19 fevereiro 2008

10 - Que política para Ponte de Lima?

O sector bancário é indispensável em qualquer economia de mercado em que a acumulação de dinheiro é exigida pelo nível de investimentos que se impõem. O sector bancário é indispensável em qualquer economia de mercado em que a intermediação entre depositantes e investidores tem que ser segura.
Mas o sector bancário, quando desregrado, é um sector rapinante, que quer absorver todas as economias particulares, extrair lucros de todos os empréstimos que se realizem, controlar toda a massa monetária. Da maneira como está representado em Ponte de Lima o sector bancário dá-nos um espectáculo deprimente de vermos um ricaço em cima de um desgraçado tirando-lhe da carteira os últimos tostões.
O sector bancário não investe em Ponte de Lima e não dá condições especiais a quem cá quer investir. A depressão que tomou conta da economia limiana só tem como justificação a sangria dos seus recursos que é feita pelos bancos, pelas distribuidoras de bens, pelos fornecedores de materiais e serviços.
Em Ponte de Lima só resta o rendimento mínimo, seja sob a forma de juros mínimos, empregos mínimos, margens de lucro mínimas, exportação de mão-de-obra de habilitação mínima. Só falta falar da política mínima.

18 fevereiro 2008

9 - Que política para Ponte de Lima?

Quanto mais desenvolvida economicamente é uma sociedade maior é o valor atribuído a um serviço. A matéria-prima, os utensílios utilizados, mesmo sendo muito semelhantes podem dar origem a um produto que é fornecido a um preço muito diferente. Isto não se passa na indústria, passa-se um pouco no comércio e mais no serviço de hotelaria. Quando maior a componente de trabalho humano e de disponibilidade de serviço houver mais caro este é.
Se verificarmos que o preço de um café pode quadruplicar em estabelecimentos do mesmo nível de exigência em diferentes países e mesmo duplicar dentro de um país como o nosso em estabelecimentos similares, concluiremos que é o nível geral da economia no território circundante que influencia estes termos de troca.
Quando se investe em serviços é nos meios mais desenvolvidos que isso se faz. Os craques da bola investem hoje muito em restaurantes mas não os vêm construir a Ponte de Lima. No entanto em Ponte de Lima é necessário que se coma e por isso têm que ser os autóctones a investir nesse sector, mesmo aceitando rendimentos mais reduzidos de que outros, aqueles que o podem fazer nas grandes cidades com a expectativa de ganhar mais.
Se já ouve um tempo em que havia procura de Ponte de Lima para investir em novos serviços a verdade é que hoje se verifica um retrocesso evidente. Algumas empresas fecharam as suas delegações cá. Outros retraíram-se. Perante outras hipóteses em cidades mais dinâmicas e em que o serviço tem outro valor esses investidores deixaram de pensar em para cá vir.
Vamos continuar a ter maus serviços porque, a não ser o sector bancário, ninguém mais vem para cá investir. E vamos continuar a ser economicamente deprimidos.

17 fevereiro 2008

8 - Que política para Ponte de Lima?

O sucesso das pessoas na sua vida depende de muitos factores e há muitos analfabetos que conseguiram reunir um grande património. Na construção civil, nos transportes, no comércio, na restauração, numa incipiente indústria se conseguem criar grupos económicos a partir de uma base em que a instrução não foi o factor determinante.
Hoje porém acredita-se menos nestes milagres e é cada vez mais difícil ultrapassar certas barreiras que se colocam no acesso a certas profissões e actividades. Se é certo que dinheiro chama dinheiro, não há dúvida que, se não houver know-how, se terão que encontrar os colaboradores certos para vingar na maioria das actividades que possam trazer lucros.
Hoje o valor de uma pessoa no mundo da economia mede-se pelo valor que através da sua actividade ou conhecimento é capaz de acrescentar ao objecto do seu trabalho. Se uma pessoa aprendeu, seja onde for, na escola ou na vida, a como tornar mais valiosa a mercadoria que lhe é entregue, merece e normalmente é melhor remunerada.
A tão fraca mais valia acrescentada em Ponte de Lima às mercadorias que por cá transitam ou se fazem deve-se muito à fraca habilitação da sua população. Não que uma malga de marmelada feita por uma doutora valha mais do que uma outra feita por uma campesina, mas sim se aquela conseguir dar-lhe uma pureza superior, o que em teoria estará ao seu alcance.

