quanto tempo isto me ocupará, mas é inadiável pensar, seja para ir ao encontro da solução, seja para ir contra a obsessão.
Não sei se isto me permite escapar, lançar um interregno, redimensionar a mente, introduzir outras perspectivas.
De nova uma mensagem:
“Estava à espera que o teu olhar voraz se lançasse sobre mim. Mas sossega, que eu vou lembrar-me que somos mais que simples escravos dos nossos impulsos.”
Não esperava. Ingloriamente estou manietado pela sobreposição dos tempos.
Se estava tranquilo, o tempo imediato enevoa-se-me.
Aqui não há recusa, há impedimento.
Volto a insistir:
“O tempo não me permite a limpidez que eu já encontrei nos teus olhos
Sei que, como eu, não acreditas no deslumbramento.
O teu esforço deixa-me reconfortado com a minha sorte e aspiro a que a tua te não falte.”
Instala-se a calma, passageira, mas suficiente para um fôlego.
E agora que fazer.
Várias questões que se enovelam, enredam, perturbam-se reciprocamente.
Só penso que perdi e mais posso vir a perder. O pessimismo atormenta-me.
Sinceramente, espero que melhores dias me surjam, que agora que não posso voltar atrás, estes próximos estão definitivamente estragados.

23 março 2007

Só evoluímos sem saudade mas com ternura

Ponte de Lima está de bem com o seu passado? Aparentemente todos estamos de bem. Mesmo se quem mais se revolta com a sua condição não deixa de valorizar o que o rodeia.
Passamos ao lado de tudo, da velha revolução industrial, do trabalho manufactureiro, da proletarização. Temos muita dificuldade em pensar sequer em termos que nos são estranhos na vivência e mais aversão nos causam no pensamento.
Sentimos afinidades emotivas mas não compreendemos os raciocínios e conclusões de quem sempre viveu de forma diferente. Devido àquela afinidade se dizia, no tempo de Salazar, que estávamos prontos para o comunismo, mas aconteceu que para o compreendemos nos falta a frieza dum qualquer ditador.
Hoje, aliás, ninguém já compreende o comunismo, ninguém o consegue encaixar na natureza humana. Em Ponte de Lima, não alheados, mas sim descomprometidos com as realidades que nos transcendem, continuamos a viver no bucolismo, na contemplação, no suave remanso.
Enfim o mundo começou a meter-se connosco. Tardiamente buscamos um trabalho diferente do habitual. O homem emigrou, percorreu mundo O mundo trouxe-nos confecções e sapataria. Já não é só o homem que se despega das raízes milenares, a mulher também.
Mas o passado está sempre lá para não nos deixar perdidos no universo. Regressamos e vemos tudo como era, semelhante, poético, deslumbrante, mas já nem tudo é igual. A coluna já não está habituada à enxada, o apelo já se não satisfaz com uma vida ao sabor do tempo universal.
Os homens já criaram outros tempos, outros ritmos, reinventaram novas alegrias para conseguirem estar vivos. Não podemos ficar sempre à espera do eterno retorno. Temos de nos despegar enfim e partir. Como sempre, os que cá ficam providenciarão por nós.
Na nossa mente conservar-se-ão os velhos caminhos, as lindas quintas com seus altos muros, os frondosos bosques, os campos multicolores, as vacas pachorrentas, as rebeldes cabras. Tudo aquilo que nos recusamos a entregar mesmo perante a voragem do progresso.
Mas quando regressarmos talvez vejamos tudo devorado pelo fogo regenerador. Ou as tenebrosas labaredas, que a tão necessária biomassa consomem, já se terão transformado em novos tufos num outro ordenamento.
A parte que levamos, a que nos consome com a saudade, é a parte que, na nossa ilusão de eternidade, mesmo assim não vamos entregar. É isto que nos separa, não das gerações que nos seguiram, mas daquela que estará hoje no berço, mais desprendida que ela será.
Só talvez essa possa vir a viver com ternura o que é de viver com ternura, a recordação de uma vida difícil, mas poética, em que a saudade estará arredada, para poder percorrer livremente os novos caminhos do futuro.

Depois de um curso já se fala numa Ordem para os doutores políticos

Nesta Terra, Ponte de Lima, de escassos “Doutores”, durante tantos anos sem ensino a partir da 4ª. Classe e durante muitos mais sem ensino a partir do actual 9º. Ano, ser “Doutor” é um posto, como que um título nobiliárquico.
Nos inícios dos anos 50 um colégio existente nesta Vila entendeu fazer segregação sexual, que as freiras ficavam demasiado perturbadas com os alunos machos e as meninas de fora pagavam bem melhor. As meninas de cá sofriam outro tipo de segregação e não estudavam em grande número.
Só quase uma década depois um fugaz Presidente da Câmara de Ponte de Lima criou o Externato Cardeal Saraiva, e de novo houve um ensino para os rapazes. Foram muito raros os que até aí estudaram no Liceu de Viana do Castelo e desde então, até à chegada do ensino estatal também não foram em número significativo.
Quando fiz o 5.º ano do Liceu em 1965 concluíram-no 4 alunos, e alunas de cá poucas mais seriam. Era uma licenciatura de hoje.
As coisas melhoraram um pouco com a Escola Técnica, mas quanto à continuação no ensino superior os números mantiveram-se muito baixos. A instalação mais tarde, inícios de 90, de uma Extensão da Universidade Fernando Pessoa veio permitir alguns ingressos.
Isto não é a história, no sentido rigoroso do termo, não pretende ser, mas já podemos concluir daqui as causas da nossa ruralidade. Eu sei, pela minha experiência, quanto pesa não ter um Dr., quanta mesquinhez, quanta estupidez se instala subtilmente difundida pelos Senhores Professores Doutores.
Os nossos, os da mesma igualha, como cá se dizia, são os primeiros a puxar para baixo os seus “companheiros” quando os mais atrevidos destes ousam por em causa a “sabedoria” dos encanudados.
Inventam-se qualidades raras que só seriam adquiridas por atribuição directa doutros ditos mais “sábios”. Transportou-se para o ensino civil a lógica do ensino religioso. Não se cortou o cordão umbilical que nos liga ao farisaísmo. Infelizmente associa-se doutor a fariseu.
Depois compartimentou-se exageradamente o ensino. Por via da dificuldade de atribuir os lugares na estrutura de ensino criaram-se demasiados tipos de formação com pulverização de cursos.
Contraditoriamente há tanta gente a exercer actividades não padronizadas conforme o tipo de formação que cada um possui! O problema reside só na diferença entre os que se acomodam e aqueles que, abrindo-se-lhes oportunidades, as aproveitam porque é aí que eles se realizam.
Agora são as Ordens que vêm dar títulos, autorizações, certificações para o exercício de uma actividade, de uma profissão. São mais lógicas corporativas, egoístas, abusivas. É o Estado que se deixa indevidamente substituir.
Sócrates não é engenheiro, será licenciado em engenharia, pós-graduado em engenharia. Não faz mal. Os fariseus terão que se vergar ao seu saber numa área que ele conquistou sem títulos académicos a condizer, a política.
Ou também irão conceber uma Ordem para os políticos, um curso para os aprendizes, um colégio para os filhos dos aprendizes?
Tenham vergonha, palhaços!

22 março 2007

Não aos cães assassinos!

