20 março 2008

Menos menosprezo precisa-se!

As forças que se digladiam no PSD e que, segundo os mais optimistas, podem levar à sua desagregação são mentalmente comparadas por Meneses às forças contestatárias do tempo de Sá Carneiro. Não terão o mesmo poder, mas para Meneses convém-lhe derrotar inimigos fortes.
A realidade é manifestamente diferente. O passado das pessoas naquela altura era pouco valorizado até para não criar controvérsias e divisões que não interessava realçar. Hoje as pessoas têm um passado de que se não podem livrar sem terem uma razão forte para tal.
Ou uma pessoa assumiu há muito ser independente e apoiar os partidos segundo as suas opções e prática ou então o mais normal será ter-se colocado de um lado da barricada e lá permanecer, muitas vezes a contra gosto. A excepção será a pessoa definitivamente descrente e que adere a outro partido.
O que caracteriza a maioria dos membros de um partido é a apatia, pelo que é fácil a alguém que tenha palco mediático e seja hiperactivo afirmar-se sem que isso diga nada sobre o seu valor ou qualidade. Quando muito dirá do pouco valor dos outros.
Mas menosprezar o valor e a qualidade dos outros só porque não têm disponibilidade para aparecer nos meios aonde se afirmam os papéis políticos é desprezível. Afirmar-se criando o deserto à sua volta não foi a estratégia de Sá Carneiro. Este criou discípulos e até herdeiros lhe não faltaram.
Meneses não manifesta qualquer respeito pelos membros do PSD, pelos que têm valor próprio derivado do seu contributo social e político. Aqueles que aderem, que não pagam cotas e a quem nada se mais pede, senão votar nas directas só servem para descredibilizar o partido. Fracos por fracos deixe-se ficar com os que tem.

19 março 2008

Mais clareza precisa-se!

No seu percurso Filipe Meneses já conseguiu alguns objectivos:
1. Ocupou a zona central do palco mediático no que se refere à direita.
2. Tornou os seus contestatários figurantes de segunda e menorizou-os.
3. Marcou a agenda política do PSD com minudências em que os seus opositores se enredam, revelam as suas fragilidades e gastam energias.
4. Descredibilizou quem não se lhe opôs no momento certo e à falta doutro tema aproveita agora aquelas minudências para tirar ilações globais.
5. Criou um corpo de fiéis que acreditam num passeio triunfal por uma alameda de ignorantes e impotentes, súbditos e subservientes.
6. Deu a ideia que a distribuição de benesses passará por ele e não tem pejo em chamar invejosos àqueles que queria a seu lado.
Porém manifesta algumas fragilidades:
1. A truculência empregue na manifestação das suas ideias não esconde a borbulhagem que o ataca.
2. O alvo da sua linguagem continua a ser só o PSD.
3. A falta de definição do que é herança e rotura com o velho PSD, porque não chega fazer propostas radicais e dizer como era bom o passado.
4. A falta de um posicionamento nítido, que as pessoas percebam, entre a social-democracia e o liberalismo militante que mais sobressai em si.
5. A escolha clara de uma linguagem para se dirigir ao povo, que não o choradinho do esquerdismo ou o radicalismo da direita.
6. A escolha do sector social alvo a privilegiar: o rural, o suburbano ou o urbano, já que o corridinho das febras e das sardinhas já não atinge todos os sectores sociais.

18 março 2008

Menos capricho precisa-se!