16 fevereiro 2008

7 - Que política para Ponte de Lima?

Só com a Escola Preparatória de Ponte de Lima, as salas de Telescola e a Escola Técnica, depois Secundária, de Ponte de Lima começou a haver possibilidades de acesso ao ensino público para a grande maioria da população limiana.
Numa altura em que a Escola Técnica de Ponte de Lima poderia começar a dar os seus primeiros frutos, a destruição do ensino técnico levou à uniformização do ensino. A quase todos os possíveis técnicos que frequentaram esta Escola se abriram as portas do ensino como mestres de trabalhos manuais ou oficinais e perdeu-se o seu objectivo inicial.
Mais tarde seria aberta uma Escola Profissional Agrícola que, perante o panorama de declínio da produção agrícola também haveria que repensar a sua função. Primeira derivou para as actividades, como a hotelaria e a gastronomia, de algum modo ligadas à actividade primordial, mas no presente a intenção é a integração de novas e distintas actividades no seu curriculum.
A um outro nível a Escola Superior Agrária tem os mesmos problemas e terá que se adaptar às novas exigências. A Universidade Fernando Pessoa, porque tem uma base alargada no Porto, tem feito uma adaptação mais fácil e rápida às exigências do mercado local, extinguindo e criando novos cursos.
Se analisarmos a empregabilidade das pessoas que saem dos vários ramos de ensino verificamos que é muito fraca se considerarmos os empregos mais favoráveis que potencialmente lhes poderiam ser facultados. Seria de exigir muito mais às pessoas mas seria de exigir muitíssimo mais aos potenciais empregadores.

15 fevereiro 2008

6 - Que política para Ponte de Lima?

Hoje Ponte de Lima é um concelho atravessado por boas vias de comunicação percorridas por centenas de meios de transporte, o que falseia um pouco a sua real actividade. Já se passa nos outros meios de transporte aquilo que vai ser mais evidente com o TGV: Vamos ficar a ver passar os comboios. Até os aviões para e de Pedras Rubras nos gostam de sobrevoar.
Teoricamente a nossa situação é privilegiada e na prática sê-lo-ia, não fora tudo ter o seu momento para ser aproveitado e isso não foi feito. Um porto de mar a vinte quilómetros, duas fronteiras a trinta e quarenta quilómetros, uma cidade mais poderosa a outros trinta quilómetros. No centro Ponte de Lima cujo papel deveria ter sido aproveitar esta situação e não se deixar absorver pela força atractiva desses pólos de desenvolvimento.
Haverá os seus culpados para que as coisas corressem como, no nosso tradicional pessimismo, sempre esperamos que viesse a ser. A inexistência de forças económicas poderosas, que não na área da especulação fundiária, impediu iniciativas que poderiam ter dado a Ponte de Lima uma centralidade decisiva nas áreas de serviços, de abastecimentos, de pequena produção.
As forças políticas, particularmente as que têm exercido o poder em Ponte de Lima, têm sido no geral favoráveis àquelas forças económicas que vivem da especulação fundiária, e isso também têm constituído um factor negativo na instalação doutras actividades, têm sido um entrave ao desenvolvimento.

14 fevereiro 2008

5 - Que política para Ponte de Lima?

Hoje Ponte de Lima é um concelho incaracterístico. A construção de casas nos lugares mais remotas e a maior altitude disfarça a desertificação que nessas áreas se está operando a bom ritmo. As freguesias serranas já quase não tem equipamentos de iniciativa privada e os de iniciativa pública seguem pelas mesmas razões o mesmo rumo. Mesmo assim só neste aspecto Ponte de Lima não estará tão mal como os outros concelhos do interior alto-minhoto.
Por outro lado na sede do concelho e nas freguesias limítrofes a construção vai de vento em popa e só os problemas no sector, que se detectam um pouco por todo o mundo, vão levando as pessoas a refrear a sua vontade de apostar nessa área como zona de habitação e de investimento, mesmo que não produtivo e só especulativo.
É verdade que não seriam expectáveis estes fenómenos, se bem que houve uma política municipal que lhes foi favorável. Dificultou-se a construção nas aldeias e deram-se facilidades na Vila mas contraditoriamente é a facilidade de transporte que aqui como noutras regiões tem levado à centralização. A única política municipal que poderia ter contrariado esta tendência seria o incentivo à criação de pequenos centros urbanos dispersos.
Desiluda-se quem pensa que tudo vai ficar na mesma ou que o Estado pode fazer tudo a gosto de cada um. Mas ao Estado, agora mais através do poder local, deveria caber controlar os excessos, usando racionalmente os seus meios, localizando convenientemente os equipamentos públicos, ordenando o território, desincentivando o povoamento disperso e favorecendo o povoamento ordenado nos tais centros urbanos de que se destacam desde já Freixo e Gandra, mas em que se poderia incluir mais dois ou três.

