31 dezembro 2007

Referendo – A inexcedível superficialidade de alguns

Parece que sete intervenções neste Blog entre 23 de Outubro e 4 de Novembro não foram suficientes para tornar clara a minha posição sobre o Referendo aos tratados europeus. Não quero fazer deste Blog um desfilar de vómitos, não tenho a pretensão de elaborar um tratado que analise a questão até à exaustão, não entro na agenda política de gente desesperada, não respondo a questão insignificantes para mim, mas vou fazer uma excepção para NunoMatos..
Defendo que a questão do referendo nunca se devia ter colocado e quem a colocou deve responder por ela. Não me venha cá dizer que o Sócrates, o P.S.D. e outros vão mudar de opinião. Isso é com eles.
Um referendo tem virtualidades em termos simbólicos, mas tinha que ser feito na altura própria, nos momentos decisivos, quando se tomam atitudes que podem ser irreversíveis. E já lá vão tantos anos. Hoje só seria defensável um referendo radical (31/10/2007).
A tacanhez nacional vinda do passado, e de que o Senhor ainda se não livrou, leva-o a defender um referendo em que se discutiriam uns tostões para cá, uns tostões para lá e se abriria um precedente perigoso, só importante para a esquerda comunista e bloquista sempre prontos a deitar uns grãos de areia para a engrenagem, ou para os preciosistas da direita que querem discutir todas as pequenas percas de soberania, que as grandes já lá vão.
Infelizmente os sociais-democratas só aprendem o que de mal se faz na política em Portugal. No seu afã de fazer oposição servem-se de todas as armas com que os tramam quando estão no poder. Como se pretende moderno, actualizado, gosta de estar presente, convença-se que não o consegue por ser franco-atirador.
Se a luz o não ilumina tanto pior para si. É que a fonte de luz deixou crescer à sua volta muitas teias de aranha. Pode-lhe parecer ser pobre e do passado mas decerto que tem ideias próprias, é perseverante, cansa-se destes rodeios, mas não se vai cansar de lançar luz para o futuro.

30 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Um olhar para além do dia a dia

Para quem só vive o dia-a-dia das vantagens/desvantagens, do deve/haver, a Comunidade Europeia é só mais um patamar das preocupações/oportunidades que se nos deparam. O que não são oportunidades, se não são prejuízo, são pelo menos uma preocupação desnecessária. São esses que dizem que estávamos bem sós.
Este discurso simples e redutor é o adoptado pelas forças políticas que não vêm vantagens imediatas em nos chamar a atenção para todo o tipo de responsabilidades que nós temos no mundo. Rendem-se à facilidade que consiste em termos uma ideia generosa sobre nós próprios e em atribuirmos todos os males do mundo a forças que não têm cá raízes, o que é falso.
Sócrates apareceu nesta Presidência da Comunidade aqui e ali, mas para os mais insolentes tudo passa por querer aparecer, por folclore político quando é bem mais do que isso, quando o nosso futuro também se joga aí. Quando Kadaffi exige indemnizações pelo colonialismo não está brincar, nem se dirige só à Itália, também se dirige a nós.
De qualquer modo é problemático estarmos com o passado presente quando ponderamos na nossa perspectiva a conveniência das medidas que são tomadas a nível comunitário. Nem o nosso passado nem o da Comunidade que não conhecemos ou não aceitamos como nosso. Mas ao menos olhemos para o futuro e vejamos quando perigoso é andarmos isolados neste mundo.
Há muitas medidas que podemos entender não serem apropriadas numa perspectiva puramente nacional e de presente, mas sê-lo-ão num perspectiva internacional e de futuro. Um futuro em que já não há paraísos de leste ou até Oestes americanos. O Oeste Europeu agora está aqui. Não é o fim do mundo conhecido, mas é decerto o fim de um projecto único e de paz.

29 dezembro 2007

Intervalo – Um esticar exagerado da corda

Filipe Meneses, mais do que outros políticos de referência na nossa praça, vai tentando dar corpo a uma oposição a toda a largura do campo teórico de batalha e balança continuamente entre uma visão macro, a nível de super-estrutura e uma visão micro, a nível de infra-estrutura que os seus ideólogos não conseguiram tornar coerentes. No mesmo erro não caem outros.
A verdade é que a imprensa aborda as questões sobre os dois prismas, mas político precavido, avisado, como os comunistas e bloquistas, procura suavizar as incoerências em que necessariamente entra se os quiser usar e a todas as armas que eles permitem para desarmar a oposição ou fazer fogo sobre o governo.
Todos os discursos políticos, do governo ou da oposição, enformam do mal de alguma incongruência e, como tal, a imprensa até se não costuma dar ao trabalho de falar delas, a não ser que sejam gritantes ou que esteja em moda bater no ceguinho. Há sempre algum grau de tolerância.
E todos os políticos de hoje se socorrem muito desta inclinação para a moda que é o bater no governo, tratando-o como ceguinho, com o argumento que nada na sua actuação é coerente. Fazem-no desde logo, desde a sua tomada de posse, até antes. Procuram criar um estado de saturação, mantendo sempre a mesma postura, legislatura após legislatura.
Mas desta vez apareceu-lhes José Sócrates criando um estilo novo, uma outra forma de responsabilizar a oposição, um aproveitamento do maneio de ancas que a oposição faz para lhes dar umas vergastadas naquilo que eles, afinal como os outros, também têm atrás das costas. Sócrates criou um sentimento novo que afinal também pode ser moda bater na oposição.
Filipe Meneses põe-se especialmente a jeito, exagerando na tolerância que lhe tem sido dada, esticando a corda para num dia estar a desmantelar o Estado e no outro estar o dar benesses do Orçamento de Estado a propósito de todas as reivindicações que se manifestam. Ao querer usar armamento pesado e metralha ligeira com tanta ligeireza está a criar um balanço tal que se arrisca a cair. Modere-se!

28 dezembro 2007

O Oeste Europeu – O Turismo e o desenvolvimento não sustentado

Portugal, os empresários, o governo, não sabemos bem quem com mais empenho se mostra, têm apostado no turismo com estímulos, empreendimentos, apoios. É um sector altamente produtivo, mas não o é de igual modo para todos. Poderá o País desequilibrar o desenvolvimento e colocar-se em tão grande dependência dum só ramo de negócio?
O turismo, mesmo dado o seu carácter predominantemente sazonal, é muito lucrativo, dado o que está basicamente em jogo: Estadias e serviços de alguma simplicidade. Mas, quanto maior for o sector, mais problemas surgirão se houver uma crise prolongada e mais reflexos terão na restante economia. O turismo não promove qualquer espécie de desenvolvimento sustentado.
Uma vantagem imediata dos empresários é a facilidade de recrutamento de pessoal, mas que constitui um claro prejuízo para os empregados e para o governo. Os empresários não precisam de manter um grande número de trabalhadores efectivos e tem sempre à mão uma grande quantidade de pessoal disponível que se mantém fiel à actividade.
Nos períodos de desemprego a segurança social é que suporta os encargos respectivos e isso passa-se em média durante seis meses no ano. Para além disso a maioria não chega a contribuir com IRS. O subsídio de desemprego não é englobado nos rendimentos e estes assumem assim valores anuais baixos e taxas de IRS reduzidas.
Além do mais, a ver pela reacção da Confederação de Turismo à fixação do salário mínimo, parece que o aumento deste os afectará porque ainda é largamente aplicado no sector. Não é o turismo que nos trará altos salários, a não ser para alguns cargos de gestão. Além disso o turismo será uma das actividades que mais permite a subfacturação e mais sujeita a concorrência.
Uma crise generalizada afectará mais rapidamente e com efeitos mais graves o turismo do que outra actividade. Sendo localizado pode criar o desemprego geral numa dada zona do País. Nunca pode ser a primeira aposta do País.

27 dezembro 2007

O Oeste Europeu – A oportunidade dos ressabiados

O Portugal profundo, que ainda subsiste em quase todos nós, personificado na alma lusitana, faz com que nos sintamos deslocados e atrasados na Europa, sem muitas oportunidades para progredir.
Meticulosamente uma intelectualidade que faz jus ao seu direito à mesquinhez e ao egocentrismo bate num lado e noutro lado, em nós e na Europa, para realçar o que diz ver, sem outras soluções que as que a sua imaginação desligada da realidade vai gerando.
Acarinha-se ou vilipendia-se essa alma ao sabor, já não digo de interesses, mas de visões limitadas e até esquizofrénicas que muita gente transporta, como que se tal fosse a última descoberta da sua mente. Aquilo que aparece da alma lusitana é, para todos os efeitos e para nossa desgraça, aquilo que os intelectuais tecem e dizem e o que eles dizem é pouco.
Há uma grande parte da população que gosta de contribuir com o seu entusiasmo de aparecer, de ser reconhecido com fazendo parte de um todo. Na realidade eles representam a face mais real desse todo, mas que é a mais caricaturada, da maneira mais reles e injusta, como pelo Zé Povinho.
São caricaturas introvertidas que falam de uma realidade passageira mas que alguém pretendeu eternizar. Até através delas não se faz uma actualização, uma modernização, uma adaptação aos novos tempos e a novos relacionamentos. Continuamos fechados, desconfiados num mundo estreito.
A Europa não tem constituído a ambicionada oportunidade para os ressabiados se redimirem, mas antes para se sentirem mais injustiçados, mais vitimados, mas em compensação mais prenhes de satisfação por mais uma justificação para o seu próprio fracasso. A Europa é magnânima.

26 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Um ensimesmamento fatalista

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia partiram duma base sólida, não económica, mas sabiam que tinham potencialidades, que se canalizassem as energias e os conhecimentos que haviam tão mal aplicado na sua destruição mútua para um sentido de colaboração e progresso, construiriam uma fortaleza em que a justiça e os direitos sociais poderiam ter uma outra expressão.
Tinham razões para acreditar, razões que, por esses tempos, os portugueses no geral desconheciam, no seu atavismo ancestral. Noutras gerações anteriores tínhamos sido capazes de alguns rasgos sempre que alguém ia lá fora com olhos para ver e trazia alguma refrescadela ao nosso panorama de ideias, imagens e valores.
Mas quanto a aplicação prática nunca atingimos o ponto crítico porque uma árvore não faz a floresta. Nesta altura, já nos anos cinquenta, quem teve o rasgo foi Humberto Delgado, talvez porque era um homem da aeronáutica militar e civil e estivera na América. O mal foi ter-se agarrado a ramos decrépitos que se partiram facilmente e o deixaram cair desamparado.
O nosso atraso manteve-se, ultrapassou a guerra colonial, as forças económicas menos exigentes criaram algum desenvolvimento, sem necessidade de grandes investimentos no ensino. Veiga Simão tentou em dois regimes diferentes, mas continuamos com aquela falta de potencial em quantidade para fazer coisas grandes.
Periodicamente é isto que acontece: Chama-se a atenção para a nossa falta de formação, tenta-se avançar, mas parece faltar-nos a vontade, tudo são dificuldades, escolhos. Nem as novas oportunidades entusiasmam um povo que parece definitivamente ensimesmado. À espera talvez que o Filipe Meneses seja o salvador.

25 dezembro 2007

Intervalo – A diferença entre o estudo e a esperteza

José Sócrates herdou um processo em andamento, o da Ota. Alcochete nunca se havia colocado como opção porque desempenhava no seio do exército, e não só português, um papel na altura considerado insubstituível. Também neste campo as coisas mudam e a questão está em saber se foi ou não a tempo e quem deveria ter tido conhecimento a tempo dessa mudança.
A horas ou fora de horas, mas na minha opinião de certo que ainda a tempo de, caso a opção seja outra, sarar as feridas que uma mudança de opção acarreta. Neste aspecto não duvidemos que o Oeste vai sair gravemente prejudicado e em Alcochete não há vozes para pôr a questão nestes termos. A economia local não tem para já relevância, nem expectativas.
Mas entregou-se ao L.N.E.C. a feitura de um estudo sobre todos os aspectos importantes para avaliar a questão, na altura resultado de um consenso alargado que até incluiu o P.R.. No entanto há sempre quem tenha segundas intenções, ideias feitas e queira fazer o seu jogo à margem dos acordos estabelecidos. Este caso é todavia peculiar.
Lembram-se daquelas crianças espertinhas que, tendo tomado a opção errada e, vendo o erro porque olharam para o vizinho, logo se aprestam a mudar de opinião e a serem as primeiras a gritar pelo triunfo da opção certa, antes que o vizinho ou o próprio professor a anunciem.
Filipe Meneses já não esperou pelas conclusões do LNEC para botar sentença. Como a criança vai dizer depois: Quem tinha razão era EU! Para receber ainda alguns dividendos se esquecermos a opção inicial de Meneses, diferente da defendida por Marques Mendes. Tem direito a mudar mas não a fazer estes malabarismos de menino que não enjeita alterar as regras, não precisa de estudos sérios, chega-lhe ser o menino esperto.