O dirigente da oposição tem um enorme deficit de decisão definitiva. A sua hiperactividade remete-o para a tomada permanente de decisões. Quando os assuntos sobre os quais lhe cabe decidir são poucos, não tem poder, anda aos rodopios, simula sucessivas tomadas de decisão, sem se preocupar com o seu acerto, até parar em alguma versão definitiva, porque ele assim quer.
Não haverá problema para ele se um dia tiver que voltar ao assunto, dar mais uma reviravolta à questão, reerguê-la, tomar enfim outra decisão. Aliás poderá dizer que quase todos os assuntos foram já alguma vez motivo de decisão e o mundo não avançaria se não houvesse uma repensar das questões mais problemáticas. O problema está naquilo em que se mexe.
Filipe Meneses sente-se com capacidade para mexer em tudo, embora a sua aproximação à realidade seja feita unicamente com a ajuda das suas ideias gerais, das ideias dos seus modelos estrangeiros, com o seu próprio vazio e futilidade. Um bom líder não pode ser aquele que repele as ideias dos seus correligionários e se feche num casulo no qual germina as suas larvas que depois coloca no ambiente exterior a ver se sobrevivem.
Os meninos caprichosos procedem assim. Quando tem a possibilidade de ter um orçamento de Estado atrás de si são particularmente inventivos. Todos os dias têm soluções novas. E não resistem a pô-las a todas na praça pública. Que elas sejam contraditórias entre si não lhes interessa em particular. Que este modo de agir possa causar desconfiança ou implicar custos não recuperáveis não lhes interessa.
Os meninos caprichosos também se adaptam à democracia. Quando esta não tem força, fazem por realçar o seu papel de decisores, por se apropriarem eles da força, do poder. Quando a democracia impõe regras, só assumem a responsabilidade das decisões que têm sucesso, ofuscando a origem das outras. Só têm satisfação pessoal no que podem atribuir a si mesmos.

17 março 2008

Menos arrogância precisa-se!

A oposição desunha-se a procurar uma qualquer característica pessoal que possa atribuir a José Sócrates para o desacreditar. Vasculharam o seu passado, demasiado trivial para que tenha qualquer efeito a sua utilização como arma de arremesso. Acabaram por ficar pela arrogância, uma postura que na opinião dos seus críticos terá para com o povo miúdo, mas que a realidade manifestamente nega.
Era o que faltava querer que o primeiro-ministro fosse uma pessoa subserviente para quem quer que seja. As decisões do governo são quase sempre lesivas dos interesses de alguém sem que muitas vezes se não veja quem vai ganhar com isso. Quer dizer que este governo encontra sempre mais gente contra várias da suas medidas concretas do que quem as apoie.
Isso passa-se um pouco com todos os governos. Mas quando um governo como este procura conciliar os interesses do desenvolvimento nacional com o apoio aos menos favorecidos nem sempre obtém um apoio claro destes, até porque estes entendem normalmente que esse apoio ainda lhes não chega mas também não se ouvem porque não têm palco e visibilidade suficiente.
As decisões que um governo toma são a diferentes níveis e sofrem variadas contestações, são mais ou menos apuradas e quem as põem em causa sustenta mais ou menos as suas razões. O que não se pode dizer é que a dose de capricho que possa haver numa tomada de decisão se agravou com este governo, antes pelo contrário.
Quem necessita de ser menos arrogante é a oposição e particularmente certas das suas personagens, até porque a arrogância é um sentimento de carácter pessoal, que só por liberalismo de linguagem estamos a aceitar que se aplique a um governante, enquanto tal. Quem será mais arrogante que Paulo Portas? Quem o quererá mais ser que Filipe Meneses?

16 março 2008

Menos radicalidade precisa-se!

A radicalidade imposta à política nacional, em que as posições se extremam cada vez mais, tem como efeito imediato o estreitar da base de apoio de todos os partidos em presença que ambicionam deter o poder. Os outros, sem essa preocupação imediata, aparentam estar melhor de saúde do que nunca.
O abalo provocado nas certezas, ou pelo menos na capacidade de o governo conseguir levar avante as suas reformas, resultado em muito de uma oposição interna decrépita, quase imbecil, é de molde a ser necessária uma grande força e determinação do governo para o ultrapassar.
O abalo provocado na credibilidade da oposição, que já estava seriamente abalada pela inacção do seu governo anterior, resultado em muito de velhas guerras internas entre barões partidários, dificilmente terá recuperação porque o seu actual líder gosta mesmo de viver neste ambiente de bulício permanente.
Não se vê como Filipe Meneses vai conseguir meter algum tino naquela cabeça eternamente convencida que encontrou todas as verdades e que de forma constante procura ter algumas certezas. Já que não consegue juntar todas as tropas com certeza que com a sua ambição desmedida consegue que muita gente tenha a fezada e o apoie.
Não se vê como Filipe Meneses vai conseguir gerir a já pouca disponibilidade dos outros para o ouvir, para aceitar os seus golpes baixo, altos, de todo o género que dispara em todas as direcções à procura de que, seja com medo ou não, acatem a sua liderança, lhe dêem o cheque em branco, só com o qual sabe viver.

15 março 2008

Mais razoabilidade precisa-se!