13 fevereiro 2008

4 - Que política para Ponte de Lima?

As pessoas mais activas de Ponte de Lima quiseram que os seus filhos estudassem mas era terrivelmente difícil, dispendioso, só tarde e más horas houve ensino secundário oficial. Só com a reforma Veiga Simão e a instalação da Escola Técnica de Ponte de Lima sectores mais vastos da população tiveram acesso à escolaridade que até aí era privilégio das capitais de distrito.
Os que puderam abandonaram a tempo a actividades tradicional da família e foram para outros sectores em especial o funcionalismo, cujas necessidades os residentes nunca conseguiram sequer satisfazer. Ponte de Lima recebeu um fluxo de pessoas de proveniências variadas para se ocuparem do seu ensino, dos órgãos da administração central cá estabelecidos, de certos serviços mais especializados.
O comércio estagnou, uma estratégia defensiva apoderou-se de quase todos os ramos de actividade. Numa certa fase o turismo de habitação ou quejandos pareciam constituir uma panaceia, já que a agricultura ia subsistindo à base de subsídios é certo, mas era o fundo de garantia para as outras actividades. A subsidiocracia instalou-se.
Os homens dedicados à agricultura tiveram sempre dois grandes escapes na emigração e na construção civil, que nos anos sessenta serviram mesmo para os que foram experimentando dificuldades nas suas tradicionais actividades.
Perante um presente incaracterístico e um futuro pouco prometedor, muitos viraram-se para o passado, deslumbraram-se com aquilo que sempre lhes tinha passado à margem, uma vivência com certa harmonia mas também com muita subserviência. Um saudosismo sem novas ideias tomou conta da intelectualidade e a política aproveitou-se disso.

12 fevereiro 2008

3 - Que política para Ponte de Lima?

A base da economia concelhia foi durante séculos a agricultura. Embora fosse uma agricultura de subsistência, que nunca assumiu um aspecto mercantil significativo, devido à pequena dimensão da propriedade, conseguia satisfazer as necessidades primárias de uma população pouco ambiciosa.
Sempre houve aquele tipo de actividades complementares como a moagem, lagares de azeite, alambiques, serrações, carpintarias, tanoarias, ferrarias, sapatarias, costurarias, alfaiatarias, construção civil e principalmente na sede do concelho havia comércio de tudo um pouco.
Embora estas actividades ocupassem muita gente nem sempre constituíam por si só a ocupação única das pessoas, que por vezes se dividiam sazonalmente ou mesmo no dia a dia por mais do que uma. Mesmo os empregados do Estado procuravam complementar os seus rendimentos.
A emigração sempre foi o escape maior para os momentos de crise. Na década de sessenta atingiu tal dimensão que passou a desempenhar um papel dinamizador mas sem que chegasse a impulsionar outras actividades, como seria desejável. Durante muito tempo os emigrantes ainda sonhavam voltar a ser lavradores, a dedicarem-se a um pequeno ofício ou comércio.
A evolução, a integração em espaços económicos mais vastos levaram à deterioração desta certa harmonia, à destruição dos pequenos misteres, sem que aqui se criassem alternativas significativas. O poder político limitou-se a consagrar o passado como se mesmo esse conseguisse ser mantido.

11 fevereiro 2008

Qual o papel de que Alegre anda à procura?