Quem nos livra deste pesadelo. A quem havemos de apelar. Ao Governo, à Comunidade Europeia, à Liga Protectora dos Homens. Qualquer dia para nos vermos livres deste flagelo dos cães assassinos temos de nos unir.
Inventaram um registo dos animais. Noutros países há chips para os localizar, mas melhor fora para os imobilizar. O certo é que estas medidas não tem tido sucesso. Os próprios cães têm comportamentos distintos pelo que as mesmas medidas não são eficazes para todos.
Hoje há cães para todos os gostos. Manipula-se a natureza de modo a obter os animais que satisfaçam a tara de cada um dos seus amigos. Perante isto o Estado definiu com o eufemismo de “cães potencialmente perigosos” aqueles que deviam ser banidos do convívio dos homens.
Em Portugal haverá cerca de 4500 destes animais devidamente registados, fora os outros. Mas todos devem estar licenciados, bem como os seus aposentos, pelas Juntas de Freguesia, pela Câmaras Municipais e devem sair a público com garantias de segurança. E como se vê não estão em segurança.
Como nada disso acontece, que se aproveite este caso para estarmos alerta, denunciarmos e obrigarmos as autoridades a agir para haver respeito por uma lei que mesmo assim não assegura o sossego do cidadão normal.
Se a maioria destes animais poderá ser educado para andar com o dono, já nenhum o pode ser para andar sozinho. Por isso nunca ninguém tem qualquer razão em garantir a sociabilidade de animais, cuja ferocidade não tem comparação alguma com a maior fera que nos é próxima: O lobo.
Mas infelizmente há muita gente que até aceita nos animais aquilo que não aceita, e diga-se que bem, nos homens. Nós sabemos que os homens podem suspender a sua agressividade a qualquer momento, mas os cães não.
Infelizmente há crianças, mesmo filhas dos donos, vítimas desta estranha amizade, reveladora de conflitos não resolvidos. As pessoas que têm este tipo de animais têm de ter a consciência de que estão a passar uma certidão de óbito a alguém, algures, em algum lugar onde a sua mão não pode chegar.

21 março 2007

Não à canalhice política!

Neste clima apaixonado em que anda a direita, neste ambiente de impropérios e agressões que tomou conta do C.D.S./P.P., o P.S.D. resolveu entrar no baile da pior maneira, para não ficar atrás na malcriadez.
Na discussão mensal a que democraticamente Sócrates se tem submetido na Assembleia da República, Marques Mendes, para atacar os méritos de uma decisão sobre o previsível aeroporto da Ota, resolveu declarar que havia interesses que estariam por trás da escolha.
Esta agressividade bacoca, só tem justificação através da análise da solidez psíquica de tão leviana personagem, que, talvez por via do inconsciente que lhe está na alma, se deixa levar pelo Paulo Portismo, como teoria política revivescente, trauliteira e populista.
O seu medo é ser ainda mais ignorado do que hoje já é. A sua pequenez mais se revela nesta falta de nível, deste baixar ao nível da arruaça, que na sua mesquinhez pensará que o povo achará graça.
Por tanto se falar em Bancos por trás de Empresários e de especuladores da bolsa, não dá o direito a fazer insinuações deste jaez. O querer criar um clima de suspeição em que todos estão atrás de todos é reles.
Os interesses estão em todos os lados, pelo que mais se impõe que eles sejam especificados. Se alguns se possam atrever a soprar aos ouvidos de Sócrates, outros soprarão à vontade aos ouvidos de Mendes. O problema só reside em quem, dando ouvidos, se deixa corromper. E aí as possibilidades são bem diferentes, a favor de quem deita a primeira pedra.

20 março 2007

Não à chicana política!

A questão que levou a Câmara de Ponte de Lima ao Tribunal para responder por um acto coercivo, que este haveria de julgar injustificado, pode ser vista sob dois prismas, conforme a maneira que cada um tem de “fazer” política.
Daniel Campelo assegura que o processo que levou ao corte de abastecimento de água a uma habitação por um período de três meses seguiu os trâmites normais, tendo baseado a sua atitude num despacho técnico.
Este comportamento foi penalizado em Tribunal pelo que só há uma posição que se possa assumir: Pugnar por que sejam regulamentados de forma precisa, incontroversa e constitucional os casos em que uma atitude, da natureza da que agora foi penalizada neste contexto, possa ser praticada, para que um caso semelhante, como é evidente, se não repita.
Regulamentos correctos serão aqueles que além de dar satisfação aos interesses da população, permitem a operacionalidade dos serviços camarários e obviam à responsabilização pessoal dos seus agentes.
Se o Ministério Público entendeu, com base neste processo e nas declarações prestadas no seu âmbito, instaurar um outro processo, atinente a deduzir as responsabilidades pessoais, haveremos de aguardar as suas conclusões.
Não somos nós que vamos julgar da boa fé, deduzir possíveis motivações pessoais, atribuir carácter persecutório ou quaisquer outras características que um acto desta natureza pode assumir, para além de constatarmos o erro que foi cometido.
A oposição institucional esteve à altura, não entrou na chicana política, aplicou a grande máxima de que todos são inocentes, pelo menos, até prova em contrário.
A oposição chicaneira, parte dela com a ideia de fazer oposição à oposição, entendeu dever ter sido feito um aproveitamento político deste caso, em que dos três acusados só um é político e nas condições em que ele se encontra.
Como comentarista não alinho na trapaça, mas também sem ter que alinhar pela cabeça de um juiz, após a conclusão deste segundo processo, espero ver definidas as responsabilidades de cada um.

Insatisfação e desconfiança na oposição

A desconfiança que se instala num primeiro momento é o pior que pode acontecer numa sociedade. Havendo desconfiança não há liberdade porque as pessoas é que terão que lutar para que se confie nelas. Por sua vez também elas serão levadas a desconfiar da sociedade no seu conjunto numa tentativa de inverter o ónus da prova.
Quando as pessoas se vêm encurraladas, de tudo acusadas, necessitando de continuamente provar uma inocência que nunca conseguem alcançar, ou pelo menos manter por muito tempo, é porque o Estado ou outros órgãos dirigentes se arrogam o direito de serem incólumes à crítica.
O modo de nos relacionarmos é uma característica que diz muito da qualidade de uma civilização. Nunca será possível por de lado toda a suspeição, mas quanto mais a conseguirmos manter arredada das nossas relações mais saudável é a nossa vivência.
Quando a desconfiança é inelutável, quando nos atinge de todos os lados, nos corrói a alma, que por vezes até nos deixa abúlicos, faz com que nós nos habituemos a conviver bem com a desconfiança alheia e mal com a nossa própria. Aí é mesmo necessário que dela nos libertemos.
Nunca haverá confiança absoluta porque não haverá nunca verdade absoluta. Mas se fizermos da nossa vida um caminho em direcção à verdade, estamos a contribuir para a instalação de um clima de confiança no relacionamento humano e para a promoção da paz.
A mudança no estado de satisfação/insatisfação de uma sociedade pressupõe sempre uma maior ou menor confiança em quem detém o seu poder dirigente, mas não implica necessariamente uma desconfiança generalizada. As forças políticas devem lutar contra essa situação.
Só as forças políticas totalitárias endemoninham certas franjas da sociedade para tentar justificar as suas políticas erróneas. Às forças políticas em geral cabe criar um clima de insatisfação, mas a sua eficácia só será prática se ao mesmo tempo se criar uma maior confiança nas pessoas que as representam e lhe dão corpo.
Nas actuais circunstâncias a alguma insatisfação que possa existir não corresponde uma mudança da confiança para a oposição. O drama que a direita vive, que nunca em alguma vez viveu é a irrelevância dos seus dirigentes, a pequenez da sua visão do futuro, a veleidade e superficialidade das suas propostas, a mesquinhez da sua conflitualidade interna.