Quase toda a gente fala de uma esquizofrenia colectiva, mas poucos são aqueles que aceitam a doença em si. Cada qual faz a comparação do seu próprio estado de saúde com o daqueles que lhe estão mais próximos e é normal concluir que, se não está melhor, decerto que não está pior.
Todos temos uma pressa imensa de obter um objectivo qualquer, indefinido, nunca alcançável e que portanto nunca nos dará aquilo que deste o berço ambicionamos, ter razão. Só alguns poucos, felizardos, não precisam de realizar os seus objectivos, que também os têm, para se sentirem com razão.
Alguns ainda menos conseguirão acertar nos objectivos que definiram para a sua vida e os vão realizando, adquirindo desse modo a razão que é a causa última da sua luta constante. Mas nunca terão descanso porque sempre estarão sujeitos ao apelo de mais ambição, mais ambição.
Isto de nos quererem impingir a ideia que temos de ser eternos insatisfeitos é um tremendo erro, maior ou menor conforme a sociedade em que nos inserimos e nos transmite essa ideia de trabalharmos incansavelmente em seu favor. Porque são quase todos uns cínicos, nada dispostos a cumprir pela sua parte, é uma mensagem que só tem como destino o outro.
A nossa saúde mental e a da sociedade exigem que consigamos aplicar nas nossas ambições um modelo de razoabilidade, que não é mais do que deixar de andar permanentemente à procura de ter razão, com a exigência esquizofrénica de que ninguém tenha mais razão do que nós.
Todos nós precisamos de objectivos na vida, mas os felizardos são, como atrás se disse, aqueles que não necessitam de os ver realizados para se sentirem com razão. Se todos pensássemos desta forma, a sociedade seria muito mais razoável para todos nós.

14 março 2008

O que pode fazer um político que não se preze

O nosso principal problema, visto por aquilo que se pode entender por senso comum, é o ritmo. A nós falta-nos ritmo a nível nacional, a nível local, a todos aqueles níveis que nós gostamos de deitar abaixo, nem que seja num nível como o futebol que já pusemos nos píncaros da lua. Digamos que se há níveis a que nos portamos bem, não acreditamos que seja por muito tempo.
O melhor será sempre puxar pelo ritmo, exigir sempre mais, assim nunca ficamos mal, não é por nossa culpa que as coisas não vão para a frente. Empreguemos um ritmo infernal, quem disser que não pode que se vá embora, quem não estiver disposto a esfarrapar-se que desapareça. A maioria dos políticos talvez pense que dar à língua a um ritmo assim convence alguém. E convence.
Político que se preze, se for do governo tem que estar calado que não nos vai pedir para sairmos do nosso ritmo que nós não queremos, os professores não querem, os médicos não querem, os magistrados não querem, ninguém quer, deixem-nos sossegados.
Político que se preze, se for da oposição tem que zupar neste ritmo ronceiro do governo, arre porra que não sai do sítio, não nos dá incentivos para andarmos a um ritmo mais acelerado, não dá estímulos a ninguém, nem a professores, nem a médicos, nem a magistrados.
Político que não se preze não se deixa levar pela demagogia. Porque é que isto acontece? Como é possível ter perspectivas tão diferentes conforme o local em que nos colocamos? Se a um nível nos parece haver um ritmo certo ele pode ser transferível outro nível? Como é possível encontrar o ritmo certo? Interessará ele a alguém? Podemos copiar o ritmo de um outro País?
Político que não se preza pede-nos mais empenho na laboração e menos na contestação a qualquer aspecto mais rigoroso. Político que não se preza dá sempre à língua a um ritmo que não agrada a ninguém. E não convence.