Manuel Alegre sabia que não podia criar uma tendência dentro do Partido Socialista. Manuel Alegre sabia que dentro do Partido Socialista, que ele acusa de governamentalização, não tem lugar relevante porque de forma acertada a actual direcção tudo tem feito para que o Partido não seja uma correia de transmissão do Governo, mas também nele não interfira inopinadamente.
Manuel Alegre sabia que a estratégia presidencial era difícil e correu contra outro dinossauro num papel caricato, mesmo que menos caricato o dele do que o de Mário Soares. Manuel Alegre sabe que os votos que lhe deram não resultam de qualquer ligação especial ao povo, qualquer compromisso consistente com o povo, mas de uma conjuntura atípica na política nacional.
Manuel Alegre sabe que o povo lhe não deve nada que não esteja já pago e mais que pago. Manuel Alegre sabe que não deve nada ao povo, o povo não o tornou fiel depositário de nenhuma ideia valorosa, não espera dele qualquer análise inteligente da realidade, embora constantemente ele se arrogue de um valor e de uma representatividade que não tem.
Manuel Alegre sabe que sempre seria um escape nas eleições presidenciais, mas que gostaria de ter desempenhado sozinho esse papel de cavaleiro solitário contra o terrível Cavaco Silva. Manuel Alegre sabe que Mário Soares o tornou num segundo escape. Também este está pago e bem pago e o povo já pôs de parte de vez, e ainda bem, os “D. Sebastião”.
Manuel Alegre sabe que se quer vingar porque estudou bem a figura que queria e não lha deixaram fazer. Mas Manuel Alegre anda permanentemente à procura da figura que melhor lhe assenta. Manuel Alegre vai pensar melhor a figura que vai encarnar, sem perder o seu ar aristocrático de homem das letras que tem relutância em misturas com a ralé.
Manuel Alegre só se veria bem encarnando qualquer figura majestática mas não quer arriscar tudo, não vá ela cair na lama, no escárnio e mesmo no ódio de todos os socialistas, não sei quem mais lhe possa dar algum valor.

10 fevereiro 2008

2 - Que política para Ponte de Lima?

Não vale a pena estarmos a discutir esta questão de sermos ou não a autarquia mais atrasada do País. Não valeria se a considerássemos uma questão de fé. Mas também não vale porque objectivamente o é. E não cairá os pergaminhos a ninguém por aceitar que assim é.
O nosso atraso é efectivo se tivermos em conta que a nossa situação geográfica é extremamente favorável, que temos mão-de-obra bastante, temos um coberto vegetal capaz de assimilar, disfarçar os efeitos negativos de algumas indústrias menos convenientes da área química.
O nosso atraso é efectivo se tivermos em conta os índices de aproveitamento escolar, a média da escolaridade dos nossos habitantes, a pouca preparação técnica do nosso tecido laboral, a insipiência, para não dizer idiotice, ingenuidade e a vulgaridade, mas a que não falta a vaidade, a arrogância e a sobranceria do nosso tecido empresarial.
O nosso atraso é efectivo porque grande parte de nós continua a ter de se deslocar para fora do concelho para angariar rendimentos para poder fazer uma vida com certa normalidade.
O nosso atraso é efectivo porque nos não podemos comparar com nenhum concelho que esteja pior que nós. As nossas condições, a nossa dimensão, a nossa localização, as nossas comunicações são incomensuravelmente melhores que todos aqueles com que nos queiram comparar.
O nosso atraso é efectivo e só o devemos a quem tem andado todos estes anos a vangloriar-se de um passado que inexoravelmente está condenado.
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09 fevereiro 2008

1 - Que política para Ponte de Lima?

Estaremos condenados a ser a autarquia mais atrasada do País? Estaremos ou não? Tal depende da vontade das pessoas que serão chamadas a participar na vida pública limiana.
Sempre gostamos de viver de uma maneira um pouco diferente daquela que transmitimos aos outros. Se fosse feita uma análise séria às fontes de rendimento da população limiana verificamos que a principal é nos dias de hoje a indústria, mas não a do sarrabulho, como diz Campelo.
A área de serviço público, incluindo os serviços camarários e os da administração central, sofreu nos últimos anos um grande desenvolvimento, que terá necessariamente um resfriamento, e talvez um retrocesso, se a este governo se suceder um mais liberal e privatizante.
A área de serviços privados não teve o desenvolvimento que se imponha a um concelho com a situação geográfica privilegiada como o nosso, mercê das políticas erradas patrocinadas pela Câmara Municipal e do atavismo tradicional dos agentes económicos locais.
A indústria tradicional, afora a das pedreiras, estagnou e desapareceu mesmo, mercê do fim do ciclo económico dos produtos que constituíam a sua base. Reforçamos é o nosso papel de fonte de mão-de-obra da indústria da construção civil e obras públicas.
A hotelaria tem-se reduzido ao turismo de habitação e similares cujos resultados práticos, mercê também do gato que se quer vender por lebre, estão longe de corresponder às expectativas. Para cúmulo, além de se não desenvolver, este tipo de hotelaria tem condicionado a instalação de outros equipamentos mais acessíveis à clientela média deste País.
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08 fevereiro 2008

Encontrar-se-ão árvores na floresta do poder local?

