13 fevereiro 2009

Em Ponte de Lima o CDS lucra com a marcação que há entre os outros partidos

A parte mais autêntica do PSD não faz destrinça entre o plano nacional e o local: O inimigo é o PS e está tudo dito. O problema é que estão habituados a tratar o CDS como um partido muleta e aqui o Daniel Campelo não vai na conversa e até gosta menos deles do que de quaisquer outro adversário.
Este cenário enviesado deixa-os enraivecidos. O CDS não lhes deita a mão, mas até a verdade é que, quando lhes deitou, eles portaram-se obedientemente e trataram da sua vida e em vez de alimentarem as raízes que tinham mais freguesias, deixaram que o CDS lhes roubasse a base de apoio.
Se o governo Santana Lopes não tivesse caído o cenário de hoje seria decerto outro e o PSD talvez estivesse a participar no executivo camarário. Assim continuam excluídos, vendo socialistas por todo o lado a barrar-lhes o caminho. E estes andam satisfeitos só por este facto, o que é pouco.
Esta marcação, se tem lógica a nível nacional, não a tem a nível local, mas também não há aqui qualquer tradição de cooperação entre os dois partidos. De costas voltadas vão alegremente “permitindo” que os seus apoiantes nas legislativas continuem a dar a Daniel Campelo um apoio descabido e contraproducente.

12 fevereiro 2009

O imobilismo político em Ponte de Lima

Em Ponte de Lima, e politicamente falando, o clima é deprimente. O CDS incrustou-se no poder desde o 25 de Abril com uma segurança só posta em causa em duas eleições de 89 e 93 no apogeu do PSD.
O PS tem deambulado de mau a pior, chegando mesmo ao péssimo de não ter representação no executivo camarário durante três mandatos. Recuperou sem honra nem glória no mandato de 2001 e segurou-o em 2005 com um arrojo pouco habitual. Tem executado um mandato muito consistente sem que consiga penetrar sobremaneira na muralha adversária.
Mesmo assim isto incomoda o PSD. Deste alguns sectores transportam para a realidade local o que se passa a nível nacional e elegem o PS como inimigo principal. Outros pensam que era possível uma aliança com o PS, mas são mais os que lhes agradaria ficar com uns sobejos do CDS.
Claro que o cerne do PSD se revê nos gloriosos anos do cavaquismo em que a sua arrogância, a sua ganância em ocupar tudo que fosse cargo público levou à aliança das forças de esquerda com o CDS. Foi um cheque em branco mal aproveitado e pelo qual Daniel Campelo responderá um dia.

11 fevereiro 2009

Vamos ter nova guerra do queijo?

Segundo a RAVE (Rede de Alta Velocidade) “no caso da Câmara Municipal de Ponte de Lima, a reunião solicitada por carta de 2 de Julho, em que se solicitava também a disponibilização de elementos, não veio a concretizar-se por dificuldades de agenda". Havia um compromisso de ouvir a Câmara de Ponte de Lima antes de publicado o mapa a submeter a inquérito ao impacte ambiental e aí Daniel Campelo tem razão.
"Há certamente alternativas com bem menos impactos negativos e a Câmara está disposta para colaborar na definição do desenho dessas alternativas. Os corredores agora publicados são simplesmente danosos para o Concelho e esses nós não podemos - nem iremos - aceitar". Isto também é de Campelo e parece-nos fanfarronice a mais. Quanto à apresentação de alternativas ela é problemática.
Não se vê hipótese de que o TGV não passe no Formigoso onde a travessia pela montanha é mais estreita. As opções a sul de Ponte de Lima são pela Facha, a poente do Monte da Nó e esta afastaria o comboio de Ponte de Lima e nunca iríamos ter hipótese de vir a beneficiar dele.
A outra opção será uma linha quase recta entre a actual estrada para Braga e a auto-estrada, com uma passagem mais problemática a norte do Rio Lima. Esta última solução permitiria pensar numa futura possibilidade de utilização desta via-férrea para comboios que parassem em Ponte de Lima.
Ainda não temos uma perspectiva exacta da questão por falta de conhecimento da forma que a linha vai assumir em cada lugar que atravessa: túnel ou viaduto. Mas dadas as características técnicas, em especial de desníveis, as alternativas serão de pormenor.
Aquele “não iremos aceitar” é uma pia mentira, há cenas que decerto se não vão repetir.