13 março 2008

As reservas do PSD já bolem

Está visto que a malta bem-pensante do PSD está bem colocada na vida e não está para se preocupar em demasia com a vida política, mesmo que dela dependam alguns dos seus tachos. Pensarão que já tiveram o seu tempo, que agora é ocasião para nova gente.
Esta questão podia ser vista sob dois aspectos, um positivo pois era bom que os velhos não ficassem toda a vida a entupir o acesso dos novos à ribalta, outro negativo porque um acesso desregrado provoca distúrbios e dá um espectáculo triste de uma multidão ululante à procura de tacho.
E isto perturba a malta bem-pensante do PSD, mesmo que a tal multidão ululante se resuma afinal a uma direcção tão truculenta que faz barulho por milhares. O problema é que esta nova gente está cheia de velhas manhas e vejam lá que já foi buscar a Salazar aquela velha fórmula de despedir o pessoal. Só querem o palco para si.
Eles querem criar um cenário em que tudo seja novo e eles sejam os maestros que possam experimentar todos os instrumentos e sons. Os outros são espectadores e esporadicamente serão chamados ao palco para compor o cenário. Até nova ordem têm que se manter calados porque todo o ruído é maléfico.
É necessário dar a ideia do seu interesse pela política e que ele assenta numa paixão desinteressada pela coisa pública. Mas eles têm que ter um tempo para pôr ordem na sua cabeça antes que pretendam pôr a ordem na cabeça dos outros.
A malta bem-pensante do PSD bem fala, mas é porque está esquecida das armas do jogo sujo, da chantagem emocional, da utilização dos sentimentos primários de pertença e de partilha. Esta nova malta está mesmo decidida a remexer no baú da história, a desenterrar sentimentos e fantasmas e a pôr toda esta gente a bulir.

12 março 2008

O veneno começa a aparecer à luz do dia

A malta bem-pensante do PSD deixou que Meneses se engalfinhasse em Mendes e tal como dois meninos truculentos chamaram todas as atenções sobre si. No fim da briga o que perdeu fugiu, o outro ficou dono do palco.
Estava visto que, se esses bem-pensantes gostavam pouco de Mendes, demasiado envolvido na baixa política, gostavam ainda menos deste febril navegante que quer recriar os tempos de indefinição em que surgiu a figura de Sá Carneiro a tentar dar um rumo ao partido e ao País.
Mas como é possível esta gente ter sido assim apanhada se não há nisto surpresa? Por comodismo, porque ninguém com valor está para se sujar na praça pública perante políticos deste cariz?
Este novo homem do leme começa a criar os primeiros enjoos mas a sua estratégia é premeditada. Quem se não sentiu bem pode já saltar do barco. O facto de a realidade ser diferente da dos finais dos anos setenta não o preocupa minimamente porque Meneses se convenceu, como médico já desclassificado, que, havendo os mesmos sintomas se deve aplicar o mesmo tratamento adoptado noutro tempo. Tanto evoluiu a medicina para nada.
Os apoiantes de Mendes estão órfãos, como órfãos ficaram os que apoiaram os dirigentes anteriores a Sá Carneiro. Os bem-pensantes são agora convidados por Meneses para tirarem da brasa a sua sardinha enquanto vão a tempo. Não duvido que alguns vão provar do veneno.

11 março 2008

Os comunistas, a vida partidária e o ensino

Os comunistas andam a tentar afectar a vida partidária. As arruaças que fazem à porta das sedes socialistas, e mesmo que seja noutros locais onde os dirigentes socialistas se dirigem, só dizem da forma miserável para que querem que descaia a vida política.
Os comunistas não são capazes de aprender com os erros do passado. Não é a sua votação que lhes permite exigir alguma inflexão na política definida pelo governo nesta legislatura. Mas poderão manifestar o seu desagrado, só que há outras formas mais democráticas de o fazerem sentir.
Os comunistas vêem sempre os socialistas como a barreira que necessitam de deitar abaixo. Se os socialistas estão no poder tentam fazer-lhes a vida negra, convictos de que tratam melhor com um Filipe Meneses qualquer do que com quem tem uma ideia coerente e moderna para Portugal. Uma ideia socialista que privilegia a liberdade, a primeira ideia que eles põem em causa.
Porque os comunistas não negoceiam com ninguém. O seu dirigente Nogueira nos sindicatos de professores é que dirige, controla e orienta todas a acção comunista no sector mais vulnerável do Estado, a educação. Que apareça alguém que tenha sido ouvido e que se não tenha deixado somente arrastar por uma acção não apropriada para discutir o que está em causa?
Os comunistas servem-se destes “inocentes” professores para criar um clima de instabilidade, em que o efeito prático de contribuir para a criação de um corpo de privilegiados lhes não interessa. Para eles o importante é não permitir que a ensino estabilize, conseguir que as ideologias continuem a influenciar o ensino, manter uma forma de financiamento num grupo rico.