Intervalo – Dividamos os tachos!

Este Filipão surpreende-nos todos os dias. Se lhe quiséssemos seguir os passos tínhamos sempre para registar umas afirmações caricatas, umas sentenças contraditórias, uns humores antagónicos. No entanto é perder tempo, é como ver o mesmo filme pela vigésima vez.
Filipão acusa o P.S. de interferências na gestão do B.C.P., sabendo nós que os órgãos de regulação e fiscalização tardaram a actuar, agiram fora de tempo. Ao menos parece que intervieram bem, de tal modo que os accionistas terão agradecido por se verem enfim livres de um bando de crápulas que aproveitaram a sua posição para enriquecer indevidamente e mostrar quanta baixeza moral prolifera em organizações como a Opus Dei.
Concordo que o pior que poderia acontecer para o B.C.P. era passar a ser dominado pela Maçonaria, por exemplo. Mas agora os accionistas, e só estes, têm uma ocasião única para porem na administração do seu banco as pessoas mais competentes, mais leais e honestas que encontrem.
Não é correcto, é perfeitamente inadequado falar em equilíbrios políticos quando estão em jogo forças económicas, entre as quais e a política transita inevitavelmente muita gente, mas que quando lá está, e ninguém os pode proibir de lá estar, deve defender os seus interesses e quando na política se deve tornar deles independente.
Querer utilizar a C.G.D. como moeda de troca, exigir a atribuição do seu poder a um homem de mão do P.S.D. é a mais vergonhosa, despudorada maneira de favorecer o bloco central de interesses, é a divisão da gamela pelos mesmos taxistas de sempre. Tenha vergonha!

24 dezembro 2007

Intervalo – Desmantelemos o peso do Estado!... É já!

Desmantelemos o peso do Estado? É já! Por onde vamos começar?
Primeiro é melhor ver que mesmo que transferidos para o sector privado, muitos serviços não podem deixar de ser financiados pelo erário público, pelos nossos impostos existentes ou pelas tarifas, pelas taxas moderadores, chamem-lhe lá como quiserem, que pagamos. Para quem não quer decerto¿ que paguemos mais, a preocupação deveria ser outra.
Para haver um serviço tem que haver pessoal, instalações, equipamentos, organização e quem pague, decerto porque precisa dele. Se as pessoas não precisam, e o Estado também não, extinga-se o serviço, mas era bom não generalizar. No Estado há serviços essenciais e outros que nem tanto, é certo, mas que não podem ser abandonados duma hora para a outra.
Uma forma de entregar a gestão mas não o financiamento é contratualizar serviços que tenham que continuar a existir. Mas o que é que o Estado ganha em troca, a não ser em vez de se responsabilizar pela gestão passar a responsabilizar-se pela regulação e fiscalização?
Se as pessoas não pagarem mais, o Estado pagar menos e os serviços ganharem em qualidade é aceitável ou até recomendável, na perspectiva do Estado, que se mudasse a responsabilidade do serviço. Desde que se encontre uma solução para os empregados, encargo que não é alienável.
Experiências já houveram bastantes, mas nem sempre as conclusões têm sido favoráveis a esta solução. Que um candidato a primeiro diga que tudo fará para que o melhor serviço seja prestado ao menor preço para o Estado e directa ou indirectamente para o contribuinte é de louvar. Mas após estudos e soluções apropriadas.
Arremessar bombas a um edifício que bem, ou menos bem, tem prestado os serviços que, na maior parte dos casos, os privados nunca quiseram ou nunca tiveram condições financeiras para prestar é abominável. Com os privados, liderados por este liberal aventureiro, ávidos por avançar, os seus interesses sobrepõem-se desavergonhadamente à consideração dos interesses da população, dos empregados e do Estado.

23 dezembro 2007

O Oeste Europeu – O nosso lugar é aqui na Europa

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia pensarem em vir a agregar mercados para agregar países. Por isso o nome primordial da Comunidade Europeia foi de Mercado Comum Europeu, o que estava longe de dar a ideia das intenções que lhe eram subjacentes e só revelavam o primeiro objectivo a atingir.
Diversos pensadores, ideólogos e políticos de todos os países europeus mais envolvidos nos conflitos fratricidas que se desenrolaram no século vinte desenvolveram um plano que partindo da miséria e quase humilhação a que as suas pátrias haviam sido submetidas assentava nos mais sublimes ideais alguma vez postos em prática na Europa, onde a retórica tinha suplantado sempre a eficácia das ideias.
Em Portugal sempre ouve alguns europeístas mas a sua voz estava abafada pela cultura isolacionista promovida por Salazar e a que também não faltava a retórica. Reconhecer-se-á que houve uma fase em que, só pelo facto de se não repetir o desastre da primeira guerra mundial, teve o apoio incondicional do povo. A guerra colonial haveria de reforçar o isolamento e a imigração para França não chegou a contribuir para trazer novas ideias.
Após o 25 de Abril foram as necessidades mais imediatas que mais se fizeram ouvir e que condicionaram a discussão de qualquer posição de fundo. A retórica nunca teve tanta preponderância mas a discussão não saía dos velhos temas do socialismo, do comunismo, de vários tipos de democracias vistos por quem, apressadamente, tinha lido cartilhas até aí estranhas.
Colocada um pouco de água na fervura que uns meses de agitação criaram, sem meios, num processo de reposicionamento no mundo livre, batemos à porta da Europa e tivemos o seu apoio e compreensão. O nosso lugar é na Europa, nesta rocha de princípios cada vez mais firmes, nesta Comunidade que, sendo imperfeita, ambiciona melhorar constantemente.

22 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Uns ingratos é o que nós somos

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia pensarem em vir a agregar à sua volta outros Estados, mesmo que tivessem níveis de desenvolvimento mais fracos. As negociações para a adesão sempre foram um estudo de como se iria processar a integração de um país novo numa orgânica que já tinha uma certa credibilidade e estabilidade.
Cada país tem o seu passado, os seus hábitos e tem dificuldades próprias para se adaptar a novos métodos, alguns dos quais tiveram origem em países de muito diferente tradição. A própria maneira como cada país vê o seu papel em relação à economia é diferente. Mas o intervencionismo é sempre visto como negativo quando não respeita as regras da concorrência.
A nossa herança foi fraca em termos absolutos mas também em questões metodológicas, dada a nossa tradicional desenrascanço, uma fuga desordenada a tudo que é norma e regulamento. E quando enveredamos pela disciplina é com tanto rigor que quase ficamos manietados. Deixamo-nos mover facilmente entre extremos.
Além do mais a nossa escolaridade para pouco nos dava, quase nem para escrever aerogramas às madrinhas de guerra, o nosso know-how era mais do que deficitário, quase nada sabíamos fazer além de sachar a terra e assentar tijolo. Com uma economia tão incipiente e tão fracos índices em todos os domínios pessoais quase é de perguntar: Para que nos quiseram?
No entanto não tivemos que pagar qualquer jóia à entrada na Comunidade. Aceitaram-nos tal qual somos com todos os problemas conjunturais que fomos acumulando. Tínhamos vivido um período de permanente ebulição, de instabilidade, dita revolução em curso, de regresso dos militares, de integração de retornados das ex-colónias.
Passamos de um império anquilosado a uma república incipiente. Por sorte ficamos à mercê destes “hoje” bem intencionados europeus que tiveram pena de nós, nos encheram de oxigénio, e nós, ansiosos no interior, tornamo-nos quase insuportáveis (pelo menos de paleio, mas ninguém nos ouve) no exterior. Ainda nos tornamos, mercê das nossas dificuldades, mais reivindicativos por aquilo que alguma vez merecemos ter.

21 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Heróis perdidos e sempre reencontrados

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia procuraram um caminho diferente de tudo o que havia sido experimentado no passado e não tinha resultado. Por isso assumiram todo esse terrível passado, todas as culpas dos seus aspectos miseráveis e tentaram aproveitar todos os ensinamentos que ele pudesse conter.
Nada podia ser posto de lado, como se tivesse havido fenómenos da responsabilidade de extra-terrestres ou outro género de seres esporádicos que não terão hipóteses de se repetir. Por isso era necessário submeter a aturado estudo esses fenómenos que nos envergonham de modo a ir ao encontro das suas razões mais profundas.
Mas era imprescindível avançar de imediato e por um caminho difícil e com muitos adversários externos, e isso só era possível com os países que mais tinham sofrido, mais sensibilizados estavam para unir esforços, para não hostilizar ninguém, para compreender aqueles que ficaram temporariamente de fora, mas que se tinha por objectivo virem a ingressar nas mesmas fileiras.
Como eles, também nós não podemos pôr de lado o nosso passado, aquilo de tenebroso de que fomos capazes, aquilo de heróico de que nos honramos, aquilo de mesquinho de que ainda padecemos. Não somos marginais a quem foi dada a oportunidade de se redimirem. Tendo sido algumas vezes heróis, perdemo-nos constantemente para nos reencontrarmos mais tarde, mais fracos mas prontos a surpreendermos todos.
Temos de deixar de pensar que teremos sempre sorte, que temos que mudar de rumo e dedicarmo-nos efectivamente a um trabalho duro e persistente para competirmos com os mais fortes. Se a Europa nunca nos desprezou é altura de sermos gratos com tudo aquilo que ela nos tem dado.

20 dezembro 2007

O Oeste Europeu – A dimensão e a localização como des/vantagem

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia pensarem em criar um espaço que proporcionasse trabalho e não pusesse os trabalhadores dum Estado contra os trabalhadores de outro. As possibilidades de cada um se desenvolver seriam idênticas porque deixavam de existir barreiras no acesso aos bens essenciais determinantes para esse fim.
Cada Estado tem os seus problemas internos, a sua estrutura social, os seus conflitos entre empregadores e empregados, a sua maneira de abordar as questões sociais e isso só lentamente pode mudar. O que logo mudou, porque remetido para o baú da história, foram as invejas entre Estados, as conflitualidades violentas, as guerras de rapina à moda antiga.
Esta forma de organização não corrige porém um problema que só surgiu depois de a Comunidade ter assumido uma dimensão muito superior à original. A divisão internacional do trabalho, que foi feita entre os seis países iniciais com base num princípio de complementaridade e sem grandes atropelos, impõe agora uma outra lógica, dependente em muito da pouca intervenção da generalidade dos Estados na economia.
Não é mais possível pensar em certas influências que, mesmo sem economia estatizada, os governos iam exercendo para suavizar a competição e para levar mesmo à tal complementaridade. Quantos mais Estados pertencerem à Comunidade mais difícil se torna não deixar entregue às forças brutas da economia a divisão internacional do trabalho.
Só o conhecimento de quais são ou virão a ser os sectores económicos mais determinantes no desenvolvimento poderá permitir-nos concluir se a nossa dimensão e a nossa localização só por si, sem a consideração de outros factores negativos, que também os há, não formarão uma forte desvantagem para nós.

19 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Uns agricultores nem ouvidos nem achados

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia pensarem em criar um espaço de paz e liberdade. E foi tal o seu sucesso que logo outros países quiseram aderir, mesmo colocando sérias reservas a algumas políticas comuns, de que o caso mais saliente é a politica agrícola.
A política de garantir um abastecimento sem problemas das cidades industriais e de serviços, daqueles que se dedicam a outros ramos de actividade essenciais para o desenvolvimento de todos, levou a que se atingisse uma produção excedentária, que a Comunidade optou por pagar, mesmo sem utilidade ou mantendo as terras em pousio.
Houve muitos países que nunca aceitaram este estado de coisas optando por, não conseguindo impor os seus pontos de vista, obter outras compensações. Portugal entrou na Comunidade sabendo que estava a condenar quase toda a agricultura que ainda se fazia e a obrigar a mudar de vida uma parte significativa da sua população. Como esta parte era a mais iletrada, mais crente e levou uns tostões anestesiantes a mudança foi-se processando sem grandes sobressaltos.
Se as coisas tivessem sido ditas com clareza, teria havido nos meios agrícolas não euforia mas desassossego. Todos se esqueceram da dimensão das nossas explorações agrícolas. Deliberadamente porque falar em reestruturação fundiária sempre foi um tema incómodo e repudiado. Os nossos agricultores ficaram com certeza mais satisfeitos em caírem mas de pé.
A reconversão fez-se sem plano, sem preparação. Imensas pessoas foram trabalhar nas confecções, no calçado, na construção civil. Permaneceram no mesmo ponto da escala social, não houve progressão alguma. Toda a economia haveria de sofrer com a baixa habilitação desta remessa de mão-de-obra.