Autarquias locais, principalmente câmaras municipais, onde se presume que o poder está mais perto do cidadão, que se conhecem melhor os seus problemas, blá, blá, blá...
Na realidade onde pouco de significativo que interesse de imediato às pessoas é decidido e muitas vezes mal. Onde há mais corrupção, mais dificuldades se criam, mais favores e vinganças se fazem.
O poder local é a maior feira de vaidades e onde haveria menos razão para elas existirem. Todos os serviços são cobrados, tudo é pago, mesmo aquilo que pareceria uma dádiva da natureza. Paga-se a água, os jardins, a limpeza, o saneamento, as honrarias que se atribuem, os auto-elogios que se fazem, as promoções que se patrocinam.
O poder local, se estivesse mesmo perto de nós, não precisaria de trombetas e bombos, de palcos e palanques, de realçar a sua acção e principalmente de denegrir a inacção ou acção contrária dos outros, para fazer valer as suas razões.
O que de significativo se faz na acção autárquica raramente tem a oposição de alguém. O que são floreados, obras pomposas, gastos sumptuários pode e deve ser contestado por todos os opositores.
O poder central que está longe, que necessita de se afirmar, marcar presença nos mais longínquos espaços do território tem que se fazer ouvir. O poder local torna-se ridículo por adoptar as mesmas lógicas, que na realidade se não lhes aplicam.
No poder local a floresta é a promiscuidade, a árvore é aquilo que nós perseguimos há muito tempo.

07 fevereiro 2008

As brutas pedras da blogosfera

O comentário breve, mordaz, insidioso é, diz-se, o mais apreciado na blogosfera. Quem o publica entende-se como o mais inteligente, actualizado, avançado mesmo de todos os que andam por estas paragens e pelo mundo ao redor.
A tirada pitoresca dá uma ideia de um espírito aberto, capaz de brincar com coisas que não merecem ser vistas com a seriedade que muitos de nós, os chatos, lhes queremos dar.
Muitos ganham na blogosfera, no seu círculo de indefectíveis, o estatuto de infalíveis, de indivíduos capazes de, no momento certo, fazerem a apreciação justa, sentenciosa, inquestionável.
Na verdade agem como autênticas pedras cuja firmeza impressiona, mas só convencem os convencidos, só influenciam os influenciados, só perturbam os perturbados.
Na verdade são brutas pedras.

06 fevereiro 2008

O ódio cega, a companhia reconforta

Há quem use a blogosfera como se de um órgão de informação institucional se tratasse. Há quem a use para postar o seu comentário e fica à espera que muitos outros blogosféricos venham confirmar que têm o mesmo gosto em relação a qualquer assunto corrente. Há quem se abstraia e procure de certo contribuir para que os outros possam partilhar um qualquer desvario, bom ou mal, é do gosto de cada um.
O mais atractivo para mim é o comentário, a forma crítica de abordar os problemas, mas é aí que se encontra o mais negativo. Como seria agradável se tudo fossem comentários que trouxessem a sua janela de novidade, aquele olhar abarcador que nos elucida ou minucioso que, por mais pequeno que seja nos mostra o pormenor que nos falhou, de que nos não apercebemos, a que não demos a devida importância.
Mas há quem opine porque tem que opinar e mais nada. Não tem trabalho porque os modelos, as posturas e até as opiniões já estão encontrados há muito. Os factos sempre vão aparecendo ou então continua-se a bater no ceguinho, que é sempre quem está mais à mão. Às vezes basta uma palavra, uma expressão para exprimir um ódio que se guarda, uma vingança que se anseia, um ressentimento que se avoluma.
Este modelo permite às pessoas ter a sensação de que transformam o circunstancial e efémero em definitivo e quase eterno. É comum dizer-se que o ódio cega. Na verdade o olhar que se transmite, contaminado que está pelo agente transmissor, é sempre igual qualquer que seja o objecto que se está a ver. Estas pessoas já não têm esperança em que haja algo de diferente.