10 março 2008

A invocação dos mortos na ajuda aos vivos

Um morto deixa sempre uma herança. Ao morrer atrás de si deixou uma vida, um percurso, ideias mais ou menos avulsos, mais ou menos coerentes, mais ou menos consistentes. Um morto não tem porém a versatilidade de um vivo para sabermos a sua ideia sobre um aspecto qualquer da actualidade.
Como o morto está morto para todos os efeitos, no aspecto das ideias não há herdeiros que se possam arrogar do direito de o ser, mesmo que haja quem procure estar mais próximo do procedimento que o morto adoptaria se fosse por acaso ainda vivo. Então no seu passado temos que procurar a situação mais parecida com a actual e ver qual a atitude que o morto tomou.
Pode ter sido no princípio, no meio ou no fim, mas a verdade é que há sempre uma décalage que o próprio, se fosse vivo, se encarregaria de gerir e que nós só por aproximação poderemos imaginar. Como é evidente nunca poderemos estar seguros de ter uma interpretação coincidente.
Os mortos invocam-se para nos dar razão, o que pressupõe que consigamos convencer os outros de que a nossa maneira de ver é a mais correcta. Mas os mortos também se invocam para nos dar força, o que é uma manifestação de confiança. Quem invoca os mortos para lhe dar força fica sempre a ganhar em relação a quem os invoca para ter razão.
Os comunistas invocam Cunhal para lhes dar força. Santos Silva invoca-o para lhe dar razão. Mas Santos Silva ainda cometeu outro erro. Colocou este sacripanta do Nogueira ao lado de Cunhal. Foi a maior ajuda que lhe podia ter dado. Ter Cunhal ao seu lado sem necessidade de provar que ele lhe daria razão vai-lhe afectar positivamente o ego.

09 março 2008

A política é feita também de afectos

A política é feita de afectos, de causas e das pessoas que na nossa opinião as corporizam e estamos prontos a defender. Tudo isto deve ser obtido no fim de um processo de observação e análise a que devemos submeter a realidade. Mas estamos sempre em confronto com pessoas que não se dão a esse trabalho ou só se preocupam em obter argumentos a favor das suas ideias já pré-definidas. O diálogo torna-se difícil.
Pior ainda quando estão em causa posições de poder. Aí poderá haver negociação e se todos apelam ao diálogo é evidente que se não querem ficar por aí. Daí não ser correcto acusar alguém de falta de diálogo quando é justo termos objectivos de convencer ou forçar alguém a ceder em algum aspecto.
Por isso nós podemos dialogar e fazê-lo com base apenas nas nossas ideias ou sem estarmos a negociar pensarmos naquilo que faríamos se detivéssemos algum poder. A análise do percurso político que desejamos para o País, das ideias que vistas de um ponto de vista abstracto estamos decididos a defender ou daquelas que vistas de um ponto de vista concreto verificamos ser possível implementar no País determinarão o nosso posicionamento.
De qualquer modo quando há empenho intelectual nosso, quando verificamos que as resistências dos outros também são de natureza afectiva é perfeitamente legítimo e claramente responsável que nos empenhemos de um modo afectivo na defesa das nossas convicções.

08 março 2008

Uma luta justa, a da Ministra

Melindrados, feridos ou mesmo a sangrar os professores tem que abandonar a ideia de que são um corpo especial de funcionários públicos, com privilégios especiais, horários de trabalho mínimos, férias máximas, remunerações avantajadas. Os professores não são mais pagos para serem os agentes de defesa da ideologia do Estado. Afinal para quê o Estado precisa deles se só transmitem má educação e maus princípios.
Esta visão de conjunto, resultante da permissividade com que os professores em geral, que se diferenciam deste paradigma mas delegam a sua representação em gente de má índole, não poderá ser generalizada. Porém ninguém gosta de perder benesses e se alguém lhes diz que essas benesses são direitos está normalmente inclinado a deixar-se advogar. Esta atitude passiva ou de Maria vai com as outras não é nada inocente.
A Ministra da Educação tem sido particularmente dialogante, sendo certo que ela possui do seu lado o apoio da grande maioria da população que, por mais respeito e gratidão que possa ter pelos professores em geral, não se deixa arrastar por atitudes sentimentais quando o que está em causa não é nada daquilo que os manipuladores pretendem. Os professores é que andavam enganados sobre qual o lugar que lhes cabe na sociedade.
A Ministra luta por um melhor ensino, pela construção de condições para que ele se processe melhor, que hoje sem disciplina e organização, sem empenho e colaboração não há avanço que persista.