18 dezembro 2007

O Oeste Europeu – A defesa dos valores europeus

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia pensarem em se defenderem e aos seus vizinhos da barbárie. Não foi sua ideia construir um império, dominar o mundo. Para sermos justos temos que reconhecer este facto, independentemente de reconhecermos ou não iguais ideais e objectivos às potências dominantes no mundo, como os E.U.A., a China, a Rússia, a Índia, ou ao mundo islâmico.
Não concebo que se qualifique alguém como um homem culto, se não defender os princípios básicos que presidiram à criação da Comunidade Europeia, independentemente de outros princípios mais genéricos ou mais particulares que se enquadrem com estes. Os desvios ocorridos, as alianças espúrias podem e devem ser analisados enquanto deficiências de funcionamento deste Europa ainda dependente de forças de base exterior.
A luta para que os outros blocos políticos partilhem os mesmos valores e consigam conviver e serem solidários na busca de um desenvolvimento mais equilibrado, deve ser também a nossa luta. Isto porque, caso não ocorram progressos neste domínio, só podemos ter um papel mais determinante no contexto internacional se investirmos na nossa defesa, que o mesmo é dizer na criação de um exército europeu e no desenvolvimento do armamento.
O falhanço reconhecido de Barroso, que tão mal representou o espírito europeu e que foi o representante da ala mais integralista, mais temerosa do “mal” islâmico, mais manipulada pela direita americana, deve-nos fazer pensar em corrigirmos de vez o nosso posicionamento subserviente e seguidor em relação ao velho, e por vezes nefasto, aliado inglês e deve pôr a Europa de sobreaviso para com o farisaísmo inglês.

17 dezembro 2007

O Oeste Europeu – O nosso ritmo de desenvolvimento

Quando seis países se juntaram para formar a Comunidade Europeia fizeram-no por razões bem diferentes das que hoje levam às novas adesões. Os sábios da época constataram que as diferenças de condições de vida dos diferentes povos europeus sempre foram utilizadas por reis e republicanos, políticos sem escrúpulos, para os pôr em guerra.
A única forma de obstar ao recurso à satisfação dos instintos mais primários do homem, concluiu-se, foi caminhar no sentido da criação de condições de vida semelhantes, do acesso em igualdade aos bens naturais, da criação de mercados únicos e sem protecção unilateral. Só assim se obstaria ao aparecimento de políticos demagógicos e, no extremo, loucos, como os que no passado haviam posto a Europa a ferro e fogo.
No geral não são estes novos Estados aderentes que poderiam lançar uma guerra como as do passado, a não ser umas guerrilhas entre eles, mas que, como se vê nos Balcãs, não são menos brutais e animalescas. Se porém a Comunidade entendesse fechar-se dentro das fronteiras dos Estado aderentes podê-lo-ia ter feito.
Diferente é o entendimento estabelecido desde que se resolveu orientar a política europeia para a criação de uma largo espaço de cooperação e solidariedade. A Europa é para todos os europeus e até para os que querem prosseguir objectivos idênticos pelo que a ninguém deve ser negado o direito de adesão, associação ou a outra forma de colaboração.
É porém perfeitamente estúpido, de atrasados mentais, mentecaptos e de chulos querer que nos ponham de uma hora para a outra aos pés dos mais ricos. Com que diabo de direito? Com que base económica? A única garantia que nos pode ser dada é que devemos exigir a igualdade competitiva, baseada em primeiro lugar na igualdade de oportunidades, para que vão melhorando, ao ritmo a que formos capazes, as nossas condições de vida.

16 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Terra de sonhos e frustrações

Sempre sonhamos alto. Os nossos reizinhos de opereta sempre se julgaram com direito ao sacro império romano germânico. Tudo que seja menos que o primeiro lugar é desprezível, equivalente ao último. Quando este nos calha em sorte, abrenúncio que é o diabo.
Na verdade, descontadas as desvantagens naturais, nós temos o que merecemos. A sorte não nos deu poços de petróleo e talvez ainda bem, senão tínhamos de aturar algum macaco armado em imperador. No fundo somos uns ingratos, não agradecemos aquilo que temos.
Esta mania dos grandes desafios tem-nos postos várias vezes eufóricos, logo de seguida desesperados. Meteu-se-nos na cabeça que devíamos viver tão bem como os alemães, que devíamos estar na cabeça da Comunidade. Fora assim e eles haviam de ver como nós gozaríamos ainda melhor que eles, esses alemães tão frios e distantes, que só sabem trabalhar, o prémio em dinheiro do primeiro lugar. E político que se preze, que não tenha isso como exigência primeira, que vá pastar anzóis.
Só o partido comunista e outros esquerdistas, disfarçados ou não, não precisam de prometer nada. Basta-lhes dizer aos incautos que pressionem o governo para lhes dar o céu na terra. Se prometem, que cumpram. Esta barbaridade repetida até à exaustão até para eles já soa a verdade, tão inebriados estão com a maneira como a sua cabeça funciona, pela inércia que o Cunhal já lhes deu gás bastante.

15 dezembro 2007

O Oeste Europeu – Não podemos dar oportunidade à frustração

A euforia instalou-se de novo. Aquilo que outros levaram décadas a conseguir, que houvessem pessoas suficientemente habilitadas e em razoável número para acompanharem as novas tecnologias e estarem aptas a desenvolver trabalho especializado, estamos nós prontos a obter em poucos dias.
Não faltará muito para que não haja analfabetos, iletrados, ineptos, desadaptados, marginalizados. Todos ou quase todos, mesmo quase todos estaremos aptos a ler, a interpretar, a falar, até mesmo a coligir, a analisar, a sintetizar. E a exercer uma qualquer profissão, seja velha ou nova.
Falsas expectativas temos já tido muitas pelos séculos fora. Os falsos profetas vão abundando. A salvação já nos tem sido tão prometida mas tarda a aparecer. Será este povo capaz de dar um salto tão grande em tão pouco tempo? Custa a acreditar.
As pessoas são atraídas às novas oportunidades com exageradas expectativas. Cuidado que a frustração pode ser maior que as expectativas que se criam. Se as novas oportunidades levantam o moral por uns tempos, que não tornem a recaída mais grave no futuro.
È necessário que em simultâneo se criem oportunidades para quem vem com tanta esperança às novas oportunidades.

14 dezembro 2007

O Oeste Europeu – a oportunidade das oportunidades

Convencemo-nos enfim que a agricultura de subsistência é residual, que a agricultura em geral é economicamente irrelevante, que não podemos assentar a nossa economia em indústrias de mão-de-obra intensiva, que temos que puxar pela nossa cabecinha para injectar nos nossos produtos umas mais valias provenientes dos nossos neurónios.
Aí apareceram as novas oportunidades, enfim, a última hipótese de, com dinheiros da Comunidade Europeia, darmos genica, elasticidade, a ginástica necessária às tais cabeças para que sejam capazes de fazer mais alguma coisa do que rolhas e sardinhas em conserva e ter algo para oferecer além do mar e do sol.
Até os velhinhos apareceram à chamada para que não tenham que ir para o outro mundo sem levarem o certificado de habilitações que lá lhes permita um bom lugar. Com o certificado nas mãos já todos teremos acesso às melhores Universidades e Institutos (da Terceira Idade), que nós gostamos de dar valor a quem o tem, mesmo que seja só para untar o ego.
Os nossos cílios cerebrais fervilham de actividade. Agora somos o Oeste, estamos logo à frente do Oeste Americano, não do farwest, mas da célebre Costa Oeste, do Silicon Valley. Aqui se formam profissionais de todos os sectores, estamos prontos a servir nem que seja na hotelaria. Venham os euros.
È esta a nossa oportunidade?

13 dezembro 2007

O Oeste Europeu – a oportunidade dos oportunistas

A euforia provocada pelos subsídios foi para muitos de curta duração. O diferencial de rendimentos agudizou-se. As classes com mais poderes reivindicativos foram amealhando benesses. Em vez de chegarem nos previstos vinte anos aos rendimentos médias da Europa conseguiram-no nuns quatro ou cinco. Os mais necessitados receberam as migalhas, até se contentaram com uns rendimentos mínimos.
A dinâmica criada leva-nos a arriscar que estes nunca lá chegarão. As carruagens de primeira são dum luxo nunca visto. Os favorecidos habituaram-se às mordomias a que nunca tinham tido acesso, que no tempo de Salazar havia mais modéstia. E tivessem eles conhecido Cunhal, que haveriam de ver. Mas também este dinheiro não é elástico. Para uns terem muito, há quem pouco tenha. Continua-se a trabalhar em sótãos, caves, pavilhões imundos.
E continua-se a sonhar com bons carros, boas moradias, boas férias num paraíso tropical à escolha. Quando a Comunidade entendeu que esse género de trabalho devia ser entregue a povos ainda mais pobres do que nós, foi a catástrofe. Deslocalizados o calçado, as confecções e outras miudezas ficamos com o nosso cérebro tão vazio como os campos abandonados. Temos neurónios mas falta-nos imaginação.
Depois do que fizemos pela pátria há quinhentos anos, é certo, fomos bravos marinheiros mas merecíamos melhor. Contemplamos com nostalgia o mar agora cheio de chineses que esses estão por demais habituados a isso e o mar a nós já nos enjoa. Perdemo-nos nas noites e dormimos quando devíamos estar acordados.
Venha de lá alguma luz…

12 dezembro 2007

O Oeste Europeu – a oportunidade dos subsidiados

No Oeste da Europa vimo-nos Gregos para nos vermos livres de tanta cobardia, tanto fardeta. Votos em branco, cheques sem destinatário, fomos franqueando-lhes tudo, que com tão fraca herança não tínhamos muito para oferecer. Não mostraram nada de novo que não fosse quererem enfiar-nos em comboios já superlotados e sem abastecimento.
Aparecerem toda a espécie de “arautos” grotescos prenhes de promessas de mundos novos. Experiências houveram algumas, aprouvera que não deixamos nunca que nos comprometessem o futuro. A questão verdadeiramente nunca saiu da escolha do modelo.
O caminho acabou por se fazer por um centro que sempre será o menos perigoso para um povo habituado somente a copiar os outros. Afinal nós já somos velhos nisto e há séculos andamos à procura da salvação. Se sempre soubemos aquilo que não queríamos, a verdade é que também levamos com muitas charutadas.
Feita a escolha, deixamos de fugir e esperávamos a salvação. Aceitamos confrontarmo-nos economicamente com a Europa, que nós somos fortes, valentes e não nos vamos deixar ficar para trás. Mandaram-nos uns bons subsídios e a coisa lá foi andando, o PIB a crescer, as expectativas a dispararem.
Como somos bons a pedir! Só que ao primeiro tremor na Europa aqui ocorreu um terramoto. Não é que nós tenhamos má memória deles, salvem-se os que morreram na baixa de Lisboa. Mas a verdade é que hoje há televisão, telejornais e isto é um choradinho pegado, já ninguém pode analisar os acontecimentos senão com aquele ar pesaroso de gatos-pingados em velórios de ricos.
Venham mais subsídios…

11 dezembro 2007

O Oeste Europeu – a oportunidade dos cobardes

Andamos há séculos à procura da nossa salvação, não como homens, que essa andança tem milénios, mas como portugueses, essa miscelânea particular de raças que vai sobrevivendo no Oeste Europeu.
Remédios foram aparecendo como a expulsão dos mouros, a plantação do pinhal de Leiria, a leis das sesmarias, as descobertas, o comércio das especiaria da Índia, a expulsão dos judeus, a invasão de Ceuta, e não fora a derrota da Armada Invencível, o definitivo remédio estaria encontrado dentro do Império Espanhol.
Restauramo-nos e ainda fomos a tempo de sacar o ouro do Brasil, mandar para lá escravos para trabalhar nos engenhos de açúcar, de sonhar com o Marquês, com o liberalismo que nos deixaram, com as colónias que não perdemos no ultimato inglês e sacrificadamente defendemos na Primeira Guerra Mundial.
O temor que já nos assustava tomou conta de nós, entregamos o nosso destino a um sacripanta miserável e hipocondríaco. Empastelamo-nos em África nas bolanhas do nosso desgosto. Andamos fugidos do mundo, acusando sempre os outros de serem piores do que nós, autênticos pilares da virtude. Assumimos o ensimesmamento de Salazar.
Tentamos recuperar a realidade, vir ao encontro dela numa noite de Abril, mas fizemo-lo como um exército de maltrapilhos comandado por gente sem bússola, ao sabor do vento de ocasião. Empenhamos quase aleatoriamente em vários fardetas um futuro que era tudo menos fácil, mas que nos deslumbrou.
Demos oportunidade aos cobardes...