19 março 2007

O carácter dos vencedores é pouco magnânimo

Esta disputa pela liderança do C.D.S./PP está a ser vivida intensamente pelos seus militantes limianos. E agora vai haver claramente vencedores e vencidos, que dificilmente os litigantes vão conseguir conviver.
Um (PP) não coaduna a sua pressa com o normal funcionamento partidário. Outro (RC), indignado, levanta as barreiras perante um assalto do mais perverso que alguma vez se viu.
Um cavalga aguerridamente uma causa de que ele próprio não saberá os contornos, que o que se lhe afigura é ter agora a grande oportunidade de ser a figura de proa de uma direita que está desconexa e desliderada.
Outro, pensando que a sua cruz é sofrer os vexames deste troglodita armado em cavaleiro dos novos tempos, sonhando manter-se como a reserva moral de uma democracia cristã autofágica, que sempre pensou que o povo responderia automaticamente a qualquer apelo vindo da cruz e da espada, espera o fim sem olhar nos olhos os traidores.
As pessoas têm sempre um fraco pelos fracos, os que perdem, os que vendem cara a derrota, mesmo quando se sabem desacompanhados. Se R. Castro mantiver a sua postura sairá glorificado, livre de compromissos contra-natura, aceite praticamente em qualquer lugar honesto.
P. Portas, vencedor à partida mas como traiçoeiro armadilhador do caminho dos honestos, jogador frio e cerebral, cuja perversa inteligência o levou do comentário verrinoso ao colo dos seus antigos inimigos, verá sempre, qualquer que seja o resultado, a sua estrela a empalidecer, só seguida pelos pobres náufragos, à espera de vender a alma ao primeiro corsário que lhes apareça.
P. Portas não sairá desta peleja com condições para ser bem recebido em qualquer lugar, em qualquer aliança, não mais merecerá a confiança que já a custo obteve da última vez, somente porque também era muita a ambição de Barroso. Será sempre visto como o sem eira nem beira, que assaltando uma fortaleza rica de antigos tesouros, quererá vir a ser um escroque “respeitado”.
P. Portas não mais conseguirá a teatralização da magnanimidade que pensava servir numa bandeja no dia em que vencesse um plebiscito, convocado de forma a atropelar todos, calcar adversários, que, submissos, pensou, se vergariam perante o seu esplendor maquiavélico.
Os seguidores de Paulo Portas já se demitiram de defender um património de que nunca se sentiram senhores, quais arrivistas prontos a aceitar quaisquer princípios que o pragmatismo do chefe lhes apresente. Na realidade as suas convicções estão ao nível do vale tudo, que tudo se justifica por pôr um dia um pé que seja no governo.
Terão sido só as circunstâncias que puseram Daniel Campelo e Abel Batista em distintos lados da barricada, ou este posicionamento terá a ver com um modo diferente de ver a vida, a política, os valores que dizem defender.
Quando as pessoas não querem que as coisas sejam aquilo que parecem, tomam posições claras e não se podem esconder em afirmações do tipo: Aqui para Ponte de Lima estas questões não interessam.

18 março 2007

Tantos bancos, tanto dinheiro, tão pouca iniciativa

Na economia podemos sempre ver um lado positivo e um lado negativo em todas as coisas. Para uns perderem há outros que ganham, a não ser que façam negócio entre si, que todos ficam a ganhar.
A economia não é boa nem é má, é tão só imprescindível. Como ciência dos bens escassos só não consegue resolver os problemas quando os bens são excessivos. As crises económicas, diferentes das crises por insolvência do Estado, derivam sempre de uma repentina abundância.
Os meios financeiros desempenham na economia o papel que o óleo desempenha num motor de combustão. Não podem ser em falta mas também não podem ser em demasia.
Estes meios têm hoje a mobilidade que falta aos meios de produção económica, tanto pela sua natureza, como também pela criação de espaços económico/financeiros alargados.
Quando cá falta dinheiro para emprestar na compra das casas vai-se buscar lá fora, é ver o endividamento dos Bancos Nacionais em relação ao exterior. Se a situação inversa de emprestar dinheiros aos outros não ocorre, podemo-la ver a nível de Ponte de Lima.
Em Ponte de Lima a apatia económica é confrangedora, no entanto os Bancos crescem como cogumelos e os depósitos bancários avolumam-se.
Por um lado é bom, são empregos que se criam, não será uma IKEA, muito menos a louvada Indústria do Sarrabulho, mas terá o seu valor no P.I.B. regional: vinte agências, mais de cem trabalhadores, é obra.
Por outro lado, quando andamos para aqui armados em pobretanas, os Governos devem saber disto, que nada nos dão há já uns longos anos. Para quem tanto dinheiro tem pensarão, como Daniel Campelo, que uns jardins para passear (nem que sejam a pagar) são quanto bastará.
Os Bancos fazem apenas intermediação, só que, ao contrário dos antigos agiotas, enviam dinheiro electrónico para longe, em vez das velhas notas de Santo António para o vizinho do lado.
Os Bancos sabem que por cá o vil metal jorra das nascentes como o petróleo jorra nos desertos arábicos e portanto cá vêm eles arrecadá-lo, que o dinheiro faz falta noutros locais. Em Ponte de Lima não.
Efectivamente o dinheiro é de quem o tem e quem o tem em Ponte de Lima manifesta-se incapaz de o rentabilizar por via de iniciativas de desenvolvimento económico. Talvez porque no Banco ele não fala e com a cupidez dos nossos homens da massa qualquer coisa que se visse até por eles era mal vista.
Para os nossos agiotas ganharem, perdemos todos. Se fizessem negócio connosco, davam-nos dinheiro, nós daríamos trabalho e todos ganharíamos. Nunca em Ponte de Lima houve tanto excesso de capital financeiro e escassez de capital produtivo. Escusemo-nos a saber donde ele vem.

17 março 2007

Os caminhos de uma madrugadora Primavera

Este tempo de madrugadora Primavera sempre foi do meu maior gosto. Este tempo de floração é, para quem mais vive em consonância com o tempo universal, o esplendoroso tempo do renascimento da vida.
Para uns começará o martírio de se ter que haver com o pólen agressivo, mas ainda bem que tal não afecta a grande maioria de nós, aqueles que há muito adquirimos a necessária imunidade natural.
Para estes é um gosto desfrutar do múltiplo colorido das flores e folhas que desabrocham nas suas várias tonalidades do branco ao rosa e ao vermelho, do amarelo ao verde claro e ao verde mais escuro.
Os que podem vão tendo gosto em manter assim a paisagem, que as novas construções, se alteram a paisagem vão contribuindo para aguentar este aspecto florido, pelo menos junto às habitações.
Mas hoje não é possível impor o arroteamento compulsivo das terras agrícolas como foi feito na Idade Média para satisfazer as necessidades da população. Quem corre hoje é mesmo só por gosto.
Como temos excesso de produtos agrícolas, não nos curando de saber da sua duvidosa qualidade, manter este jardim torna-se uma tarefa impossível, pelo dispêndio, pelo contínuo desperdício de dinheiro dos seus proprietários.
Um dia destes, iludidos que andamos a olhar para a jóia da coroa condal, o Jardim dos Labirintos, quando dermos por ela, dos terrenos agrícolas sobrarão as silvas a invadir até os caminhos agrícolas, impossibilitando-nos de usufruir de tanta beleza.
Valha-nos Santiago.