07 março 2008

Um professor nunca mais será visto com os mesmos olhos

As lutas que os professores desenvolveram no período democrático da nossa vida colectiva não foram de modo a se verem privados de uma certa sacralização que sempre os beneficiou. Antes do 25 de Abril de vez em quanto lá havia um professor vítima da política salazarista de controlo absoluto do ensino desenvolvido na escola. A maioria calava-se.
O professor, fosse pago por quem fosse, era visto como o portador de um saber que era essencial para que nós progredíssemos. Beneficiava sempre de um sentimento afectivo positivo mesmo quando as circunstâncias da vida nos levavam a aceitar mal a escola. Os 1750 Escudos que um professor primário recebeu durante tantos anos eram uma referência para todas as outras profissões ditas intelectuais e não se destacavam delas como hoje.
A ligação que se criou nesses tempos entre alunos e professores genericamente ainda hoje se mantém. A mais íntima será com os professores do ensino primário já que o ensino era geralmente assumido por um só professor durante pelo menos um ano, mas muitas vezes durante mesmo os quatro anos de escolaridade.
As lutas que os professores foram desenvolvendo permitiram-lhes sem grandes custos alterar significativamente o seu estatuto de modo totalmente descabido em relação à maioria dos outros sectores profissionais. Beneficiaram do alargamento do ensino a todas as camadas sociais, assenhorearam-se da condução da política educativa, entraram em autogestão.
Mas os professores não têm sabido ser humildes, não tem sabido ser solidários com a restante população, não tem sabido ser leais para quem lhes confiou uma tarefa tão nobre e daí a dessacralização que se está a operar e que vai levar a que um professor nunca mais seja visto com os mesmos olhos de antigamente.

06 março 2008

Tudo por respeito e por gosto

Os professores que se têm integrado nestas últimas manifestações espontâneas/programadas dizem-se vítimas de uma falta de respeito pelo seu papel social. Na realidade o valor desse papel deve ser avaliado sob vários ângulos e tem que ser admitido até um papel negativo, que a escola seja hoje um factor de excessiva diferenciação social e até de exclusão.
O papel social do professor em abstracto é relevante mas está hoje longe de corresponder ao investimento que é feito no ensino, seja por via do Estado ou do orçamento familiar. É perfeitamente legítimo que o Estado assim como os particulares reavaliem esse gasto e os professores portugueses têm que se convencer que isso não é para agora apenas, mas terá que ser permanente e para sempre.
Os professores não gostam que não gostem deles como se fosse obrigatório gostar. Os professores têm conseguido manter bem longe da escola essa possibilidade de serem contestados, essa avaliação de qual afinal a valia do seu trabalho. E tomavam tudo isso por respeito e por gosto. Tantos anos a viver numa redoma, num mundo fechado levou-os a serem melindrosos e quando não preguiçosos.
A falsidade tem que ser afastada da escola. Uma falsidade que é verdade não está a ser posta em causa pelo laxismo que é recomendado na avaliação dos alunos. Mas isto é a um outro nível, que terá também que ser alterado por outras vias. A falsidade que se vive na escola a nível de responsabilidade ainda está por ser posta a nú.

05 março 2008

Veneração e recompensa

Muitas vezes mais valia estar calado. Eu não falo contra o direito de qualquer um de nós de falar. Mas quando se quer atingir um objectivo conjunto com outras pessoas é natural que uns ajudam ao falar, outros prejudicam claramente. Por alguma coisa há líderes, porta vozes, assessores de imprensa e até outras mais modernas para escolher o sítio, o que se diz e a quem se diz.
Os professores que se têm integrado nestas manifestações espontâneas/programadas são de dizer coisas que não deviam, aparecem como pessoas que por qualquer coisa se melindram, que se acham acima de quaisquer críticas, que querem veneração e recompensa.
Os professores não se acham funcionários como outros quaisquer, não aceitam que são funcionários embora seja no desempenho duma função que consiste o seu trabalho. Para se ser professor seria bom mas não é necessário ter espírito de missão, debaixo do qual muitos se querem acobertar. Entre os outros funcionários públicos há muita gente que dá formação, que prepara os seus companheiros melhor que no ensino para a execução das suas tarefas.
Os professores não gostam que não gostem deles como se fosse obrigatório gostar. De certo que aos alunos não se lhes pode dar o poder de gostar ou não do professor, porque lá se iria a disciplina, mas é um desplante tremendo querer que os outros sectores sociais, os superiores hierárquicos, o governo gostem dos professores que temos.
Os nossos professores não sabem viver na rua como professores e agora que baixaram ao alcatrão das cidades, trazem à baila assuntos despropositados, põe em causa aquilo que é suposto não interessar abordar neste ambiente, aquilo que devia estar reservado para ser discutido em órgãos próprios de gestão e orientação pedagógica do ensino.
Estes professores querem-se atribuir uma importância que só os regimes que apostam em fazer o controle ideológico dos seus alunos lhes dão. Eles bem sabem que já hoje a sua importância é menor, perante o ensino modular, o ensino via Internet, e será cada vez menor perante a expansão de instrumentos de ensino que não exigem uma mediação tão constante e prolongada, quando muito um leve acompanhamento chega.