04 novembro 2007

Retirem a política da superficialidade

A conversa acerca da manutenção ou não da palavra “dada” é uma velha pecha da política portuguesa. Os que hoje solicitam o dito “respeito” amanhã serão solicitados e deviam saber que assim é. Absurdamente cada vez mais alinham ao lado daqueles partidos que, alheios às contingências da política, fazem finca-pé neste tipo de questão.
Aqueles que são visceralmente contra a Comunidade Europeia, afinal uma das entidades que mais contribuiu para a queda do muro de Berlim, também se fazem alheios às alterações verificadas que os contradizem, referindo até à exaustão aquelas que não correram tão bem. A Comunidade Europeia está sempre, para eles, a faltar à palavra sobre o paraíso prometido.
Filipão tomou a atitude correcta. Esperemos que Sócrates assuma igualmente uma postura não demagógica nesta questão, contra a vontade dos que querem criar um episódio para aparecerem a fazer alarde da sua inexcedível superficialidade.

03 novembro 2007

O despertar de mais um mágico

Afinal Filipe Meneses não vai ter que se haver com um só, mas se não aparecerem mais, terá que se haver pelo menos com dois concorrentes.
Já não é só aquele que “andava por aí” e que renasceu. Depois de ter recebido o poder inesperadamente, sem o dramatismo de uma transição disputada, como seria o seu desejo, não o soube segurar.
O seu poder não se baseava em nenhum processo de rotura que lhe desse um impulso decisivo. Perdeu ingloriamente a golpes dos seus próprios amigos. Mas não perdeu a esperança de que um dia lhe dêem razão. Afinal o coração conta muito e ele espera que lhe não olhem para o cérebro.
Mas agora para estar à perna do Filipão vai ter a companhia daquele tal de Ribau que, pela amostragem é amigo que não deixa ficar mal os amigos do outro. É bom que haja gente desta, destemida, pronta a dar o seu contributo à Pátria.
Porém da categoria dos que só mostram bravata já cá os havia muitos. Quando eles se encostam a alguém para ter visibilidade e já se querem apresentar como os melhores do mundo, sem terem provado nada de importante, é ridículo.

02 novembro 2007

A importância de um acto simbólico

O P.S.D. não é a favor do referendo às alterações aos tratados da Comunidade Europeia. Filipão manteve-se firme, o P.S.D. cambalhotou.
Filipão terá percebido muitas das razões que tornam inoportuno tal referendo e, como apoia a aceitação daquelas alterações, depara-se-lhe a inutilidade de discutir tudo a propósito de pouco, como muitos pretendem.
Os poderes necessários para aquela aceitação cabem perfeitamente nos já conferidos pelo eleitorado aos nossos órgãos de soberania: Presidência, Assembleia, Governo.
Alguns não perdoarão a Filipão ter feito que o seu partido desse o dito por não dito, tão agarrados agora se mostram a coerências, tão lestos a ocultar que esta e outras incoerências que vão surgir serão a rectificação de erros cometidos no passado.
Não se pode exigir coerência entre factos de natureza diversa, até entre factos da mesma natureza suficientemente separados no tempo. O próprio eleitorado, pelo menos em certas das suas franjas, não votaria agora do mesmo modo que o teria feito no acto de adesão.
Nessa altura teria sido cometido erro grave porque todos se preocuparam em dar pompa e circunstância ao acto e não curaram de lhe dar a substância que actos simbólicos como um refendo representam.
Será uma lacuna que perdurará, mas se a queremos suprir escolhamos um momento de maior significado que ele surgirá de certo no futuro. Então já serão netos ou bisnetos dos que, há anos, implicitamente disseram Sim que vão ser chamados a se pronunciarem.As nossas responsabilidades estão por demais assumidas.

01 novembro 2007

O património reclamado por quem “andou por aí”

Há quem, depois de escorraçado da “loja”, ainda faça uma afirmação peremptória de que vai continuar a “andar por aí”, só porque se acha herdeiro de ideias partilhadas, mas de que ele se arroga o direito de interpretar.
Nada mais fácil de seguir do que as ideias dos mortos. De entre espírito e letra do legado dos defuntos deixar-nos-ão sempre algo a que nos podemos associar, independentemente de os contextos e as circunstâncias serem diferentes e da prática ter de ser outra.
Não falta pois quem, à falta de ideias próprias, se aproprie dessas. E se elas tiverem passado por um processo dramático para serem postas em prática tanto melhor. E nada mais apelativo que colocar emoção bastante na evocação, mais ou menos a propósito, de fugazes ligações ao autor.
À falta de herdeiro legítimo, facilmente nos associamos àqueles que reclamam uma herança heróica, para a qual estão prontos a arranjar milhentas testemunhas a confirmar o legado, prontas a manter vigilância à porta e ao ferrolho, a serem seus fiéis depositários.
A herança de Sá Carneiro tem para Santana Lopes este significado. Mas não passará de uma simples tentativa de sonegação da propriedade dos seus legítimos herdeiros?
Até não seria descabido que, perante a apatia de todos esses possíveis herdeiros, a herança não tenha já sido apropriada por gente estranha ao próprio P.S.D. Filipe Meneses vai ter um vigilante para uma herança sem dono.

31 outubro 2007

Uma proposta de Governo Europeu na Hora?

A constituição europeia, assim nomeada sem o ser, seria a refundação da Comunidade Europeia, realidade mutante porque tem como suprema ambição aproximar-se cada vez mais da Europa, entidade a que é atribuído um núcleo sólido de ideias e valores e a que se quer dar desde já um esqueleto de órgãos supranacionais.
No entanto uns referendos negativos, e para agravar em Países Fundadores, deitaram por terra qualquer veleidade de a implementar. Se sobre ela se tinha construído um consenso político que envolvia as mais representativas forças políticas europeias, onde se pode encontrar a razão desta rejeição? Será que podemos supor não haver rejeição do seu espírito?
O problema está mesmo por aí. A compreensão deste fenómeno passa fundamentalmente pelo sentimento de impotência que invade o espírito democrático europeu. As estruturas supranacionais, uma vez implantadas, assumem perante os eleitores um carácter estático, inamovível, adjectivos a que, com o desgaste, se somarão outros.
A ideia de que a maioria do eleitorado apoiaria um poder forte e centralizado, porque ele seria a garantia de mais estabilidade e segurança, é errónea. As pessoas são a favor mas não apoiam nos momentos decisivos porque não estão seguras de que esse poder lhes será sempre favorável e na maioria das vezes não lhes agrada.
As pessoas querem ter a liberdade e a possibilidade de descartarem um poder que se lhes torne obsessivo. Umas são mais apressadas do que outras mas quase todas querem mais oportunidades para cambiar. As pessoas estão mais receptivas a mudar de ideias do que se pensa. O desejo das pessoas caminha no sentido do “Governo na Hora”.
Os meios mediáticos exaltam estas contradições e o que é moda torna-se quase uma inevitabilidade. As alterações agora propostas não incluem modelos na moda e as pessoas envolvidas não têm perfil de passerelle. Ter-se-á perdido a oportunidade e deixado que novas forças se movimentassem e dilacerassem o espírito democrático.
A haver este referendo sobre uma questão tão empolada, o voto “Não” ganhará ao nível europeu e em todos os países para os quais a “excelência” europeia não suplante a “tacanhez” nacional. Quanto a nós, se nos julgam mais espertos do que os outros, podemos ter uma surpresa. Só com a chantagem dos milhões nos livraremos do espectáculo indecoroso do “Não”.

30 outubro 2007

Uma chatice para quem já estava tão habituado a “andar por aí”

A mudança no aparelho de Estado é a mais difícil de operar. Na dúvida deixa-se estar tudo na mesma. A definição, a divisão de poderes estabelecidos para dar estrutura democrática ao Estado já são contestadas desde há muito, mas os perigos de uma outra forma de exercício do poder não estão devidamente sopesados.
A divisão que prevaleceu é basicamente entre três poderes: o legislativo, o executivo e o judicial. Mas a promiscuidade e subalternidade entre eles já é mais do que muita e alarga-se cada vez mais um poder asfixiante: o administrativo. Só que as estruturas internacionais são cada vez mais uma cópia das nacionais. Onde há lugar para quem “andar por aí”?
Para os pouco ambiciosos no administrativo. Para os outro no dócil domínio legislativo. Porque este deixa fugir cada vez mais os seus poderes para o executivo, por impreparação, incapacidade ou pura demissão, tem que arranjar alguma coisa para fazer. E a pergunta vem mesmo a calhar: Porque não “andar por aí”?
O que seria da mais genuína justiça é que esta sublime função de “andar por aí” fosse exercida por todos os deputados e não só por alguns. Porque não libertá-los do poder de iniciativa legislativa e passar a dedicarem-se tão só a fiscalizar e avaliar o trabalho do executivo. De preferência mandando averiguar e solicitando pareceres. E “andando por aí”.
Assim já não seriam necessárias comissões. E o Santana Lopes já não se teria de chatear com isso: Continuava a “andar por aí”.

29 outubro 2007

Uma proposta académica: Um referendo radical

As análises académicas nem sempre dão boas receitas. A Academia ainda não abarca a essência do saber político. Faltam-lhe meios, vivência, proximidade. Mas, como políticos, os académicos devem pronunciar-se.
Vital Moreira deixou os livros e propôs um referendo sobre a nossa permanência/saída da Comunidade Europeia, à posteriori de uma aprovação parlamentar das alterações aos tratados. Quer que um tal referendo legitime tudo o que está feito a nível da construção europeia.
Como tivemos uma falta de comparência ao acto fundador, propôs a sua substituição por esta forma radical de o avalizarmos ou não: Ou tudo ou nada. Ou nos comprometemos definitivamente com a Europa ou abandonamos o barco. Tudo parece claro, mas o processo é enviesado.
Estaremos dispostos a pôr o problema em termos de escolha entre a estabilidade e o aventureirismo? Ou vamos tratar esta proposta como um simples exercício académico? Um voto positivo num referendo deste tipo seria decerto um marco importante no campo simbólico. Tudo depende do preço que estamos dispostos a pagar por este símbolo.
Pacheco Pereira pensa ser possível discutir as alterações sem tornar indiscutível o corpo institucional em que elas se fazem. Ele é pela bondade das instituições existentes, mas vê-a de um maneira tão redutora que também podia ser pela maldade. Parece que secretamente ambiciona ver tudo discutido de uma outra forma e fora do seu tempo.
No seu afã de intelectual incontornável, detectou como Vital Moreira uma grave lacuna no nosso património simbólico e propõe o seu preenchimento através de um acto, depois de uma discussão aberta, que institucionalizaria o passado, embora lançando incertezas sobre o futuro. Implicitamente quem rejeita/aceita as alterações confirma o instituído.