Como evitar a corrupção

A nossa preocupação em ver políticos não corruptos à frente dos órgãos eleitos e por consequência em ver técnicos ou políticos não corruptos que por escolha estão à frente dos órgãos não eleitos na dependência dos primeiros leva-nos a procurar destrinçar as razões que fazem nascer a corrupção.
Estamos inseridos numa civilização que, desconfiando da natureza humana, procura tudo regulamentar e classificar todas as possíveis formas de corrupção, de modo a procurar controlá-las por via legislativa.
Talvez por excesso de regulamentação e falta de controlo é que, se na teoria isto pareceria funcionar, na prática leva a uma política de facilitação e desculpabilização que relativiza todos as formas de corrupção a pontos que se torna insuportável sequer assistir.
Esta abordagem que deambula tão rapidamente entre a inflexibilidade e a permissividade faz corroer as almas e os relacionamentos, enfim torna vulgares e contestáveis todas as estruturas que dão corpo a esta sociedade.
São patéticos no entanto os apelos a mais controlo, como se para cada pessoa activa se tivessem que pôr várias pessoas a exercer somente funções de controlo. É preciso encontrar outras formas de obviar ao problema.
Sem minimizar o problema também se diga que muito do nosso padecimento por esta causa deve-se a generalizamos aquilo que não é generalizável. Da desconfiança na natureza humana passamos à desconfiança de toda a obra humana normativa, desconfiamos da eficácia de todos as formas de reposição da justiça, justiça passiva, depois de desconfiarmos em absoluto de toda a promoção activa da justiça.
Se a corrupção é característica das sociedades em que o Estado tem um grande peso, é fundamentalmente porque o Estado é mau a regulamentar as suas relações com os vários elementos que constituem a sociedade. Essas relações não são da mesma natureza das relações interpessoais.
Os funcionários e agentes do Estado não conseguem despir-se dos seus interesses específicos quando actuam em nome do Estado e além de se não conseguirem formular regulamentos equitativos, também se não conseguem construir normas suficientemente eficazes para repor a justiça que possa ter falhado num primeiro acto.
A corrupção não actua só por via do favorecimento económico, embora seja por aí que o seu resultado mais geralmente se vê. A corrupção tem forma de se insidiar por outras vias mais pessoais, sentimentais e relacionais que podem conduzir a resultados igualmente duvidosos.
Se diminuir a dimensão do Estado é diminuir a dimensão da corrupção, esta também se diminui procurando a forma equitativa, equilibrada de atender a todos os interesses a que as pessoas e as organizações vão dando azo. Do Estado espera-se a equidistância que já se não espera das pessoas.
Em vez de pensarmos resolver as coisas pelo lado da cultura, como se fosse possível inculcar nas pessoas uma cultura de renúncia a vantagens em detrimento de outros ou da sociedade, pensemos em como diminuir a corrupção promovendo o acesso a uma justiça activa, primeira, capaz de desincentivar a utilização das lacunas e imprecisões que inevitavelmente continuarão a existir na lei.
Os políticos, dos que mais ganham com a corrupção, têm de ser os veículos duma atitude nova, que se transmita à população de modo a que esta não aceite a permanência ou a reeleição de pessoas avessas à justiça e que leve à rejeição partidária desse tipo de candidatos passíveis de serem corrompidos.
Os políticos são geralmente corrompidos de forma passiva por quem visa a obtenção de vantagens numa competição e é capaz de despender elevados recursos nessa actividade como custos da sua própria actividade.
Sendo este o tipo de corrupção de que se mais fala não é porém o que a população mais sente. Esta sente bem mais a corrupção incentivada pelos funcionários e agentes do Estado em termos de um favorecimento que quase nunca é em detrimento de alguém, quando muito é em prejuízo de todos.
É na defesa destes todos, da sociedade no seu conjunto, para além da defesa dos direitos individuais, que os políticos se podem evidenciar de modo a que se definam melhor as regras, a representação dos valores sociais e pessoais que não podem ser deixados só ao cuidado da máquina judicial.
Se, conhecendo a sociedade, conhecemos a massa de que os corruptos são feitos, e, sendo os políticos escolhidos, podemos através de uma criteriosa selecção fazer destes não aqueles que se atravessam na nossa frente, mas aqueles que a sociedade prepare para essa função.
Mas não há milagres. Sem um permanente estado de alerta, sem a presença de uma forte opinião pública, os corruptos surgirão, não há estado policial que resista, associações cívicas invioláveis, partidos que se não transformem em gangs.

16 março 2007

Muitos comentadores e políticos estão condenados à berma da estrada

No comentário pressupõe-se que nós falemos dos outros e quando isso acontece possivelmente estamos a contribuir para denegrir a sua imagem, que como hipótese não podemos pôr de lado. Mas não será isso que nos tirará a razão dos nossos reparos em relação à acção dos outros.
Entre comentar e agir politicamente há porém uma diferença ao nível da exigência. No combate político sério devemos falar do que é a actividade dos outros, ou da falta dela, com o objectivo de mostrar que somos capazes de fazer melhor, que há outros valores que nos propomos representar.
No comentário não há esta exigência mas por outro lado há a necessidade de termos consciência que a sustentabilidade das nossas opiniões tem de resultar na própria ocasião e não num futuro que para já é uma incógnita, o comentador não se pode responsabilizar por ele.
Num e noutro caso porém há uma semelhança de efeito sobre a imagem de outrem e muitos políticos com imagem “firmada” pretendem ingloriamente que ela não seja posta em causa pela “irresponsabilidade” dos comentadores. No entanto só a nível local as pressões nesse sentido fazem algum efeito, porque a nível nacional essas atitudes são no geral contraproducentes.
Nós mudamos continuamente e, para além de nos aproximarmos mais ou menos de uma imagem verdadeira, mudamos para pior ou para melhor. Quando é para pior não há simpatia, que possamos ter pela imagem de nós mesmos, que resista a uma imagem mais verdadeira. Os outros encarregam-se de nos lembrar que já somos outros.
Quando é para melhor, quando há mais verdade na imagem para que queremos mudar, tal não é suficiente mas a ver de imediato reconhecida pelos outros. Maugrado esse esforço podemos não ser senão uma caricatura daquilo que queremos ser, já também desajustada daquilo que fomos. Este desajustamento pode dar mesmo origem à vergonha.
O sucesso de muito político passa por aqui, por escapar a estes condicionalismos do desenvolvimento social, pela rapidez com que se apresenta com a “cara lavada”, sem aparente conexão com o que no antecedente fazia criar nas pessoas uma outra imagem. As pessoas gostam de ser surpreendidas, assim como gostam de ver tombar os ídolos de ontem.
Muitos candidatos a comentadores extasiam-se ao entrar neste deita abaixo, que de tanto malharem nos “desgraçados”, algum dia algum há-de cair e eles sairão à praça triunfantes. Quando alguns caírem é a festa. Mas ao fazerem acusações avulsas, genéricas e abstractas, mesmo que acertem, não estão a fazer um comentário digno.
O comentador não pode passar ao lado do percurso dos políticos ou candidatos a tais, da sua eclosão, dos seus ocasos e renascimentos. Não tanto no sentido de andar à procura de contradições, porque mudam as circunstâncias mudam as soluções e mesmo que haja políticos visionários nem sempre essa visão é aceite pela sociedade.
O comentador deve procurar nos percursos dos políticos, que nem sempre são fáceis de analisar, porque é aí que mais se faz incidir a idolatria, aquilo que é constante, as afinidades, aquilo que permite ou não que um político vá além das suas próprias limitações, o que o torna apropriado ou não para a função, o que lhe permite ou não adoptar em cada momento as soluções mais acertadas.
O comentador deve fazer o trabalho que o idólatra gosta de fazer, porque nem tudo é negativo em toda a gente. Mas nunca pode pretender fazer o que o idólatra faz, esquecer o passado em função de que todos os aspectos positivos já estarão presentes na imagem actual e os negativos são irrelevantes.
Mas o que o comentador não pode esquecer é que ele próprio deve estar preparado com uma ou mais ideias do que deve ser apropriado fazer em cada caso, com vista a uma dada política, ao bem público. É irrelevante pedir ao comentador que tenha ou não uma só ideia precisa e concisa, como não é correcto estigmatizar aqueles que as têm.
Os actores políticos também participam neste bota abaixo/bota acima, crendo muitos que é a melhor maneira de fazer política. A nossa exigência porém cada vez mais se fixa em que eles, ao contrário dos comentadores, se virem mais para o futuro, é este que está em causa quando se escolhe alguém.
Cada político apresenta-se sempre como alternativa a alguém dentro ou fora do mesmo estilo de representação. A obsessão com o seu principal objectivo de substituir alguém fá-lo esquecer o que deve ser o seu trabalho: o estudo, a compreensão do fenómeno humano, a aquisição de sensibilidade social, o domínio básico dos condicionantes entre os quais a economia, o ambiente, a concorrência, a geoestratégia das forças regionais e mundiais.
Um político não deve ser um aventureiro. As suas soluções, sejam novas ou “recicladas”, devem ser apresentadas com a convicção de que, não tendo virtudes milagrosas, não só fará melhor, como pode contribuir para que todos façamos melhor. O político milagreiro é um fantoche.
Um bom político, sem ser lamechas, deve propor-se representar valores, como a solidariedade, que hoje ainda não suficientemente considerados nas tomadas de decisão. Aqueles que assim não procederem serão “lixo” que a história se encarregará de colocar na berma da estrada.