04 março 2008

Mediação não se vê, mas clarificação vai havendo

No programa Prós e Contras foi proposta uma mediação. Não haverá dúvida que esse caminho podia ser seguido sem perca da dignidade de ninguém, mas a verdade é que faltará ainda muita distância para que isso seja possível na sociedade portuguesa, onde é pela crispação que se faz a mobilização das tropas favoráveis contra as inimigas. Meneses, o PCP, os sindicatos andam a juntar tropas, não andam a esclarecer o povo.
Numa sociedade em que se sabe que o demasiado legalismo é inoperante, mas mesmo assim se exige que todas as garantias e mais algumas estejam estipuladas na lei, é difícil fazer justiça por acordo entre as partes e o que se passa na política é só um aspecto deste excessivo rigor na defesa de posições próprias que dá origem a um imobilismo revoltante.
Os últimos desenvolvimentos na discussão do problema do ensino não levarão à mediação mas já vai havendo uma clarificação nas posições assumidas quer por grupos de interesse, quer por interessados, quer por técnicos, até mesmo alguns políticos se têm visto na necessidade de intervir para que não se deixe andar e depois a sociedade venha a pagar por isso.
É hábito tentar aproveitar as divergências de opinião entre políticos do mesmo partido, mas isso só faz sentido se as opiniões forem de pessoas competentes para o efeito. E neste caso é legitimo que sejam invocadas essas opiniões. São várias as que no PSD se vêm agora afirmar contra esta aliança espúria de Meneses & Nogueira, essa firma porreira.
No PCP não há divergências mas o Jerónimo já veio dizer que não vai à manif, não viesse a ter que dar um beijo ao Filipe e andar de braço dado com a direita. Ele que tão bem recebido foi em Anadia não deveria retribuir desta maneira, mas é lá com ele.

03 março 2008

Porque estas reformas são mais formais?

O interesse político imediato está a baralhar os dados desta questão tão profunda, tão marcante, tão decisiva para o nosso futuro. Ouvi ontem dizer que uma falha desta reforma que o governo tem em marcha é não se discutir o conteúdo e só se preocupar com os aspectos formais.
O problema é que muitos dos aspectos formais desta reforma já há muito estão identificados como a causa pela qual não passam outras tentativas que já têm sido lançadas de alterar os aspectos substanciais do ensino. Esta alteração é nomeadamente formal para que os aspectos formais não impeçam uma verdadeira revolução a fazer no ensino.
Uma intervenção efectiva da sociedade, uma participação interessada, mas esclarecida, dos agentes económicos, serão mais ou menos eficazes se no aspecto formal forem correctamente definidos os seus limites. Não há qualquer eficácia numa intervenção deste tipo que não passe pela presença de pleno direito nos órgãos de decisão das escolas.
A gestão dita democrática das escolas patrocinada pelos sindicatos comunistas é uma situação anómala a nível dos organismos do Estado. Na sociedade civil não se permite que quem paga não oriente, num organismo público é o Estado que deve definir a base legal em que assenta o seu funcionamento e em casos como o ensino é perfeitamente legítimo que todos os interessados participem nesse funcionamento, sem nunca se chegar ao ponto a que se chegou de que só mandam os que têm que cumprir.
Dizer que os professores estariam sempre prontos a colaborar numa verdadeira reforma centrada nas questões que têm por base o aluno é uma falácia tão grande como pretender pôr um restaurante a funcionar sem a estrutura física e sem definição das funções de cada cozinheiro.
A organização, a disciplina, a responsabilidade e a liderança são hoje a base do sucesso em qualquer domínio da actividade humana. Embora possam defender certos direitos dos professores, os sindicatos não podem ser mais os definidores da política de ensino, nem detentores de qualquer poder que possa sabotar todas as legítimas orientações dos órgãos superiores de gestão.
Para que será esta Meneses & Nogueira, uma firma porreira?