28 outubro 2007

Que se cuidem os que subestimaram quem “andou por aí”

Sem necessidade de recuar muito no tempo, chegamos ao momento em que se tornou possível que a agricultura libertasse mão-de-obra que permitisse que o comércio, a indústria, os serviços trouxessem progresso à humanidade. Mas também que libertasse pessoas para a religião, a especulação, o ensino, a política e outras liberalidades.
Este conjunto de pessoas foi variando em quantidade e qualidade e nem sempre a qualidade dependeu da quantidade. A sua diferente ocupação na estrutura organizativa do Estado e a natureza deste também fazem variar o papel deste “escol” na vida em sociedade.
Também a prevalência dos diferentes grupos, religiosos, filósofos, políticos ou outros “libertos” mais ou menos intelectuais, andando mais ou menos por aí, é um factor importante na determinação do valor civilizacional de cada período histórico. Nem sempre se consegue que haja quem ande por aí.
Aquele que “anda por aí” não o consegue sem ter um pé dentro e outro fora da estrutura do Estado. Tem que ser político, mas ter algumas qualidades dos outros grupos intelectuais. Tem de ter tempo, não para o ocupar, não dá para brincar, mas para estar sempre em serviço e alerta. Mesmo na discoteca,
Quem “anda por aí” não pode envolver-se no quotidiano, tomar partido imediato, os seus amigos já estão feitos, o seu campo já está bem demarcado, a fronteira já está bem escudada. Tem que ter atenção aos traidores, aqueles que pensam um homem decapitado, como Santana Lopes.

27 outubro 2007

O referendo aos tratados da C.E.: Uma falsidade

Um referendo sobre as alterações aos tratados que instituíram a Comunidade Europeia seria uma falsidade. Primeiro porque os que lhes servem de base nunca foram referendados. Segundo porque as alterações de natureza política nos tratados não são suficientemente drásticas para o justificar.
O que hoje, a nossa adesão, alguns põem em causa, já o ponham antes dela ocorrer, mas não podem procurar com o seu voto neste eventual referendo produzir o mesmo efeito de então. A nossa adesão só pode ser posta em causa com um referendo em que o que estivesse em causa fosse a nossa própria saída.
As alterações propostas também ou estavam anteriormente implícitas ou derivam tão só dos alargamentos que entretanto ocorreram. Instituído o direito de outros aderirem, estão legitimadas as alterações funcionais necessárias que não ponham em causa o fundamental dos princípios, mas que derivem tão só do bom senso.
As alterações propostas não retiram mais soberania do que aquela que já tínhamos perdido. O único senão é que o caminho aponta para que no futuro tal venha a ocorrer. Até lá teremos porém tempo para reflectir. Não podemos estar a referendar intenções e suposições.
Sabemos quanto incomoda a alguns de nós o nosso papel de pedintes. Mal agradecidos, querem que nos armemos em valentes. Falta força para não aceitar que a C.E nos impinja tudo. Falta fortaleza para lhe não atribuir a culpa de todos os nossos males e reconhecer o quanto ela nos tem ajudado.
Um balanço honesto das permutas, ajudas e desajudas entre nós e a C.E. seria bom que se fizesse mas não em ambiente referendário em que a confusão suplanta o discernimento quando o seu objecto não é preciso, conciso, nem os seus efeitos estão perfeitamente delimitados, definidos.

26 outubro 2007

É perigoso deixar de “andar por aí”?

“Andar por aí” é uma actividade assaz louvável, não molesta ninguém, não estorva os outros, não causa distúrbios. O única senão será o quanto custa ao erário público, mas, havendo outro dinheiro tão mal gasto como este, não custa muito aceitar que alguns de "nós" andemos por aí.
O problema é que quem não está habituado, quem gosta de actividade e, acima de tudo de tomar decisões, não suporta esta apatia durante muito tempo, entedia-se e vá de aproveitar a primeira ocasião para dizer quanto está vivo e pronto a enfrentar as piores tempestades.
Ao assumir tão entusiasticamente o lugar de Chefe da sua bancada, Santana Lopes tomou a decisão primeira de varejar dos poleiros comissionais três colegas de partido. Farto também ele próprio de ser corrido, eles não deviam levar-lhe a mal esta desfeita da sua parte. Até porque a sua reentrada, na ribalta ou no lodaçal, conforme a opinião, não podia passar despercebida.
Os parlamentares do P.S.D. deviam aceitar a dispensa do seu próprio contributo extra e simplesmente deixar-se “andar por aí”. Uns virão e outros ir-se-ão embora, para perto é certo, é a vida. Uns têm bom perder e aceitam uma tarimba, outros abespinham-se facilmente, mas, para quem está de fora, o espectáculo é deprimente e sem vergonha. É o lodaçal.
Os políticos são muitas vezes acusados de indecisão, mas, quando decidem, invariavelmente os acusam de o fazerem mal. Os políticos são muitas vezes acusados de ocuparem permanentemente o palco e quando alguém decide fazer alguma renovação é logo acusado de ingrato pelos tais “velhos” que não o querem deixar. Afinal como o Santana estava tão bem quando só “andava por aí”.

25 outubro 2007

O referendo aos tratados da C.E.: Um acto frustrado

O Estado Português sabia que ao aderir à Comunidade Europeia perdia uma larga fatia de soberania. Não fizemos nada de desprezível, nem tão pouco de heróico. Muitos anos antes a Alemanha e a França, os impulsionadores da Comunidade foram os primeiros a concretizar o objectivo de obter mais segurança com maior interdependência.
Quando Portugal entrou na Comunidade já ela estava dotada de uma velocidade, de uma organização, de uma finalidade que se dava maior consistência aos objectivos primordiais, ultrapassava, na opinião de alguns sectores, as necessidades de uma associação política dos Estados. No entanto, em Portugal pensou-se que seria despiciendo utilizar o referendo para dar uma legitimidade acrescida à nossa adesão.
Hoje, que forças políticas à direita se renderam politicamente e outras à esquerda se renderam economicamente, utilizar o referendo para legitimar alterações funcionais e de pormenor a uma situação irreversível, instituída pelo acto fundador, que foi a nossa adesão implicitamente consentida, é tão só um acto irresponsável, frustrador, inglório.

24 outubro 2007

Quem deixou de “andar por aí”

Isto de “andar por aí” tem o que se lhe diga. Quantos de nós o gostaríamos de fazer. “Andar por aí” à espera que a história, o tempo, seja lá o que for, nos venha dar razão.
Ou simplesmente “andar por aí” sem grande satisfação, como que cumprindo rituais e preenchendo o tempo com trivialidades, à espera que haja um motivo que nos alegre, nos faça esquecer os dissabores e nos dê novo impulso para fazer algo mais do que “andar por aí”.
E se este facto nos pode servir para nos convencermos que tínhamos razão no que fazíamos antes de “andar por aí” tanto melhor. É o que parece ter acontecido com Santana Lopes para quem esta pequena vitória e por interposta pessoa lhe não podia dar mais satisfação, goze-a ele com mais ou menos privacidade.
No entanto esta desforra interna não lhe dá razão a nível da sua própria actividade política. Isto de uma vitória ser só a derrota dos outros é o que vai alimentando a mesquinhez, as arrufadas, as vaidades balofas.
A razão histórica é outra coisa que Santana Lopes não conseguirá apagar ou subverter, mesmo que, ao que parece, tenha deixado de “andar por aí”.

23 outubro 2007

Uma cambalhota anunciada no referendo europeu

Para o P.S.D. é uma cambalhota, para o Filipão, honra lhe seja, não.
Existem actos a que nós queremos muito justamente dar o valor que eles merecem. Então só os devemos praticar quando as circunstâncias os dignifiquem.
O referendo é dos actos que devem ser valorizados e as circunstâncias em que tem sido convocado não lhe retiraram dignidade, até porque os seus resultados não foram vinculativos, mas foram respeitados como deviam ser.
Diferente é se viéssemos a ter um referendo para legitimar umas alterações aos tratados da C.E., mais funcionais do que de natureza política.
Não se convocou um referendo para a nossa adesão à C.E., nem para a nossa adesão ao Euro, o acontecimento que mais condiciona a nossa vida depois do 25 de Abril. Não se convocou o povo antes de termos fundos europeus, quando a esperança se visualizava para lá da fronteira.
Agora que ninguém rejeita os fundos, não falta quem ache pouco e arranje todos os pretextos para denegrir a imagem da Comunidade Europeia, cujos objectivos são bem mais nobres do que os assuntos em discussão.
Seria caricato que agora que o fundamental não pode ser posto em causa e ninguém quer isso, as alterações fossem rejeitadas e os tratados postos em causa a destempo só para chatear e dar uma pequena satisfação a grupelhos minoritários.
O referendo não deve ser caricaturado e só deve ser utilizado quando se justificar, quando a sua oportunidade coincidir com a importância do assunto que é o seu objecto.

22 outubro 2007

Andar ou não por aí, eis a diferença

De súbito verificamos que, se parecia que o P.S.D. iria dar uma grande cambalhota, tudo não passou de um susto. Os que perderam e os que ganharam são quase todos políticos que “andam por aí”, uns com direito a escolher lugar, outros nem tanto, aproveitam o que lhes dão.
Na hora da despedida é de louvar o Marques Mendes, se ele levar avante os propósitos que se anunciam de deixar a política para os outros, não que os que ficam sejam melhores ou piores do que ele, mas porque ele deixou de “andar por aí” e merece palmas por isso.
Não sei se irá resistir à tentação de fazer uns remoques quando o novo Filipão perder algumas das quatro eleições que diz querer ganhar. Com uma meta tão alta creio que já pode ir comprando os patins. Que isto de outsourcing só convence os incautos.Mas não é Marques Mendes que acrescentará nada à cultura política se vier dizer que quem tinha razão era ele. Cale-se que assim é que o Senhor dá a melhor resposta. Deixe-os a eles “andar por aí”, até meterem nojo que, no lodaçal em que se meteram, já não conseguem sequer dar cambalhotas.

08 agosto 2007

Quem apoia a regionalização?

Colocar a regionalização na ordem dia não se consegue com o amontoar de argumentos, com o agrupar de simpatizantes. Talvez com a qualidade de uns e outros, talvez com um sentido apurado de oportunidade. No entanto por mais que os apoiantes da regionalização a queiram pôr na ordem do dia, mais fugidia ela parece.
Há de tudo, apoiantes que atrapalham e adversários que ajudam. Esta grande confusão, em que sempre se torna um assunto em que a vontade de elevar o tema ao primeiro plano se atropela no esforço para levantar o ânimo dos apoiantes e nos argumentos a favor, não leva a lado nenhum.
A dificuldade está realmente em identificar os apoiantes que ajudam, os adversários que atrapalham, depois de sabermos quais os argumentos que são pró e aqueles que são contra. Só assim podemos ajudar-nos uns aos outros, os que apoiamos, que os adversários não necessitam de ajuda.
A blogosfera pode ser utilizada com este objectivo, muito diferente de ser um descarregador da bílis, de ressentimentos e impetuosidades doentias. Se muitos só se conseguem fazer ouvir dessa maneira, isso é bom para quem quer delimitar campos, não para quem quer ganhar apoios, novos aderentes.
O estar num campo onde se apelida todos os outros, os de fora, dos mais abjectos adjectivos causa-me nojo, repulsa e repúdio. Como me prezo de pensar com conceitos normais, não estando imune a, em determinadas alturas, não encontrar nada mais apropriado à ocasião que não seja alguma palavra ofensiva, não o faço sistematicamente, como infelizmente vejo em muitos blogs.
A falta de terminologia, que não seja essa, é afinal manifestação de deficiente formação intelectual, quando não, nos anónimos ou quejandos, sinal de cobardia e tacanhez mental. Era bom que as pessoas pensassem e repensassem e ao falar tivessem em mente não ofender quem possivelmente é igual a eles, mas conquistar os seus pares para a sua causa.
A ofensa destina-se normalmente a quem nós consideramos e eles se consideram, pensamos nós, a um nível diferente do nosso. Se nós privilegiarmos aqueles que estão no mesmo patamar como os destinatários preferenciais da nossa mensagem tratá-los-emos mais civilizadamente.
Há indivíduos que perdem totalmente a noção do lugar, do meio em que estão. Julgam pairar sobre os outros, que os podem borrifar com as suas asneiradas e destemperos. Essas pessoas têm de baixar de imediato a temperatura dos seus neurónios e colocar-se numa posição digna.
Há gente que só atrapalha e que, se julga que está no lugar certo, o melhor que faz é estar calada. Se não consegue animar os amigos com anedotas, muito menos caçar simpatizantes com vinagre. Não pensem que com insultos se consegue qualquer credibilidade.