15 março 2007

A denegação de justiça em conflito de vizinhos

Ao contrário de alguns comentadores/políticos apressados http://pontedelima.blogspot.com/2007/03/daniel-campelo-constitudo-arguido.html não sou eu que vou denegar a justiça a Daniel Campelo e até louvo a atitude dos vereadores da oposição da Câmara de Ponte de Lima pela atitude que tomarem em permitir que a justiça funcione normalmente.
Para já porque a justiça relativa ao processo cível que está na origem desta acusação da prática de dois crimes (denegação de justiça e prevaricação) que consta deste processo penal instaurado pelo Ministério Público, já está realizada.
Depois porque se a Justiça entendeu ser este um caso isolado não enquadrável em qualquer norma que imponha a suspensão do mandato, não devem ser os Vereadores a promover qualquer aproveitamento que leve a uma atitude com um resultado análogo.
Sem qualquer sentido crítico, que nesta fase não parece aconselhável até porque faltam conhecimentos técnicos e jurídicos para ter uma opinião totalmente formada sobre o assunto, diga-se desde já que todo o processo tem origem num desentendimento entre vizinhos:
Um vizinho usava uma fossa, o outro construiu uma piscina em terrenos contíguos. Os líquidos da fossa invadiriam os terrenos em que estava a piscina. Este vizinho entendendo não ter que aguentar com essa invasão recorreu a quem pudesse intermediar o conflito: a Câmara, em detrimento do Tribunal. A Câmara aceitou a incumbência.
Falhados os meios mais pacíficos, a Câmara entendeu usar um meio coercivo, que pessoalmente entendo desproporcionado, mas que Daniel Campelo diz lhe ter sido proposto por um parecer técnico: o corte do abastecimento de água.
O processo inicial está concluído e presumo a justiça já está feita em todos os seus aspectos de normalização das relações de vizinhança. O que está agora em causa é na opinião de Daniel Campelo “se vingar a acusação vai-se instalar o caos no concelho” e “ninguém sério e inteligente vai querer ser presidente da câmara”. Para mim acho que não faltará quem queira.
Para mim só está em causa saber onde começam e acabam os poderes da Câmara neste domínio das relações interpessoais e se podem ir ao ponto de pôr em causa o fornecimento de um bem de primeiríssima necessidade.
Este caso poderá vir a ter uma conclusão de que me perdoarão a perfídia: as culpas sobram sempre para os de baixo, aqui para já estão mais imputadas ao de cima. Mas não tiremos conclusões apressadas.

13 março 2007

Um Marques Mendes leviano e irresponsável

Quando aderimos ao Euro, já lá vão uns anos, criou-se a ilusão de que, criando-se um espaço económico único com uma moeda forte, todos seríamos ricos. O problema é que só alguns o viriam a ser. A convergência ficou-se por aí.
Quando eu ouvi dizer que a riqueza, fosse qual fosse o país em que se criasse, viria a beneficiar a todos fiquei estupefacto e apavorado. Como é que um governante podia ter o desplante de dizer uma barbaridade destas? Porque pior que não ter ilusões é ter desilusões.
Alguém houve que logo se aproveitou. Altos dirigentes do País e da máquina empresarial do Estado abocanharam o seu bom bocado, que, havendo um só bolo para todos, se veio a provar mais tarde, é o bocado que falta aos outros.
No geral os políticos entenderam-se pela necessidade de conseguir a adesão mais imediata de uma classe de privilegiados, dando-lhes remunerações e benefícios abusivos em detrimento do povo, que perdida esta corrida, jaz com alguma desilusão e até ameaça votar contra uma das mais grandiosas construções humanas de que há memória: a Comunidade Europeia.
A ilusão criada, ao se desvanecer pela força das circunstâncias, ao menos não foi suficiente para virar as pessoas contra a política, porque decerto sabe que haverá alguns honestos e outros que pelo menos serão bem intencionados. Mas há aí uma classe de políticos, velha e dura como um corno, cujas boas intenções, a não ser os já enganados, não enganam mais ninguém.
Nós já temos obrigação de saber bem aquilo que temos e de saber, acima de tudo, que afinal cada país se tem que haver com o que tem. Mesmo o dinheiro que vem da Comunidade não pode ser gasto naquilo que se quer, salvo alguns malabarismos contabilísticos que os há, que o Chico Esperto é nacional.
A paga de termos uma moeda única é a impossibilidade de termos moeda para emitir e para desvalorizar. A moeda é forte também é nossa mas não é só nossa, se não aonde ela já estava. A moeda forte é um colete-de-forças que nos não permite usar expedientes fáceis para nos tornarmos competitivos, tanto em relação aos nossos parceiros, quer em relação ao exterior.
A solução para os nossos problemas é produzir mais e acrescentar mais valor aos nossos produtos. Temos de vender mais, com mais valor e comprar menos, não digo comprar só o barato, mas sem a ilusão de que somos ricos.
Se as ajudas que nos dão as pusermos a ajudar ao consumo, e não para aumentar a nossa capacidade de produzir mais e melhor, estamos a contribuir apenas para que a ilusão perdure um pouco mais e alguns fiquem mais ricos.
O povo já se não deixa levar por falsas ilusões mas é conveniente pormos um nome a cada coisa. Valha-nos que, ao menos neste caso, nem precisamos de ser nós a dar o nome apropriado, que seria outro mas sejamos corteses, que Ferreira Leite disso se encarregou e para que se saiba atribuiu a Marques Mendes o bonito nome de irresponsável ao propor baixas de impostos.
Apoiamos porque a demagogia deve ter limites.

12 março 2007

A solidariedade universal tem que passar por aqui

Há uns anos vivíamos muito afastados do mundo. Vivemos décadas resignados a não usufruir de tantos bens da civilização como os outros países ocidentais. Compensávamo-nos moralmente: não nos sentíamos culpados pelos malefícios que o seu progresso, dizia-se, já estava a causar.
Hoje, que nos aproximamos dessa civilização hedonista que chegamos a abominar, não temos desculpa alguma. Há contraceptivos, vai haver aborto mais livre, há carros, há ar condicionado, há férias, há supermercados cheios, há de tudo, pelo que já nos temos de sentir responsáveis pelos erros da humanidade.
Ninguém vai esperar que um pobre se manifeste contra a matança de lontras porque os da sua relação não têm posses para comprar casacos de peles. A maioria da humanidade, porque pouco tem ou julga pouco ter beneficiado com o progresso só pensa em ter o que os outros têm. Nós temos de ultrapassar essa visão egoísta e limitada.
Naturalmente que mesmo os povos mais pobres também querem chegar a um certo patamar de riqueza. Já estão usando a economia e a migração para pressionar os países ricos do Ocidente. Estes defendem-se, os Estados Unidos constroem um muro na fronteira com o México, os Espanhóis barram as suas costas à invasão, para defenderem privilégios que vêm ameaçados.
A responsabilidade é primordialmente nossa, do Ocidente, mas também colectiva, universal. Vamos ter que repartir bens e populações, coisa que aliás nós portugueses temos feito de há quinhentos anos para cá. Vamos ter que arrepiar caminho nas agressões à ecologia. Não podemos humilhar mais os deserdados, temos que lutar contra a nossa própria voracidade.
Há problemas à espera de urgente resolução. Será bom que ao menos nos vamos apercebendo da dimensão de outros que não têm solução fácil. Será bom que não queiramos continuar a viver à custa da miséria de parte da humanidade.
Será bom que vamos começando a nos sentirmos também culpados e a saber porquê.
Os Estados Unidos da América, outrora farol da civilização, saíram com Bush dum caminho de humanidade. O que era o nosso escudo tornou-se a nossa vergonha e pode ser a nossa humilhação. A solidariedade mundial tem que passar por aqui para que esta Potência seja obrigada a alterar o seu caminho.
O nosso Governo merece o nosso aplauso ao retirar do Iraque.