05 fevereiro 2008

Um olhar para lá do C.A.N.’2008

A simbologia é a criação distintiva do homem em relação a outros seres. Mesmo quando tentamos contactar com o corpo ou o rosto partimos do princípio de que ele simboliza algo ou um conjunto de “algos” que podem ser ideias, impressões, sentimentos, etc., etc.
No actual estado da civilização a ideia de dor é de tal maneira repudiada que, muito para além de não a queremos ver em prática, ainda renegamos tudo aquilo que a possa transmitir. Um símbolo de dor é já a dor, como que nos habitua a algo que queremos ver bem longe de nós.
O Campeonato Africano de Futebol que se está a desenrolar no Ghana, como todas as manifestações deste género, tem a intenção de nos transmitir alegria. Compreende-se que assim seja, mas não nos podemos esquecer que a dor anda muitíssimo perto.
E no entanto nada de significativo é feito para acabar com a dor que dilacera África. Parece que temos a noção que os africanos são insensíveis à dor e como tal não dignos de comiseração. Portugal tratou-os assim nas colónias, mas eles trataram-se pior quando de lá saímos.
Os símbolos de dor vindos de África, fossem crianças, mulheres ou velhos sofrendo, tiveram o seu tempo e aparentemente tiveram efeito na altura. No entanto já não saem do domínio das trivialidades.
Que será necessário fazer, que símbolo havemos de inventar, para que África seja vista na plena dimensão do seu drama civilizacional em que a doença, a guerra, a fome deixem de ser olhadas como seus males normais?

04 fevereiro 2008

Meneses, um homem com carisma?

O Carisma é aquilo que nós conhecemos pelos efeitos mas estamos longe de conhecer pela substância. Se não fora assim nós talvez pudéssemos ir buscar um pouco de carisma mas nos ajudar a triunfar.
O carisma não é só apanágio de religiosos e políticos e alguma dose se destinará a outras pessoas que assim podem ocupar diferentes lugares de referência. Muitas pessoas identificam os males do actual estado da civilização somente pela ausência de carisma naqueles que são essas referências.
Em particular na política às pessoas agradava-lhes que os líderes fossem pessoas com carisma. Além de formalmente se mostrarem democráticas, as pessoas como que se desculpabilizariam mais facilmente do que se tivessem que estar a explicar outros critérios que utilizassem nas suas escolhas.
A nossa política anda sempre à volta desta incógnita de quem é o dirigente mais carismático. Os activistas são aqueles que procuram ganhar adesões para o seu lado. Mas a nossa política faz-se maioritariamente pela negativa e assim os melhores são aqueles que mais conseguem roubar apoios aos seus adversários.
Na nossa política do contra há que destruir tudo que possa contribuir para a credibilidade do inimigo. Não interessa sequer ter-se um carisma evidente, espera-se que a sorte o traga e faz-se com que os outros o percam. Qualquer Meneses se pode lançar a esta tarefa indigna de não ser mais do que um aprendiz de feiticeiro na criação do carisma que lhe falta e na tentativa de destruição do que a Sócrates sobeja.

03 fevereiro 2008


Regresso à imagem?

Não.

Esta Obra de Mueck de 1998 retrata na perfeição o meu estado de espirito em muitas ocasiões desta vida já com os seus dias e as suas vicissitudes próprias.

Uma perspectiva mais central está no final deste blog substituindo a velha garça, não expulsa mas tão somente remetida para o seu próprio blog.

Isto é arte, não tirem conclusões apressadas.

Cuidado com a estratégia adversária

JN: Todos parecem ter encontrado as causas para a actual fragilidade do país em António Guterres. O pecado dele foi ter feito Portugal crer que poderia ser uma imensa classe média?
António Barreto: Não posso negar o que diz. No Governo dele tudo era possível, tudo era fácil e o que havia chegava para todos. Todos iriam ter tudo. Para o conseguir, ele nunca corta a direito, nem toma decisões. Habituámo-nos a viver à balda e à borla.
JN: Ficou tudo condicionado aí?
António Barreto: Uma parte importante; não tudo. Há outras coisas que vêm já dos governos de Cavaco Silva. A constante mais permanente nos últimos 30 anos foi a demagogia.
(transcrição duma entrevista de António Barreto ao JN de hoje)