02 agosto 2007

Uma ideia rocambolesca

Não é só em Ponte de Lima que isto anda tudo ao contrário. Afinal o Comando Distrital da Polícia de Segurança Pública de Viana do Castelo também quer algumas coisas que me cheira serem de pernas para o ar.
Em tempos formaram-se comissões de moradores, estruturas reivindicativas com o beneplácito do poder comunista, que se arvoraram em representantes do povo, tendo algumas até feito trabalho meritório, mas que depressa enveredaram por caminhos esconsos de política global e revolucionária. Por sorte as armas não chegaram às suas mãos.
Agora a Polícia substitui o Partido Comunista no patrocínio e quer formar conselhos de moradores, de certo não para distribuírem armas reais, mas para que de certo se dediquem a vasculhar e controlar a vida de quem está sossegadamente nas suas casas. É a institucionalização da bufaria?
Mas em que lei se suporta tal actuação, em que regulamento estará consignada tal designação, tais funções, a forma de escolha ou eleição, as obrigações e direitos, ou será que a Polícia já tem capacidade legislativa?
Um órgão como a Polícia, que exerce funções de soberania e deve ser equipada pelo Estado com os meios necessários, anda a mendigar telemóveis para os seus agentes dedicados ao policiamento de proximidade às Juntas de Freguesia, que, por sua vez, andam a mendigar uns tostões ao Estado.
Logo a mesma Polícia haverá de mendigar o mesmo para os membros dos conselhos de moradores, novos conselheiros de polícia, vigilantes da ordem, porque não capazes de juízos apressados sobre o comportamento dos seus vizinhos, bufos. Ou esta estranha milícia desarmada vai dedicar-se a identificar os cães e gatos que fazem as suas fezes nos jardins públicos?
Isto anda tudo às avessas. Agora é o Estado, através destes curiosos agentes, que vai montar um combate diferente à marginalidade, coisas que nós sabemos como começam, mas não sabemos para onde desandam. Às tantas estamos a discutir quantos namorados a vizinha do lado lá mete em casa.
Quem não estiver bem agora vai decerto ser recomendado a queixar-se ao conselho de moradores que ele fará a triagem e o encaminhamento devido, se for pessoa do agrado. Por seu lado a polícia, se quiser dar um recado a alguém, também saberá que este caminho é mais curto.
Só faltava esta!

01 agosto 2007

Que estranhos comportamentos!

Mais uns episódios característicos e demonstrativos de que tudo ou quase tudo nesta terra, Ponte de Lima, anda às avessas. Mas para ver claro ter-nos-emos que virar de pernas para o ar, o que não é fácil.
Saliente-se que eu aceito as grandes superfícies mas com forte desagrado. Os comerciantes da nossa praça também não as aceitarão mas cabe-lhes a principal responsabilidade de não se terem em tempo preparado devidamente para esta inevitabilidade.
Pior é que, quando lhes restava tomar uma posição digna, os nossos comerciantes puseram-se de cócoras perante o “invasor”. Assim procedeu a Associação Empresarial de Ponte de Lima e em particular o seu presidente da direcção que esqueceu promessas de há anos, se calou e agora patrocina.
Belmiro de Azevedo tem um contrato com a Galp de descontos cruzados e aplicou-o em Ponte de Lima com o acordo da firma distribuidora local, de que o dito senhor é sócio. Esta não era obrigada a aderir, mas como assim se angariam clientes, ela pôs à frente de tudo os seus interesses particulares.
O mínimo de decoro mandaria que se excluísse do dito negócio ou se demitisse da direcção de um organismo cuja base histórica, e talvez actual, são os comerciantes de Ponte de Lima.

Quem também anda a ver as coisas ao contrário é o senhor João Carlos, Presidente da Assembleia de Freguesia de Ponte de Lima, que objectivamente dá cobertura àquele senhor ao desviar dele a atenção e pretender concentrá-la simplesmente na Câmara Municipal.
Em lugar de liderar um movimento claro, assumido do empresariado limiano contra a nenhuma importância que o seu organismo representativo lhe dá, contra a sem vergonha do comportamento demissionário da direcção da A.E.P.L. e dos seus próprios pares, dá tiros para o ar.
Só depois de uma clara posição daquela associação e desculpabilizando os próprios comerciantes pela imprevidência, é que se deveria seguir o processo político e aí cá estávamos nós para apoiar.

Afinal o actor principal do spot publicitário que passa na televisão é um conhecido comerciante, Artur Lopes, que dá vivas à chegada de um seu próprio concorrente, que só nos livros faz 20 e até 40 por cento de desconto.
Infelizmente em Ponte de Lima podemos ser comerciantes ou exerçamos qualquer outra profissão que todos temos um pouco de actores, não se vá pôr este senhor em bicos de pé que não é o único.
O problema, se é que ele existe, se é que alguém quer elevar a cervical, está em quem anda a pôr as coisas ao contrário. Quem é o ponta de lança dos poderes económicos parasitários? Politicamente quem dá o superior patrocínio a esta situação?

26 julho 2007

As várias caras do medo na versão triste do poeta

O medo tem muitas caras e o poeta devia saber disso. Ele ter-lhe-á conhecido uma antes do 25 de Abril perante a qual não soçobrou, honra lhe seja. Outros terão conhecido outras, por aí mais tenebrosas e não pestanejaram, honra lhes seja também. Mas é após o 25 de Abril que o poeta tanto se tem aterrorizado com o medo que já ninguém se deixa assustar quando resolve apelar ao estado de alerta.
Se o poeta teve a sensação de que nem sempre convém dizer o que se pensa não terá sido decerto a primeira vez desde o 25 de Abril. Algumas vezes terá calado por medo, outras por motivos menos louváveis, mas com certeza que já teve ocasião de ser leal com alguém, que subserviente não me parece. Com o seu busto altivo haverá lá medo que passe!
Como poeta até deve estar bem habituado a isso, qual fingidor que manobra o medo como bem lhe apetece. Ainda acresce que hoje o poeta não precisa de ser leal a ninguém na sua postura de auto marginalizado do sistema partidário. O poeta já não é leal, nem conveniente, mas caricato.
Como não existe uma cultura de liberdade individual, o que se reconhece ser verdadeiro, cá está ele para servir de exemplo a quem o queira seguir. Se não tem por que se queixar, já quanto à sua contribuição para essa liberdade, que não para a colectiva, não tem sido brilhante. Ocasiões não lhe faltaram para intervir na prática mas quando o fez só borrou as mãos e a escrita. Jornais fechou ele, mas nessa altura o indivíduo ainda não contava.
O poeta é o espantalho do medo, o esconjurador do medo, o delator do medo. Mordaças e estrangulamentos de alma não são com ele. O governo, esse malvado, vive de álibis e aproveita para promover o pensamento único, quando não o medo, esse fantasma tão presente no seu imaginário poético.
Mas nós também devemos ter medo, de um medo que o poeta não tem, medo do nada, do vazio, da vacuidade. Quando o poeta podia dizer algo de novo, que falta uma estratégia, vá de alinhar alguns factos, analisando-os pelo lado do mais reles populismo, como se estratégia fosse navegar à bolina. O poeta está cá para alertar, para lançar atoardas, a mais não é obrigado.
Tudo se podia resolver, talvez com uma mudança de estilo, talvez sujeitando o governo ao interesse meramente partidário, onde o poeta está e não está, conforme a conveniência. O poeta não tergiversa: A liberdade sempre e agora, que já se não pode pensar de maneira diferente de Sócrates, mas também da dele, ideólogo da poesia triste.
O que o poeta não perdoa é que José Sócrates personifique uma política que, bem ou mal, põe em prática, fugindo sempre que pode ao “talvez” com que lhe querem armadilhar o caminho. O que o poeta queria era uma política em que tudo fosse posto em causa a cada momento e que continuamente houvesse alternativas, enfrentamentos, decapitações.
O poeta anda agora atrás de uma vida que perdeu em tantos anos de aparelho. Mas não se tornou inimigo dos partidos políticos, diz. Inimigos são os que promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura. O que teria andado esta ave a fazer durante tantos anos? A cuidar da sua vida de certo, que a sua noção de vida política se resume a esta conversa balofa.
O seu medo será de perder o estatuto? O que estará em causa na sua liberdade? O seu valor não pode estar só no busto, na presunção, na vaidade. Porque se analisarmos a sua acção política não passa do habitual desastre que neste País é usual permitir, sem queixas, aos poetas.
Melhor fora dedicar-se à poesia, mesmo com o cariz triste de quem está sempre insatisfeito e de quem da tristeza se não consegue libertar. A não ser talvez quando abandona a Assembleia da República para ir às suas imprescindíveis caçadas. Mas há sempre quem goste destes bustos a que a patine do tempo dá um aspecto solene, de passionarismo decadente.

21 julho 2007

Moderação nos ímpetos regionalistas, persistência na acção

O Portugal, como o sentimos ontem e hoje, na sua dimensão octocentenária, criou-se por aglutinação, já que Afonso Henriques e seus descendentes lá conseguiram agregar esta faixa litoral até ao sul sempre com uma largura semelhante ao Norte e todos ficaram satisfeitos.
Sendo centralistas, como todo o poder o é, tendo transferido a capital para Sul, levaram consigo o efeito centrípeto, o poderio das ordens, o poder do paço real, o poder de esbanjar, o poder de dar luzimento a si mesmos. É isto que caracteriza o poder e o poder está desde então associado a Lisboa.
As nossas gestas descobridora e mercantil reforçaram sobremaneira o seu brilho, a sua condição central, difusora de cultura mas economicamente concentracionária. Do Mondego para cima a influência positiva de Lisboa nunca foi muito relevante mas a negativa é acentuada até pela apatia, pela sua intervenção minimalista.
Só a escolarização geral, embora limitada no tempo, promovida de modo contraditório por Salazar e diga-se, a sua única política louvável, levou a criar um espírito de unidade até aí presumivelmente mais ténue. E o seu propósito era de certo esse, de reforçar o espírito nacionalista.
Por razões políticas após o 25 de Abril criou-se uma divisão norte-sul que, porém, nunca ninguém assumiu como tendo possibilidades e desejos de ser definitiva, antes assentava num princípio de solidariedade que nunca abandonou os protagonistas dessa época. O Norte ajudou a estabilizar o País sem nada pedir em troca.
A manutenção do modelo agrícola de subsistência, a depreciação do valor da produção agrícola, o abandono dos campos, a economia industrial de mão-de-obra intensiva levou a que o Norte, quando estes fenómenos se acentuaram com a integração europeia, visse o valor do seu produto per capita a perder no cômputo nacional.
O mal-estar gerado em quem se acha a alma da nação, e não tem benefícios que se lhe comparem, reverte de novo para factores de índole psicológico que determinam que agora surjam idealistas de um Norte justiceiro, motor de todas as causas nobres, a se misturarem com nostalgias de um Norte às direitas, sempre atrasado no seu passo histórico.
O deslumbre de um brilhantismo da capital perante um regresso à secular apatia do Norte, parece que só entrecortada pelo roncar dos Ferrari do Vale do Ave, faz alguns gritar de raiva quando para si olham.
Estes primarismos, resultado do quanto nos custa olharmos para nós mesmos, sabe-se por onde começa mas não onde acaba, ou antes, não leva a lado nenhum. Os ímpetos incontrolados de quem faz do comentário um escape ou um divertimento são disso uma evidente manifestação.
A inoperância dos governos em detectarem a tempo os problemas resultantes da alteração dos padrões produtivos, a que há décadas se sabia que o Norte inexoravelmente haveria que ser submetido, por efeito da alteração de outros paradigmas em que assentam as sociedades mais evoluídas, é a única razão da actual situação.
Porém todos nós temos a nossa quota-parte de culpa, dado que o clima político é sempre por nossa vontade a favor de politicas imediatistas e não o é a favor do necessário processo de reorganização de toda a administração pública, que se deveria conjugar com a criação de poderes regionais que nele participassem.
Este deveria ser o primeiro passo para poder influenciar os factores que determinarão a adaptação a novos padrões produtivos. Nenhum gestor fará milagres se tiver uma herança caótica e nesta questão não podemos vender o negócio e mudar de ramo. Temos de trabalhar com aquilo que temos e ir mudando sem tentar atropelar as leis a que estes processos estão submetidos.