Opinar em nome da Luz

Opinar livremente é terrivelmente difícil. Para já porque temos um passado, estruturas mentais consolidadas, interesses próprios, relacionamentos favoritos.
Mesmo querendo ser livres, os outros não nos deixam. Opinar, fazendo disso manifestação pública, é tomar posição e dar origem e uma série de reacções em cadeia. Os outros não gostam de surpresas, acham-se melhor vendo-nos com as opiniões que nos atribuíam ou com a falta de qualquer opinião própria.
As pessoas têm muita dificuldade em analisar uma opinião pelo seu valor intrínseco, isolado de qualquer valorização prévia da pessoa que a emite. De certo porque se vêm incapazes de terem eles próprios uma opinião avalizada, aderem ou não às opiniões alheias somente por confiança ou simpatia.
Tradicionalmente o aspecto impessoal, asséptico, de uma questão que estivesse em apreço, se podia ser considerado à partida, ia, com o decorrer da polémica, ficando cada vez mais arredio e entrando as questões mais pessoais.
Neste aspecto avançou-se bastante e discute-se hoje de modo mais civilizado, menos desapaixonado, mais inteligente. Mas, se não se ataca a opinião por vir de quem vem, ainda se mantém o velho esquema de se procurar remeter para outros temas, que se quer que sejam os que estão em causa.
Uma opinião afronta muita prosápia, muito convencimento, muita “sabedoria” da encartada, diplomada. Que, à falta de outra defesa perante tantas opiniões contrárias, se enclausura no Contra, pessoa que só tem por objectivo por em causa a nossa liberdade e não leva a sério a opinião expandida nem os argumentos utilizados.
O Contra é o parasita do sistema. Raramente o Contra vai ao cerne da questão, antes vai buscar os condicionalismos do ambiente que atribui ao opinante, que nunca aceita como um homem sério e livre. O Contra utiliza até um legítimo interesse particular para desacreditar quem se manifesta.
O Contra é aquele que, esteja em que posição relativa estiver, é contra a liberdade, a clareza, a sabedoria. O Contra é o homem das trevas, é contra a Luz.

11 março 2007

Pessegueiros, cerejeiras e ameixieiras em flor

Quatro dias de Sol foram suficientes para retirar a roupa mais pesada, para sair de casa e procurar o prodígio que na natureza constitui o florir das árvores, para já as mais prematuras.
Nesta época em que ainda não há folhas, as flores que desabrocham de algumas árvores brilham mais do que nunca. Mas lastimosamente não temos por cá amendoeiras, árvores cuja floração se deve fazer nos dias frios e cuja maturação dos frutos se faz nos dias quentes. Isto que só se consegue no Alto Douro e nas serranias do Algarve também nunca se sabe se virá para cá.
Valha-nos para já as ameixieiras, as cerejeiras e os pessegueiros, tão ou mais bonitos, que o contra é não sobressaírem tanto na paisagem. Mas têm mais tonalidades de cor, são mais esplendorosas, na sua modéstia influência nesta rica e variegada paisagem, tão depressa ficará repleta de verde.
Também fora daqui ninguém comerá dos seus frutos, que neste domínio ainda estamos na época da auto-subsistência. Muitos frutos não terão sequer a qualidade indispensável para entrar na nossa alimentação. Infelizmente não é por aqui que se construirá o nosso futuro.

09 março 2007

O fim da Democracia Cristã e o isolamento de Daniel Campelo

Num recente entrevista ao Canal 13 da TV Cabo – O Porto Canal, Daniel Campelo afirmou peremptoriamente não se candidatar em 2009 à Câmara Municipal de Ponte de Lima.
Ter-se-ia precipitado porque viria a haver melhor ocasião para revelar essa intenção. É que nesta luta intestina que percorre o CDS-PP Daniel Campelo perdeu um trunfo de certo valor.
Daniel Campelo gosta de resolver questões, que diz pessoais, de modo igualmente pessoal. Caso Paulo Portas ganhe a liderança do PP, o que é o mais provável, Daniel Campelo teria então uma ocasião soberana para lhe bater com a porta na cara.
Se Daniel Campelo não tem qualquer peso político, teria que aproveitar o seu peso institucional para fazer valer os seus argumentos.
O CDS-PP, Partido nacionalmente considerado, ou pelo menos o seu ramo popular, tem uma ambição bem maior que a sua dimensão. Já o ramo democrata cristão acha que é realista agarrar-se às suas ideias mais genuínas mesmo sabendo que elas estão em decadência.
Ribeiro e Castro era a última reserva moral do partido, o representante da corrente democrata cristã, e com a sua política personalista fez recuar o partido trinta anos. Se o “pai” Freitas do Amaral já há muito se foi, Ribeiro e Castro ainda era o “filho” que conseguia manter algum respeito em casa, mas tem o destino traçado, os irmãos não aceitam o morgadio, a rebelião está em marcha.
Encontram-se frente a frente duas maneiras distintas de fazer política: Uma, defensora de que o futuro é dos grandes partidos, ideologicamente mais generalistas; Outra que pensará que a influência das suas ideias pode ser exercida por um partido pequeno que, para que elas tenham força, deve defender a sua identidade e não ceder a novas modas.
O apoio que Daniel Campelo dá a esta facção mais tradicionalista não calha bem com a sua prática política a nível concelhio em que o pragmatismo supera em muito as razões ideológicas, nem com a sua atitude no Parlamento.
Dando de barato que a atitude de Daniel Campelo ao assumir o lugar de deputado e ao viabilizar dois orçamentos de Estado não foi concertada, que a direita considerava o governo em queda, mas não suficientemente maduro (podre) para que vislumbrasse a hipótese de vencer novas eleições, poder-se-ia dizer que qualquer líder assumiria a mesma posição de Paulo Portas.
Ribeiro e Castro, em pleno uso do seu poder de liderança, seria mais duro, dado que, para essa direita, personalismo não é o mesmo que permissividade e indisciplina. Para um partido fortemente centralista, num tema tão importante não há lógica regional aceitável.
De qualquer modo não acredito que Daniel Campelo não tivesse em conta o interesse nacional. Poderia ter sido a inconveniência para a direita na queda, naquela altura, do executivo de Guterres que levou Daniel Campelo a não rejeitar dois orçamentos, mas com a infeliz desculpa de que eles iriam favorecer o Alto Minho, quando o que se imponha era justificar o mesmo acto com o interesse nacional.
Se na altura Daniel Campelo deixou a Paulo Portas a incumbência de defender o interesse nacional, agora, por mais razões que tivesse então, já não lhe vai ser possível assumi-lo e o bater da porta já não terá a repercussão doutros tempos.

07 março 2007

O papel dos ídolos na nossa vida

A idolatria tem uma técnica. E se quem a pratica é porque a conhece, quem se sujeita ao seu efeito nem sempre se apercebe de como ela nasce, se desenvolve e funciona. E devemos saber porque os ídolos nos fazem falta.
Toda a idolatria tem um começo por via emotiva e/ou intelectual. A emoção que uma figura nos possa causar se a emoção for nova e agradável ou se for semelhante à que experimentamos com outra figura já colocada no catálogo dos nossos ídolos pode vir a levá-la para lá também.
Há sempre nesta operação um processo intelectual, este de que não podemos abdicar. Se a nossa atitude se traduz por vergonha, aversão ou outro sentimento que nos faz alterar a primeira leitura, podemos vir a desistir daquela primeira intenção.
No caso de uma inibição de carácter social, ela pode não ter efeito prático e podemos ter que vir a conviver com ídolos socialmente aceites e com outros que, não o sendo, podemos ou não vir a conservar no secretismo.
Mas cada vez mais, quanto mais madura é a sociedade, menos surgem as ocasiões para nós nos emocionarmos e por essa via acrescentarmos algum ídolo à nossa galeria, que bem precisaria, desprovida que está de grandes motivos de interesse ou mesmo vazia que estará em algumas ocasiões.
Como criamos ídolos, também criamos anti-ídolos. À medida que o nosso tempo avança mais estamos sujeitos a que eles nos apareçam, mas em compensação vamos tendo mais experiência e, o que nem sempre é verdade, mais sabedoria.
Ídolos ou anti-ídolos, numa apreciação própria claro, só com o tempo vamos adquirindo capacidade para os criarmos por via estritamente intelectual. E o normal é que com o tempo também vamos sentindo um maior afastamento entre aqueles que constituem o catálogo e aqueles que, na nossa opinião renovada, mereciam efectivamente lá estar.
Há um efeito da desilusão que, mesmo não sendo suficiente para os remover, pode ser suficiente para os não acrescentar. É natural que com o tempo vamos dando cada vez menos importância a essa galeria de ídolos de que fomos descobrindo os pés de barro.
Mas pelo contrário, nós não só devemos ter orgulho nos nossos ídolos, como, além de não devermos ter anti-ídolos, nos devemos insurgir contra a pretensão de outros os criarem, principalmente se for à custa dos nossos ídolos.
Cada qual está no pleno direito de ter os seus ídolos. Cada qual pode também contestar os ídolos dos outros, mas diferente é torná-los seus anti-ídolos. Nas nossas tentativas de influenciar os outros nem só utilizamos elementos positivos. É claro que temos de abordar a consistência dos ídolos dos outros. Muita da luta política passa por este deita abaixo.
Estas lutas, por mais caricatas que nos possam parecer, continuam a ter um significado determinante na vida política. O que não quer dizer que viremos escravos dos ídolos. Podemos aceitar os seus erros até mesmo sem necessariamente dar razão aos outros, que provavelmente cometeriam estes e outros também.
Devemos deixar entrar a desilusão. Sem necessariamente contestarmos todos os dias os nossos ídolos, devemos aceitar com naturalidade a sua decadência, senão a falência. Acima de tudo porque também aprendemos procurando os motivos que levam a uma decadência mais rápida ou à falência de tantos ídolos.