10 fevereiro 2009

Como se passam as pias mentiras

Numa entrevista ao AM o vereador Franclim Sousa afirma que a política educativa do Município está a ser seguida no mesmo rumo desde 2002, desde o governo Durão Barrosos, era ME David Justino.
Ora a Lei de Bases do Sistema Educativo em vigor data de 2003, do governo de Santana Lopes, mas é verdadeiramente com José Sócrates que as alterações a implementar no sistema educativo levam um impulso efectivo.
Mas mesmo a Carta Educativa de Ponte de Lima só foi aprovada há três anos e não tem sido minimamente respeitada e em alguns casos ainda bem, tão mal ela foi elaborada.
As soluções adoptadas têm sido as propostas pelo PS, por minha iniciativa, que as defendi na Assembleia Municipal e do vereador Jorge Silva, que as defendeu no Executivo Camarário.
Quando até no PS houve membros menos receptivos à politica governativa, houve oposição a acabar com escolas ridículas nas aldeias com o argumento que isso favoreceria a desertificação, a Câmara propôs escolas em sítios como Cepões, Poiares e muitos mais que veio a abandonar.
A nossa proposta passava por escolas entre 100 e 200 alunos, de 6 a 12 salas de aula de turma, com outras de apoio e em número de cerca de 15 edifícios devidamente distribuídos pelo concelho seguindo o princípio das linhas de água e até assumindo a sua designação ou outras designações ligadas à natureza.
Foi esta opção que veio a ser tomada e as poucas localizações com que não concordamos, são os casos que já estavam mais avançados com a compra de terrenos e com o começo de algumas obras.
Era bom que o vereador se não vangloriasse daquilo que foi feito contra a sua opinião expressa em documentos.
Estamos no domínio das pias mentiras.

09 fevereiro 2009

Jornalismo de telemóvel

O jornalista não pode estar em todos os lados, tem que ter fontes de informação, mas idóneas. Não é o que acontece se perguntar ao promotor de um evento se ele correu bem ou mal e confirmar na autarquia que está interessada na propaganda. Isto é ser simples correia de transmissão de uma opinião comprometida.
O Sr. Miguel Rodrigues, jornalista do JN, é isso que tem sido. Recebeu do Sr. Agostinho Gomes, o tal empresário, e da Câmara de Ponte de Lima, a tal autarquia, uma notícia que publicou no JN de hoje, 09/02/2009:
A Feira do Porco teve uma “afluência com grande afluência”
A Feira do Porco teve 32 mil visitantes.
Na tenda da Feira do Porco cabiam 5 mil pessoas.
A primeira parte diz da qualidade da escrita deste jornalista.
A segunda diz do que é capaz o arroz de sarrabulho, do seu efeito na mente de jornalistas destes.
A terceira pretende justificar o impossível: Meter um elefante no cú duma agulha.
A tenda tem 2.550 metros quadrados e esteve quase ocupada com expositores que ficaram da Feira dos Noivos que lá tinha ocorrido antes.
Cinco restaurantes com um palco no meio e um cruzeiro ocupariam um terço do barracão com mesas que não levariam mais de trezentas pessoas
Quinhentas pessoas, se tanto, encheriam toda a tenda.
Há que ter bom senso, Sr. Jornalista.
Não faça dos seus leitores estúpidos.
Não estrague a qualidade do JN.

08 fevereiro 2009

Falsas verdades, pias mentiras

Em Ponte de Lima sabe-se que ninguém está dentro de todos os assuntos, a não ser talvez o Daniel Campelo. Quando alguém sabe de alguma coisa, ninguém se quer chatear, vamos lá nós sair à estrada a gritar que o Rei vai nú? Vamos ao menos repor alguma verdade?
As mentiras vão-se espalhando, mas tão piamente, tão pouco, tão ligeiramente, tão sem importância, que a sua falsidade vai passando despercebida. As mentiras pias são aquelas que aparentemente não prejudicam ninguém.
O nosso espírito crítico não está alerta, tão piamente são apresentadas as mentiras, embora mais tarde, quando os dados que as demonstrem estiverem esquecidos e mais fora do nosso alcance, até chegam a ser aproveitados para fins promocionais.
Se algum caso chega a dar raia, e são tão poucos, logo surge uma catadupa de gente a desvalorizar a importância da mentira. Até se chega a dizer que a mentira teve efeitos benéficos.
Serão poucas as pessoas que não aceitem que o seu poder se instale em cima da mentira. Em especial na consolidação do poder, poucos estarão livres de a praticar, mas não pode ser por isso que se não deve denunciar.
Abaixo a mentira por mais pia que seja.