19 julho 2007

Um testemunho comunista fundamental

Italianos, franceses, espanhóis e portugueses tem andado juntos quanto se trata de ideias políticas, uns mais avançados que outros, com cambiantes mas com muitos traços comuns. Um deles é que todos tiveram, em diferentes ocasiões históricas, partidos comunistas com significativa influência na opinião pública e até nos destinos dos respectivos países.
Nós temos aprendido essencialmente pelo exemplo desses três outros partidos comunistas, sendo o português o mais hermético e fechado dos quatro. Enfim Zita Seabra fala-nos do caso português, com as suas particularidades derivadas das condições histórico-geográficas e políticas próprias. Fala-nos, dado o seu longo e preenchido percurso, da organização, dos métodos usados, dos fins perseguidos.
O partido comunista teve em Portugal um percurso que a partir de certa altura se pode relacionar com o de Zita Seabra e de muitos outros da seguinte forma: Há um período mítico, um revolucionário, um ideológico/ constitucional, um decadente e a actual situação em que a divisão deu origem a um partido moribunda e uma mulher revigorada.
Tendo entrado na primeira fase, ainda com Salazar vivo, participou na construção da seguinte, principalmente desde que assumiu a direcção da U.E.C. e que terminaria no 25 de Novembro de 1975, empenhou-se na terceira com desilusão, na quarta até à sua exclusão para que a quinta não ocorresse.
Pelo seu significativo trabalho de organização Cunhal promoveu-a ao posto hierárquico mais alto a seguir ao seu. Saiu na fase decadente estupefacta com o dito “socialismo real” mas tentando salvar o que fosse possível salvar, salvando a face dos bem-intencionados.
Zita Seabra revela factos que demonstram o cinismo da maioria dos dirigentes, mesmo quando eles se agarram a Álvaro Cunhal como o único que lhes podia salvar a face, escondendo as suas intenções, recuando o mínimo possível e negando o passado tão só porque já o não conseguem repetir.
Mas, se o relato destes factos dá consistência à história, Zita Seabra não se serve deles para fundamentar a sua tese que não é de atacar o carácter das pessoas antes sim de atribuir todas as culpas à política proposta, ao centralismo democrático e à ditadura do proletariado, ao sistema assim criado.
É um livro benéfico para todos porque há tiques que nós carregamos do nosso passado, só possíveis de germinar neste passado e de que nos temos que livrar. Cunhal copiou tiques de Salazar porque tinha a ideia que era o único capaz de se lhe equiparar. Aqueles que ainda hoje fazem elogios a Cunhal, sacralizaram-no e têm a ideia de terem herdado algum bocado do seu espírito.
Só nos libertaremos desta nódoa com a verdade nua e crua que Zita Seabra teve a coragem de contribuir para desvendar. Se muitos mais falassem seria mais fácil mas inacreditavelmente muitos calaram-se e limitaram-se a mudar para o que consideravam as margens do comunismo: O P.S. ou o B.E.
Porque a margem P.S. é desde a Fonte Luminosa radicalmente diferente, o silêncio dos que para lá foram só se justifica pela vergonha de se sentirem enganados. Zita Seabra afirma-o e confirma-o, que nunca foi enganada. Por isso, quando foi expulsa, nunca o aceitou, ao contrário dos dissidentes que nunca lhe perdoaram a frontalidade de ter enfrentado Álvaro Cunhal enquanto lhe deram essa possibilidade.
Os outros foram enganados e saíram cabisbaixos. Ela foi traída pelo seu próprio intelecto e saiu de cara levantada. Como ela, muitos viram no P.C. a única forma de desestabilizar o sistema salazarista e lavaram a peito o seu projecto na medida em que se foram integrando e identificando com o projecto perverso personalizado em Álvaro Cunhal.
Só a qualidade do empenho de cada um levou a que uns vissem mais cedo a natureza do sistema que existia na U.R.S.S. e que cá se queria montar. A saída deste empenho teve no caso de Zita Seabra implicações na saúde, mesmo de natureza psico-somática, mudou-lhe a idiossincrasia.
Ela adquiriu a lucidez de quem não atribui culpas às pessoas mas sim aos sistemas que carregam em si diferentes doses de perversidade. Reordenou as suas ideias à volta de valores humanos que devem prevalecer sobre todas as ideologias. A estas nunca se devia deixar que assumam carácter absoluto. Se pensarmos que os mortos do comunismo merecem o mesmo tratamento que as vítimas do nazismo estamos no caminho certo.
As pessoas também não gostam de vidas completas porque elas comportam necessariamente reviravoltas. Gostam que elas sejam o mais linear possível, para bem as perceberem e à sua maneira. Zita viveu e continua a viver o que há no seu tempo, que de linear nada tem e por isso não agradará a muitos, como se as mudanças fossem em si um crime.
O intelecto de Zita Seabra assumiu diferentes perspectivas intelectuais em diferentes momentos da sua vida, mas sabemos agora o que então desconhecíamos: O intelecto atraiçoa-nos quando gera sentimentos perversos de que não nos “queremos” aperceber. Quando passamos a percebê-los não praticamos qualquer crime.
Cunhal teve sempre essa vida linear, pelo menos no aspecto público, porque antes quis morrer com o seu erro a dar o braço a torcer. Contrariamente a Cunhal, Zita Seabra apercebeu-se do erro e quis rectificar o que de mal tinha feito na sua vida. Foi a tempo de o fazer integralmente: Os mortos, os injustiçados do comunismo ajudaram-na.

14 julho 2007

A Terra, as Cidades, as Regiões e o Progresso

Não foi fácil agarrar o homem à terra, fazer dele agricultor. Os dados históricos indicam-nos a região do Oriente Fértil como aquela em que a agricultura primeiro se desenvolveu e obteve tal êxito que permitiu que se desenvolvessem as primeiras civilizações dignas desse nome, com escrita, organização e leis.
As cidades foram elemento essencial numa evolução assente na complementaridade, mas que se não ficou por aí. Estabeleceu-se uma ligação equilibrada entre o amanho da terra e outras funções diversificadas que só nas cidades podiam ter justificação e garantido o progresso com a simultânea evolução das actividades intelectuais.
A produção de alimentos era suficiente para que um grande número de pessoas se desligasse de novo da terra, já não para serem colectores na natureza, mas para se dedicarem a actividades do espírito, da ciência e da técnica.
Houveram outros processos evolutivos noutras zonas do globo que, por não terem tido traços tão marcantes como este, pela menor repercussão que tiveram no evoluir da humanidade, não deixaram de se basear nos mesmos princípios, estivessem ou não sujeitos a regressões, a problemas demográficos, chacinas, calamidades e pestes.
O nosso canto, e permitam que vos deixe a clara definição dos seus limites, não foi dos mais fustigados por estas ocorrências, dado o seu posicionamento periférico em relação à Bacia do Mediterrâneo, durante largo tempo berço e centro das principais civilizações em que a nossa teve as suas raízes, mas que só cá chegaram após sujeitas a processos de filtragem.
Mesmo a influência civilizacional por mar nunca foi muito profunda, nunca foi muito para além da costa, a não ser no Sul, de certo por razões orográficas e hidrográficas. Mas mesmo o Sul, colonizado pelo Norte, haveria por razões políticas de perder muitas das suas vantagens no correr dos séculos.
Na paisagem acidentada do Centro e Norte do País o povoamento foi sempre muito disperso e os centros urbanos desenvolveram-se mais mercê de decisões administrativas do que da pujança natural dos seus habitantes.
As mudanças operadas na importância relativa das cidades, no atrofiamento de umas e no desenvolvimento de outros, derivaram mais dos equilíbrios entre poder religioso e político, do reino ou império em que nos integrávamos, em questões estratégicas colocadas por quem detinha o poder.
Ainda outros factores condicionaram o desenvolvimento das nossas cidades e dos centros urbanos de menor dimensão. Limitaram-se a ter uma função complementar à ruralidade, deixaram-se vencer pela dificuldade de movimentação, pelas restrições que lhes eram continuamente colocadas.
O interesse das ordens religiosas, do poder religioso, dos proprietários mais abastados convergia com o temor dos menos afortunados em abandonar a pouca terra que detinham para engrossar a massa urbana e se desligarem definitivamente da sua lavra. Quando a fome apertava e tinham que emigrar, faziam-no para longe, para a sorte, que, se houvera que morrer à fome, os não viam mais.
Este passo decisivo que era dado em situações dramáticas e para um futuro incerto não era dado facilmente para as urbes mais próximas e dinâmicas, que aqui quase certa era a indigência que os esperava. E, como aqui já havia bastante, o caminho de volta era o mais recomendado.
As nossas cidades nunca exerceram uma atractividade irresistível, os poderes políticos nunca estiveram interessados em que assim fosse, tudo era mantido em dimensões mínimas para que se não desfizessem equilíbrios no sector primário, aquele que durante séculos constituiu a base das preocupações de quem governava.
O poder religioso foi contribuindo com a sua parte, disseminando os seus agentes pelo território, instituindo centros de culto em regiões inóspitas que desviassem as pessoas da sua confluência natural para o monumento urbano, espelhando uma cultura anti-citadina no campo e anti rural na cidade.
Muito desse poder religioso implodiu, como implodiu a União Soviética. A coincidência entre paróquia e freguesia é hoje um artifício. O Estado tem de “aproveitar a ocasião” para acabar com a palhaçada da nossa organização administrativa, fruto do caciquismo prevalecente há duzentos anos em Portugal. A freguesia, sem a paróquia atrás, falta-lhe a alma.
Uma organização racional do território terá que assentar em municípios mais pequenos e na extinção pura e simples das freguesias. A clara definição de critérios objectivos que tenham em consideração todas as variáveis importantes determinarão com certeza a necessidade de aglomerados urbanos com funções inter-municipais, supra-municipais, regionais ou nacionais em domínios específicos como a justiça, o turismo, o abastecimento de água, etc.
Como é irracional andarmos a votar para todas as organizações que de algum modo exercem funções de soberania ou delas derivadas, ficaríamos pelos concelhos, as regiões e o governo que estabeleceriam entre si, com critérios de razoabilidade, a distribuição de recursos e competências e formas complementares de organização que se justificassem.
A implementação de regiões é um passo essencial numa lógica de aumento da dimensão das unidades intermédias. O Concelho cederia o seu lugar de hoje à Região. A Região passaria a ser a autarquia maior em face do Governo Central.
O número de escalas permaneceria em três, igual ao que hoje temos. Bastavam porque mais uma já seria a confusão. Promovam-se sim cidades, sem preocupações de falsas justiças, que o que há de mais pérfido é distribuir misérias e elefantes brancos por todos.

Visite nos próximos tempos a Serra de Arga e a sua Arte na Leira a poucos quilómetros da saída da auto-estrada de Dem, Caminha.

13 julho 2007

Infelizmente este Couceiro, que tanto desprestigiou o País, não está só

Não vou falar de futebol, de tácticas, preparações, mentalizações. Tão só direi que líder que se preze tem de ser, de alguma forma, um exemplo a ser seguido. E também tem que manifestar algum espírito ganhador, que não espírito caceteiro. Isto vale para um Couceiro qualquer, seja treinador de futebol, como vale para um líder partidário.
A figura que ele está a fazer, de ir pensar, que ele não vai querer prescindir de uma indemnização e não se demite, não o dignifica minimamente. Mas que pode ele fazer de pior do que já fez.
A figura caricata de um líder político da nossa praça nacional ainda não teve oportunidade de contribuir tanto para o desprestígio do País, para borrar a nossa dignidade, porque as suas asneiras ainda não passaram fronteiras, mas não o podemos deixar fazer pior.
Como fraco treinador das suas tropas, que procura adestrar no mais primário trauliteirismo, contagia muitos espíritos que mereciam um bem mais saudável ambiente em que pudessem amadurecer e expor as suas ideias.
Para que os seus correligionários possam ter a ambição de contribuir para o bem nacional, também este não terá outra atitude a tomar na segunda-feira, senão ir-se embora, após a derrota na eleição para a Câmara Municipal de Lisboa.
Este tipo de gente não dignifica nenhuma instituição, seja a Universidade Atlântica, seja qualquer empresa fornecedora de serviços à P.T., seja a Federação Portuguesa de Futebol. Mas não lhes podemos dar-lhe mais oportunidades de sujar a nossa imagem nacional. Esta gente não tem vergonha.