05 março 2007

Somos pelo sítio e mais pelo voo

O que nos distingue dos lisboetas? Daqueles que estão num pedestal e dos outros, dos que, sem lá estarem, nos vêem com os olhos daqueles mesmos. Sim porque se ser “limiano” não passa de ter um qualificativo vulgar, banal, ser lisboeta já corresponde a elevar todos a um patamar de excelência, nem que seja só portuguesa. E todos querem ser lisboetas.
É assim como que o padrão que todos gostariam de ser, o modelo de que só se conhecem as partes pretensamente boas e para cujas partes más se não olha porque se acha terem suficiente compensação. É o espelho em que nos reconhecemos quando conquistamos grandes feitos, é o reflexo que apedrejamos quando nos vemos arrastados para a lama, para a miséria, para o ostracismo.
Sempre pensamos sair da nossa milenar subserviência se conseguirmos ver o País pelos olhos desses lisboetas. Mas só nos resta imaginar com a nossa desmedida soberba uns arranha-céus nas escarpas do Lima, transatlânticos nas águas da Ponte da Barca, grandes aviões no planalto do Mezio.
E era importante que nós realmente quiséssemos sair desta condição de submissos que por vezes até descamba para o servilismo. Deixamo-nos arrastar para o empastelamento emocional, sem capacidade para nos rebelarmos. Inibimo-nos de tomar atitudes frontais e ousamos comportamentos atrabiliários e em fogachos.
De nós esperar-se-ia que nos uníssemos para termos força. Dividimo-nos para ver quem mais depressa sobe ao mastro da romaria, que a visibilidade não chega para todos. Achamos importante aparecermos, quais cavaleiros solitários rodeados de escombros por todos os lados.
Os lisboetas estão unidos por natureza, a nós é a natureza que nos separa. Qualquer rio, qualquer ribeiro, qualquer monte mais agreste nos divide, são as nossas barreiras e, quando não as temos, inventamos novas fronteiras, pomos sebes e arame farpado.
O nosso pensamento é mesquinho, capelístico, alcoviteiro, conspirativo. O nosso universo está cheio de muros, é fragmentado, irregular. Se subimos para um lado, sabemos que descemos para o outro, não é este o nosso ideal. Queremos estar sempre com alguém que está lá em cima.
Escondemos de nós próprios que, se os poderosos não tiverem respeito pelos fracos, somos alvos do seu desdém. Mas também nos esquecemos que no geral a mediania se não consegue respeitar pelos que ainda são mais fracos. No entanto submetemo-nos a todos os poderosos e somos prepotentes para todos os humildes.
Definimo-nos pelo lugar que ocupamos na escala do poder, se poder se pode chamar a tão diminuto domínio da existência, agarramo-lo quanto podemos, erguemo-lo no ar quando achamos propícia a situação, até quando uma só pessoa nos ouve e vê. Aliás, é esse o lugar mais seguro para fazermos valer os nossos “direitos”.
Assim nunca mais conseguimos ver o País pelos olhos desses lisboetas. Não dos que lá viveram, dos que lá vivem ou viverão. Mas desses, dos ideais, dos que mesmo não sendo de gema, são a representação das nossas características mais genuínas.
Somos nós que neles votamos, que os elegemos preferencialmente de entre nós mesmos, que fornecemos a matéria-prima de que eles são feitos. A sua honradez não está na posição hierárquica, no sítio geográfico, mas na verticalidade que neste chão lusitano nós todos formos capazes de assumir.

04 março 2007

A indignação dos corcundas

A indignação, além de uma atitude legítima, fica bem, dá algum lustro às pessoas. Mas temos de ver que a indignação tem destinatários, e estes também têm o direito à indignação. A indignação também tem objectivos e estes se não justificam somente pela invocada independência de quem a manifesta.
Porque quem assume a defesa intelectual das razões que levam à indignação são sempre pessoas vinculadas a partidos, a visões próprias do mundo, a perspectivas particulares de vida e muito legitimamente defendem tudo isso, mas sem o direito de escamotear essas ligações, esses ressentimentos, esses ódios arreigados na sua alma impura.
Independentes, essa velha classificação dos “compagnons de routes” do Partido Comunista, homens capazes de ver as coisas de forma independente, não pode virar agora em classificativo asséptico, depois de o termos rejeitado quando provindo da esquerda, que quem o usa no presente tem o perfil dos homens de direita, que, como tal se deve assumir. Ver http://pontedelima.blogspot.com/2007/03/reflexo-de-fim-de-semana-o-centralismo.html
Mas como a indignação é um sentimento ténue, leve, suave, seria de esperar que os seus destinatários fossem acusados tão-somente de sentimentos do mesmo jaez, o que dando a volta a todo o argumentário dos contestantes nem sempre é o caso, os indignados lá vão atirando com a sua agressividade habitual.
Numa questão acordo: As concepções e leis dos burocratas, estejam no Porto em Lisboa ou nas associações que por aí proliferam, tratam-nos como números, mas tem uma coisa, se são honestos aplicam essa mesma bitola a todos. Não é a distância que alarga ou atrofia a sua bitola. Mas a distância continua a ser utilizada para nos desculparmos da nossa impotência.
A forma empírica, a olho, é que tem de dar lugar à forma parametrizada, à bitola, devidamente aferida, que tome em consideração factores que possa não comportar agora. Nós, por estarmos mais perto da realidade, podemos ir a ela buscar algum aspecto desprezado, acrescentar aí um toque Alto Minhoto, de sensibilidade telúrica, capaz de fazer alterar a lógica numérica pura.
Como força, nós podemos existir. Poderíamos mesmo admitir que se formasse uma força capaz de independência, capaz de se não “vergar em vassalagem ao poder e à lei dos burocratas”.
O problema é quem constituiria essa força? Mas como já não há virgens, como as marcas que ficaram do passado puseram esta região cheia de corcundas, não sei aonde se pode ir buscar a massa critica indispensável. Se soubesse …

O que está em causa em termos de segurança

O governo elaborou uma resolução, que é orientadora de uma reestruturação das forças de segurança. Segundo ela “A reforma é norteada por dois grandes objectivos.
Em primeiro lugar, pretende-se incrementar a acessibilidade e a proximidade das forças de segurança aos cidadãos, garantindo a sua presença nos locais onde são mais requeridas, reforçando a visibilidade e valorizando o seu potencial de prevenção e de combate à criminalidade.
Por outro lado, e não menos importante, visa-se, também, melhorar as condições de funcionamento das forças de segurança, reparando ou reinstalando as subunidades policiais degradadas e reforçando a sua capacidade de intervenção através de mais e melhores meios e equipamentos e do recurso sistemático a novas tecnologias de informação e comunicação.”
Se é natural pensar que estes objectivos venham a ser atingidos a nível nacional, mais problemático é se em Ponte de Lima essas condições melhorarão. Se com esta resolução “Assim, determina-se:
a) A não realização, em 2008 e 2009, de concursos para novas admissões de praças e agentes na GNR e na PSP;
b) A abertura de procedimentos para a colocação de funcionários civis da administração pública na GNR e na PSP, em número de pelo menos 1800.”
Cremos que o reaproveitamento de efectivos com a sua libertação para a actividade operacional em Ponte de Lima não será de molde a melhorar a sua eficácia. Só uma formação intensiva e adequada dos meios humanos permitiria contribuir para isso.
Mesmo que a nível nacional e “Tendo em conta que em 2007 e 2008 há um total de cerca de 2500 militares da GNR e pessoal com funções policiais da PSP que adquirem as condições de passagem à reserva e pré-aposentação, verifica-se que os 6600 efectivos libertados por aquelas duas vias permitem compensar as saídas de dois anos e ainda um aumento em cerca de 4100 efectivos do pessoal militar ou policial afecto a funções operacionais.”
Se estes números são plausíveis e cremos serem a nível nacional, proporcionalmente não me parecem ser possíveis em Ponte de Lima além de se não se conseguir a sua melhoria sem uma transferência para cá de efectivos mais jovens, mais preparados e não só em fim de carreira, além dos meios atinentes às tecnologias de informação e comunicação.