02 março 2008

Por um ensino moderno e sem angústia

Os sindicatos arriscam aqui e agora tudo. Não haverá apelo, seja dos pais, do Presidente da República, seja de quem for que os faça parar. Os sindicatos querem readquirir uma clientela que vinham perdendo. Assentaram toda a vida democrática o seu poder sobre o domínio objectivo dos centros de decisão no sector do ensino e perdendo-os ninguém mais lhes vai dar importância.
Os sindicatos puseram-se numa encruzilhada e não vão sair dela com dignidade. A sua acção tem sido nefasta, corrosiva, mais preocupada em destruir os pressupostos ideológicos em que assentava o ensino antes do 25 de Abril do que em contribuir para a definição de outros princípios que devem servir de base para um ensino moderno e sem angústia.
A não satisfação das pessoas deve-se aos problemas económicos que afectam pais, alunos e futuros integrantes do mundo do trabalho. Mas os sindicatos ideologicamente conotados não aceitam que a economia seja claramente posta no centro do problema, não aceitam que os alunos sejam preparados em função do papel que lhes pode ser atribuído na sociedade.
Resolver aqueles problemas económicos para os sindicatos é resolver a velha questão da atribuição do poder a um partido único, capaz de pôr a economia a funcionar de pernas para baixo. A verdade é que, quando isto já não passa pela cabeça de ninguém, surge esta união contra natura entre Meneses e Nogueira que pretende que tudo fique na mesma no ensino para que aquele sonho comunista ainda seja possível.
Aquelas senhoras que aparecem na televisão a defender a sua dignidade de professores empenhados foram convencidas que todas as culpas pela ineficiência do sistema lhes foram atribuídas e que se devem manifestar por isso. Nem isto é verdade, nem ninguém pôs a questão neste ponto. Alterar o sistema é muito mais do que passar atestados de estupidez a alguém.
Ficam-se pelo Meneses & Nogueira, uma firma porreira!

01 março 2008

Meneses & Nogueira, uma firma porreira!

Esta união contra natura entre Meneses e Nogueira que pretende destruir a reforma que o PS quer fazer e de que o PSD nunca foi capaz, contribui para a manutenção de um estado parasitário de muita gente que do ensino só faz uma garantia de uma boa reforma e de um vencimento condizente.
A educação é o sector que mais ministros tem tido depois do 25 de Abril, é o sector mais contestado, que mais insucesso revela entre todos os sectores de actividade a que se dedicam os portugueses. Haverá outras razões, do foro económico, do foro familiar, da falta de uma base de apoio, mas não há dúvida que os professores têm-se habituado a navegar incólumes nestas águas, sem aceitarem as responsabilidades que manifestamente lhes cabem.
A educação é o sector que mais licenciados emprega e em que pode haver um maior entendimento pela uniformidade de habilitações e de modos de vida, maior facilidade de circulação de informação entre os seus agentes. A educação é o sector que deveria estar na vanguarda da modernidade virado única e exclusivamente para o aluno, a sua razão de existência.
Da escola espera-se uma adequada socialização da juventude, a sua preparação para os desafios do futuro, para que se não sinta desadaptada numa civilização concorrencial, para vir a, se necessário, fazer várias reconversões durante a sua vida activa.
Os professores dão uma imagem de imobilismo que contradiz tudo o que seria de esperar. Os professores deturpam a informação, não servem de exemplo para alguém, inclusive para os alunos. Os professores deixam-se manipular por outros professores sem escrúpulos que dominam sindicatos e outras associações com uma perspectiva somente economicista.
Depois do Nogueira surge agora com o maior desplante o Meneses. Meneses & Nogueira, uma firma porreira!

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

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Ponte de Lima, Alto Minho, Portugal
múltiplas intervenções no espaço cívico

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck
O mais perfeito retrato da solidão humana