Uma das razões para tanta compreensão de Cavaco Silva para com este governo pode estar aqui, nesta certeza que hoje temos de que António Guterres foi um mãos-largas, mas há erros cometidos que o foram já pelo governo de Cavaco e que Guterres não corrigiu.
Cavaco Silva está deixando que o presente governo de José Sócrates emende os mais gravosos esbanjamentos na época das vacas gordas, que retire, mesmo que a posteriori, do curriculum de Cavaco as falhas que terá tido ou que os cavaquistas cometeram em seu nome.
Nunca se sabe é qual será a atitude de Cavaco quando estes problemas estiverem resolvidos. Procederá como Eanes, Soares e Sampaio que foram mais rigorosos no segundo mandato em função dos seus objectivos pessoais?
Se é certo que Cavaco ainda se não livrou no seu partido da má moeda, há-de ter como fim neste primeiro mandato matar dois coelhos duma só cajadada. O Partido Socialista tem que estudar bem os timing de modo a não ser surpreendido por jogadas que estejam em preparação. Porque Cavaco não há-de querer ficar para a história como “compagnon de route” do P.S.
E os velhos marretas têm que ter juízo.

02 fevereiro 2008

Uma Presidência tricéfala?

Nem sempre os Presidentes da República assumiram posições muito claras principalmente nos seus segundos mandatos. Tiveram aí uma maior intervenção e mais tendenciosa, mais em consonância com as suas próprias ideias, assumindo nítidas divergências com os executivos. No primeiro mandato foram mais passivos, mais envergonhados de apoiar ou desapoiar ou então mandando mensagens sub-reptícias, encapotadas.
Inesperadamente Cavaco Silva tem assumido neste seu primeiro mandato uma intervenção de que se não estaria à espera face às suas opiniões quando era Primeiro-Ministro. O certo é que a sua actividade tem sido no geral bem vista, dirão alguns porque o Governo está a pôr em prática uma política mais próxima da sua ideologia de direita.
Esta forma de participar activa e opinativamente tem surpreendido os candidatos derrotados Manuel Alegre e Mário Soares, notórios abencerragens que no seu papel de vigilantes se não querem deixar ultrapassar. Lançam acusações vagas, pretendem abafar o papel nefasto que o actual Presidente estará a exercer e que o Governo inflicta na sua política de rigor.
Não se cuidam de fazer coro com os maiores imbecis da direita canhestra. Se continuarem a preparar assim o descrédito e a desmoralização da governação de Sócrates, se elevarem os seus interesses egoístas acima do interesse nacional, como infelizmente ainda há quem os siga, vão contribuir para entregar o oiro ao bandido que aqui tem um nome bem conhecido: Meneses, um suicidário sem Norte nem Sul.

01 fevereiro 2008

A ganância como estilo de vida

Uma das coisas que há uns anos mais chocava as pessoas era a ganância. Infelizmente parece ser mal que se terá espalhado tanto que deixou de ser mal visto. Pelo contrário há já forças que acham a ganância tão importante para a economia como o é a produtividade.
Um movimento no sentido de tornar menor a apetência das pessoas por se apropriarem em excesso, isto é, gananciosamente, daquilo que lhes está à mão, porque ninguém pode ser dono absoluto de nada, seria bem-vindo, mas creio que, mesmo com os altos patrocínios que se lhe referem, esta causa não alcançará facilmente os seus objectivos.
Já muitas personalidades se referiram aos altos proventos dos gestores de topo em todo o mundo, questão que em Portugal assume um aspecto mais escandaloso dada a disparidades de rendimento. Cavaco Silva já a vai abordando com certa persistência.
Mas foi José Sócrates que identificou claramente o vírus provocador, só que não chega, ficamos com a questão no domínio da ética. É necessário que na economia se diga que a ganância não faz qualquer falta, que as pessoas podem trabalhar com afinco e determinação quando têm outros valores como seus guias.
Estamos no domínio do rendimento das pessoas mas também valeria para as empresas que, com o fim de obter lucros desmedidos, exploram as condições de dependência do cliente em relação a si para o explorarem quanto podem. Aqui ganham os gestores mas também os sócios ou accionistas.
Como as empresas se desculpam muitas vezes com a necessidade de serem competitivas, de se defenderem da aquisição por estrangeiros, ainda mais vorazes do que elas, já seria bom que neste aspecto pessoal mais indecoroso, desleal, pecaminoso em qualquer perspectiva ética, se avance no sentido de sermos mais comedidos e solidários.

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

Acerca de mim

A minha foto
Ponte de Lima, Alto Minho, Portugal
múltiplas intervenções no espaço cívico

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck
O mais perfeito retrato da solidão humana