03 março 2007

O que está em causa neste vaivém P.S.P/G.N.R.

O governo elaborou uma resolução que tem em vista fazer várias alterações em relação às forças de segurança e em particular à reformulação da sua distribuição territorial.
Conforme a resolução “pretende-se incrementar a acessibilidade e a proximidade das forças de segurança aos cidadãos, garantindo a sua presença nos locais onde são mais requeridas, reforçando a visibilidade e valorizando o seu potencial de prevenção e de combate à criminalidade.”
O governo entendeu justificar-se esta alteração porque “Tendo em conta a natureza de ambas as forças como polícias integrais de âmbito nacional e os custos institucionais, financeiros e pessoais das deslocalizações, a redistribuição de áreas de responsabilidade é limitada aos casos em que tal se afigura absolutamente essencial para a racionalização das forças.”
É assim uma alteração minimalista que não responde a todas as necessidades detectadas e que é necessário em tempo oportuno reactualizar.
Os pressupostos que dão cabimento às alterações que nos afectam são conforme o articulado da resolução a “Eliminação das situações de sobreposição de meios entre as duas forças ou de descontinuidade, em especial no respectivo dispositivo territorial.”
Tem-se em vista assim “Limitar as Freguesias partilhadas entre as duas forças de segurança àquelas em que elementos naturais, vias de comunicação ou a própria descontinuidade das Freguesias aconselham tal partilha.”
Foi entendido que a partilha das freguesias de Arcoselo, Feitosa e Ribeira (entregues à G.N.R) e Arca (entregue à P.S.P.) se não justificava por não haver elementos que as dividam na sua extensão.
Este princípio é perfeitamente aceitável mas parece-me que a diminuição da área de intervenção da P.S.P. poderá ser o princípio do seu fim. Pena é que, sendo a barreira constituída pelo rio impeditiva do patrulhamento da parte de Além da Ponte (historicamente ligada à Vila) se não traga o comando da G.N.R. para a margem direita do Lima.Reconheça-se que se fora assim não se responderia à contenção de custos e iríamos para o despesismo inaceitável. Visite http://reformassi.mai-gov.info/wp-content/uploads/meai_rcm_forcas-seguranca_20070314_final-_2_.pdf

A que fidelidade devem os autarcas obediência?

(continuação)
Os autarcas ficam por vezes entre dois fogos: a população que reclama algo e o governo que pretende o inverso. Os eleitos em lista independente são-no na realidade e só devem obrigação às suas ideias. Já a eleição em listas partidárias impõe a fidelidade a certos princípios comuns ao grupo político.
A existência de partidos políticos e a sua participação nos órgãos autárquicos não podem ser vistas só como a possibilidade de alavancar alguns pretendentes a esses cargos de poder, mas como a forma de partilhar princípios com pessoas de dentro e fora da sua autarquia e com participantes em órgãos de poder de âmbito mais amplo, de tipo associativo ou não.
O problema põe-se quando, na perspectiva do autarca, os princípios por si aceites, que na postura socialista partem sempre de uma solidariedade tão vasta quanto possível, não resistem à ocasional contradição entre os dois lados daquela balança. É vulgar acontecer que muitos eleitos, passada a fase eleitoral, entram em roda livre e se estão marimbando para os princípios que terão presidido à sua eleição.
Mas mesmo postos de lado princípios, existe sempre uma solidariedade prática que nos é imposta pela lealdade que devemos ter para com aqueles que partilham interesses semelhantes, representados em associações de participação comum. Mas às vezes até para esta lealdade se marimbam.
A perspectiva partidária, que é mais importante quando coincide com a representada pelo governo, pode não ser correcta e neste caso é legítimo ao autarca desvincular-se das suas obrigações partidárias. Mas os autarcas, colocados no seu lugar à base da defesa de uma dada perspectiva partidária, não podem actuar injustificadamente e sem aplicar a solidariedade partidária.
Cabe aos autarcas contribuir para, no trabalho partidário, se chegar à formulação de uma vontade colectiva que possa ser um cimento solidário a apresentar às populações e no trabalho autárquico conciliar os interesses, mesmo não aferidos, da população que representam com aquelas orientações partidárias de que devem fazer parte e aceitar solidariamente.
Necessariamente que muitas vezes podem estar em causa objectivos melhor analisados numa perspectiva mais genérica, mais regional ou nacional, mais solidária, que ultrapasse a perspectiva imediata da população e aí se pode fazer a prova da qualidade de um autarca, não demagogo e exibicionista. O bom autarca não é aquele que cavalga a primeira contestacão, é aquele que abre perspectivas inovadoras.
Veja-se como Daniel Campelo, ao cavalgar a contestação ao fecho da fábrica da Lacto-Lima, nada conseguiu e afugentou os empresários de Ponte de Lima.
(continua)

02 março 2007

Como os liberais nos deitaram borda fora?

(Continuação)
Pensar em grande não se coaduna com as condições existentes no Alto Minho e a ilusão dos subsídios comunitários para a agricultura esvaiu-se nas suas terras sem ter contribuído para outra coisa que não para ir mantendo um consumo e o absurdo aparelho do Ministério da Agricultura. Ao ponto de muita gente de Lisboa ser paga pelos subsídios aqui destinados.
Hoje estamos na situação de excluídos que até o vinho já vai sendo retirado dos cardápios dos restaurantes, dado o seu carácter único e rapidamente perecível mas também pela agressividade dos concorrentes e pelo desinteresse dos senhores que dominam as novas redes de consumo. E hoje o Estado demite-se de interferir no domínio da concorrência.
Nós que por hábito apelamos ao Estado para tudo e responsabilizamos o Estado por dá cá aquela palha, não temos o discernimento para exigir na altura própria, antes de tudo ser irreversível. Depois queremos que o Estado apareça a curar as feridas em todo o lado, com braços para todos os problemas.
Antecipar os problemas é hoje a única forma de os resolver, que nós estamos sempre à espera que eles não assumam uma expressão dramática. Por isso nós exigimos que o governo intervenha naquilo que já é sua responsabilidade directa, o serviço nacional de saúde.
É necessário criar, manter, melhorar redes de cuidados primários, paliativos, de urgência e de emergência, estruturadas conforme as características próprias de cada uma, antes que as existentes se degradem significativamente e tendo em conta que estas foram feitas a partir de dados empíricos e subjectivos.
Ao Governo é pedido agora que use os dados que a ciência permite colher, os instrumentos de planeamento que tem ao dispor, a sensibilidade para adequar o remédio ao doente. Nem os factores concorrenciais são aqui tidos em conta, nem a rígida racionalidade económica, mas sim a solidariedade.
Os serviços do Estado serão sempre necessários, que a iniciativa privada nunca estará interessada em cobrir todo o território nacional. Assim a rede de cuidados de saúde não pode ser reduzida, como o foi a rede de recolha de leite à qual só interessam os pontos que dão lucro.
Mas também não pode ser expandida à sua antiga dimensão que a falta de qualidade não pode atingir os aspectos caricatos dos postos de saúde com um só médico e das ditas urgências que fazem menos serviços que faziam as farmácias de outros tempos.E isto que é necessário ter em conta, além das pessoas necessariamente, que neste ermo precisam da solidariedade de todos.
(Continua)

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

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"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

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