12 julho 2007

Um patrocínio que não dignifica a Câmara de Ponte de Lima

Dos Jornais: Em Felgueiras uma mulher de 47 anos ficou gravemente ferida depois do ataque de um doberman. O animal estava ao cuidado da mulher desde pequeno. Os ferimentos quase mataram a senhora que sofreu lesões muito graves no pescoço e rosto, tendo sido sujeita a várias operações plásticas.
Entretanto a Câmara Municipal de Ponte de Lima patrocina a expansão do comércio deste tipo de feras. Qual será a intenção dos membros da Câmara ao irem ao arrepio do mais elementar bom senso e daquilo que já está acordado no Parlamento Nacional?
Lembremos que na Assembleia da Republica está em fase de aprovação uma lei "mais apertada que reforce a responsabilização de proprietários, comerciantes e criadores de cães considerados perigosos" é o que pretende a deputada Rosa Albernaz, autora do projecto de lei do PS, já debatido na Assembleia da República em simultâneo com outro do CDS-PP. Ambos os diplomas foram aprovados para discussão em comissão parlamentar.
Tanto socialistas como democratas-cristãos partem do princípio de que um animal é potencialmente perigoso e a sua perigosidade depende, em grande medida, do seu proprietário. Daí que o CDS-PP proponha exames de aptidão física e psicológica para os proprietários e o PS defenda a existência de um registo exaustivo de cada animal.
"É preciso que os criadores inscrevam nessa ficha os dados genéticos do animal e a filiação", disse ao JN Rosa Albernaz, ao lembrar a existência de manipulação genética de raças com fins criminosos e ilegais.
O CDS-PP exige ainda aos proprietários um registo criminal limpo de crimes contra a vida e integridade física, contra a liberdade pessoal ou autodeterminação sexual e contra a saúde e a paz públicas. "Por outro lado, aumentamos o número de competências dos funcionários municipais no controlo destes animais", explicou ao JN António Carlos Monteiro, o deputado autor do projecto de lei dos populares.
Na opinião da deputada socialista, que propõe também o aumento das coimas para reincidência na violação da lei, "esta clarificação pretende ser um passo na defesa da segurança das pessoas mas também dos animais". "É que um cão é o que o dono quer que ele seja", concluiu Rosa Albernaz.
A Direcção-Geral de Veterinária divulgou entretanto que estão registados 4 458 cães considerados potencialmente perigosos, ao abrigo da legislação que obriga os proprietários destes animais a fazerem o registo respectivo nas juntas de freguesia. O maior número concentra-se no distrito de Lisboa (1 003), seguindo-se os de Faro (618), Setúbal (612) e Porto (606).
Os distritos com menos registos daqueles animais são Castelo Branco, Portalegre e Vila Real.

09 julho 2007

As minudências como base de uma campanha política

Quando pressuporíamos estar a discutir que funcionalismo público queremos, que estruturas devem suportar as actividades essenciais do Estado, que meios humanos e de que maneira o Estado deve recorrer a eles para executar as funções a que se propõe, vai daí os sindicatos, directa ou indirectamente comandados pelo Partido Comunista, saltam a defender a estagnação e o imobilismo. Nada a opor.
O Execrável, para animar um pouco as suas hostes, puxa de um assobio e apita a todo o contacto físico, qual árbitro novato que ainda não tem a noção do que anda a fazer. Ora este já é uma carraça velha e a única justificação é já estar caquéctico.
Os apoiantes socialistas parecem vacilar, dada a aparente indiferença com que José Sócrates os tem tratado, na sua postura de se dirigir preferencialmente a todo o povo e de por à frente de tudo os interesses nacionais. Muitos já gostariam que o apoio à política socialista se volatilizasse.
Claro que se formos analisar friamente a actuação do executivo só em 50 % estaremos em consonância absoluta com as suas medidas, mas os outros 50 % serão bem compensados porque a alternativa Execrável de certo que só conseguiria, na melhor das hipóteses, uns míseros 10 % do meu apoio.
A social-democracia só perde em apresentar este irresponsável, incapaz sequer de atingir os tempos áureos de manobrador ao serviço do cavaquismo que haveria um dia de saturar o próprio Cavaco Silva.
Mas os apaniguados deste repelente animal político, a que chamamos o Execrável, vêm dizer que está em causa a Liberdade e outros Valores Superiores, quando tão só estão em causa uns tachos de uns tantos que passam a sua vida de funcionários públicos a fazer politica da mais ordinária.
É um triste sinal da incapacidade intelectual, da baixeza moral, do esquecimento do passado, de desrespeito pelos humilhados no antigo regime, confundir interesses mesquinhos de pessoas avulsas, sem valor, sem elevação e a quem ninguém tirou qualquer meio de subsistência.
Por mais que se possa atribuir a erro certos procedimentos, os valores que eles eventualmente possam atingir são tão irrisórios e irrelevantes que quem se põe na sua defesa revela um carácter mesquinho, antes se preocupasse com aqueles que perdem um emprego efectivo.
A alma destes críticos do governo está prenhe de interesses vis, da impunidade em que sempre tem vegetado, da avidez de não olhar a meios para passar por cima de outros bem mais capazes, mas que não possuem ou não se aproveitam do seu cartão partidário.
Critiquem a politica de saúde, discutam a politica de ensino, ponham em causa a política de transporte, ataquem a politica agrícola, de pescas, de turismo, todas as outras e mais algumas que se possam identificar, mas, por favor, com estas minudências não.
Não se trata aqui de calar, mas de dar somente a importância relativa que estas coisas têm. Não servem de base honesta a qualquer campanha política. Não põem em causa qualquer política do governo.

04 julho 2007

Da vitalidade das nossas Urbes está dependente o progresso

O progresso, nas suas variadas e controversas vertentes, tem a sua origem nas cidades. Toda a experiência da humanidade nos diz que o povoamento disperso retira qualquer possibilidade de formação de massas críticas para os mais variegados fenómenos.
Salvam-se as actuais sociedades do espírito que havendo múltiplas formas de contacto entre os seus membros proporcionam, seja qual for o local onde se encontrem, uma comunicação e uma partilha nunca antes vistas. Faltar-lhes-á o contacto pessoal, uma vivência comum dos problemas imediatos, sobra-lhes um distanciamento de certo modo inultrapassável.
Maugrado na grande maioria dos aspectos que interessam ao desenvolvimento sócio-económico e cultural de uma sociedade nada se consegue sem uma certa aglomeração física das pessoas. Quando falamos de desertificação do interior é porque há uma progressiva perca de condições, de que se destaca a dimensão dos “ajuntamentos”, para nele operar o desenvolvimento:
Há uma diminuição do número de habitantes e/ou concomitantemente a sua dispersão pela paisagem; E paradoxalmente, e não tanto, há em simultâneo, por efeito do progresso exterior, um aumento da massa crítica que seria necessária para que se justificassem certos serviços, certos comércios, certas indústrias e, pior do que tudo, para que brotasse algo de novo, nem que fosse enxertado por estranhos.
Para haver a dita aglomeração física é mesmo necessário que não acho excessiva dispersão habitacional. É preciso haver ruas, praças, jardins, locais de encontro. Em tempos, na nossa superior ignorância, ou no nosso exacerbado egoísmo, achávamos uma prepotência inaceitável todas as limitações à construção por parte do municípios e de outras entidades públicas. Todos querem uma casa bem isolada, de preferência no cimo dum penhasco.
Os poderes públicos bem bradavam que o povoamento disperso aumentava o preço da acessibilidade, seja por caminhos, fios eléctricos e telefónicos, condutas de água e saneamento, afinal os custos directos deste luxo, mas não se fazia referência aos custos indirectos, aos efeitos no tecido social.
Os candidatos autárquicos lá ponham timidamente nas suas propostas eleitorais, copiando-se desavergonhadamente, mas sem intenção de mexer uma palha, que eram a favor do desenvolvimento de centros urbanos de dimensão razoável que pudessem comportar algum relacionamento e conforto “citadino”.
Pura ilusão, eles aprenderam que as pessoas dispersas são mais individualistas, mais influenciáveis, mesmo mais fidelizáveis. Têm uma menor noção de pertença a grupos, sentem-se menos envolvidas e responsabilizadas pelo que a sua fidelidade se deve mais à sua imobilidade intergrupal, o conservadorismo em todos os aspectos agradece.
O que agora se não dispensa é mesmo a mobilidade individual. Para nós já é igual se, para nosso interesse, tivermos que ir a 20, 50 ou 100 km. Assim não há cimento social que resista. Desvanece-se o espírito do lugar.
Os autarcas têm responsabilidades porque se sujeitam facilmente ao egoísmo reinante. Os bons exemplos do passado devem-se mais aos condicionalismos exteriores do que a opções conscientes e a saberes transmitidos. Por isso os Centros Históricos estiolam. Hoje a ligação à terra não existe, o que há são lugares com mais ou menos valor comercial.
Ao progresso interessaria que as pessoas se agrupassem mais, contactassem ao nível da vivência diária, cimentassem no lugar as suas relações, nem todas boas necessariamente, fossem mais livres, menos condicionados a abordar as suas opiniões, menos dependentes da imagem de perfil que um dia mais lhes agradou, abandonassem a hipocrisia de arrogar-se a propriedade de algo quando quase tudo é importado, até os valores o são.
No passado, bem ou mal, havia um cimento solidário, assente numa cultura tradicional partilhada, numa religião sempre presente e abrangente, um saber prático capaz de responder a todas as situações da vida real. Não era de todo mau manter deste passado o espírito de participação pessoal no colectivo.
Tudo isto está porém em declínio ou já feneceu. Da cultura popular ficou o folclore, da religião a fraca usança, do saber um desfasamento irremediável, mercê das mudanças operadas nos nossos modos de vida, da participação cívica uma caricatura, quando não uma clara aversão.
E é isto que nos faz duplamente ignorantes porque o somos e estamos convencidos do contrário. Somos ignorantes e ignorantes que o somos. E quando sabemos isto tudo, mais grave ainda, somos masoquistas. Atiramos culpas para cima de todos nós, insultamo-nos e humilhamo-nos.
Vejamos bem as coisas! Erramos, vimos a tradição pelos seus aspectos mais atávicos e prejudiciais ao progresso, vemos o progresso pelos seus lados mais banais e lúdicos. Repensemos, não nos envergonhemos de admitir que estávamos enganados.
O desenvolvimento das nossas terras não se fará por decreto, sem mudança na nossa maneira de ver o futuro. A aposta num futuro consistente é a alma que lhes falta e que só nós lhes podemos dar. Não podemos pensar nelas só por desenfastio, o que acontece enquanto a nossa máxima for só subir na vida, seja lá onde for, e não for viver numa sociedade solidária.
As visões egoístas não nos permitem viver o lugar, porque o associamos a atraso, vemo-lo afundar-se e não queremos ir com ele. Mas não há espiritualidade sem sítio onde nos agarrarmos ao chão. E a maioria de nós não tem a virtuosidade de fazer do mundo o seu lugar.
Só os emigrantes sentiam o que era esse andar desgarrado pelo mundo. Hoje a maioria de nós já aqui assim se sente. O mundo a sério dos emigrantes é agora o nosso mundo virtual em que nós vivemos e em que só nós contamos. Alheamos de tudo o que nos rodeia, ainda lhe não ganhamos afecto.
Pensemos também nos outros. Ponhamos aquilo que temos de melhor a contribuir para a dimensão e grandeza da nossa aldeia, vila ou cidade, cientes de que o futuro é na sua grande parte implacável e indomável pelas nossas fracas forças.
No entanto temos um futuro e por isso temos que dar as mãos, no que isto comporta de mentes, saberes, recursos, disponibilidades. E, se a nossa dimensão não chega, não sejamos mesquinhos e aliemo-nos àqueles que também nos podem deitar a sua mão.
É necessário redimensionar os concelhos, acabar com as freguesias sem dimensão mínima ou agrupá-las quando isso se justificar, definir centros privilegiados de fixação de actividades comunitárias, de serviços locais e estatais e de todos aqueles que, sendo de índole privada, vejam vantagem em aí se instalarem.
Bairrismos e espírito de paróquia dispensam-se. Massa crítica é imprescindível. Do lado da nossa má tradição está o fomento antecipado das divergências com justificações que não vêm a colher. Mas é tão só a aplicação da velha e absurda máxima de que, a morrer, morramos todos mas cada qual para seu lado.
Não podemos discutir a regionalização sem discutir as outras dimensões que lhe são inferiores: As Cidades, as Vilas e as Aldeias, onde ainda haja lugar para elas. Se não podemos ter umas, as mais pequenas, apliquemos a nossa força nas maiores. Só Urbes com vitalidade nos trarão o progresso e sem a expectativa deste não há regionalização que resista.

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

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Ponte de Lima, Alto Minho, Portugal
múltiplas intervenções no espaço cívico

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck
O mais perfeito retrato da solidão humana