01 fevereiro 2009

Entrevista a um ex e sempre putativo candidato

Trigalfa – Sendo o líder da oposição na Câmara Municipal de Ponte de Lima e com a sua experiência porque razão não se volta a candidatar pelo seu partido?
Manolo Milheiro – O meu partido tem quadros suficientes para não ocupar o cenário sempre com as mesmas caras.
Trigalfa – Sente que a sua imagem terá enfastiado, está gasta?
Manolo Milheiro – Sinto-me um jovem com experiência.
Trigalfa – Qual a sua opinião sobre a escolha do seu partido?
Manolo Milheiro – Como o Tony Martinez não apoia o nosso candidato claro que tenho que ser eu a apoiar.
Trigalfa – Quer dizer que no PSD nunca há acordo?
Manolo Milheiro – Desde que o partido se dividiu entre o carrascão e o chá das cinco que assim é. E isso tem-nos retirado força.
Trigalfa – Vai ficar-se por aí?
Manolo Milheiro – No nosso partido andamos sempre por aí. Uma reforma, um emprego do Estado e vamos andando por aí. Não vê o Santanete? Quando temos valor não tenham pena de nós. A última coisa que faria era ir pedir a casa do vizinho. A nossa estratégia é tirar o vizinho da casa.
Trigalfa – Comparar-se ao Santanete não é pretensão exagerada?
Manolo Milheiro – Sou dirigente distrital e tenho o meu peso. Tenho boa presença na TV, mas nem sempre tenho oportunidade de lá aparecer. Enquanto vou treinando.
Trigalfa – Então o Tony Martinez não o vai parar?
Manolo Milheiro – O Tony teve o seu tempo, está no plano descendente. Não entro na Havanesa, porque não entro onde o inimigo conspira.
Trigalfa – Não teria sido por ter escolhido mal o seu quartel-general?
Manolo Milheiro – Então há lá sítio melhor? Estou perto da Câmara, perto dos Bombeiros e da Polícia, o Hospital não fica longe, como vê quando me chamarem estou sempre disponível.
Trigalfa – E da escola onde trabalha. Que diz da actual situação?
Manolo Milheiro – Cada vez gosto menos de ir à escola. Estou saturado. Sempre que posso fugir para a política ou para a minha actividade profissional fujo. Para mim o essencial é que os alunos tenham professores satisfeitos, bem remunerados, sempre em festa e com tempo para descansarem. Aos alunos já chega o que passam nas explicações.
Trigalfa – Quer dizer que é contra a avaliação e a Ministra da Educação?
Manolo Milheiro – Quem a avalia somos nós e não merece positiva. É uma pretensiosa, com aquela figura timorata bem nos queria tramar a vida. Mas o povo social-democrata e até socialista está cá para lhe fazer frente.
Trigalfa – Porque se acobertam detrás dos comunistas dos sindicatos e utilizam uma linguagem que nem os operários do Barreiro alguma vez usaram?
Manolo Milheiro – Andam a dizer isso para nos deitarem abaixo. As coincidências acontecem e não vamos dizer aos comunistas para se irem embora. Aliás o BE tem excelente imagem, têm cara de santos, são os mártires dos dias de hoje. Não sou eu que tenho vocação para santo e eles fazem falta.
Trigalfa – Com os correligionários que cá tem parece sentir-se melhor na política nacional?
Manolo Milheiro – Tenho de reconhecer que isto aqui é pequeno para mim. Não tenho o reconhecimento devido, nem como professor, nem na minha restante actividade profissional, muito menos na actividade política. Vejo tantos a receber medalhas da Câmara e eu? Sim, eu?

30 janeiro 2009

Entrevista a Jonny Pedraça, putativo candidato à Câmara Municipal de Ponte de Lima

Trigalfa – Na Praça do Zarolho tem-no como putativo candidato à C M P Lima.
Jonny Pedraça – Em primeiro lugar cuidado lá com o putativo, que eu não me ando a oferecer aí pelas esquinas. Sei o que valho e tenho amigos no Governo.
Trigalfa – Não acha que se esse tipo de amigos chegasse o Tony Martinez não teria já metido na Câmara um correligionário qualquer?
Jonny Pedraça – Eu falei do Governo para dizer que era um convite sério. Para o resto estou cá eu. Sou muito conhecido, já dei muitas voltas com os rapazes dos Limianos. Também por essa razão queria dar umas voltas nos jipes dos Bombeiros que são bem vistosos.
Trigalfa – Então é candidato aos Bombeiros e não à Câmara?
Jonny Pedraça – A Câmara é para o Campestre. A única coisa mal no seu já longo mandato é que daqui a pouco não deixa um lugar decente para a sua estátua. Eu gosto muito da Vaca das Cordas mas ficava melhor no Arrabalde.
Trigalfa – Quer dizer que como bom cidadão, tendo suado a sirene nos Bombeiros, está pronto a avançar contra todas as labaredas ou quer ir inaugurar o novo quartel dos Bombeiros?
Jonny Pedraça – Isso é uma insinuação? Não sei nada disso e duvido que haja Quartel tão cedo, se eu não for para lá.
Trigalfa – Acha que lhe vão dar agora de mão beijada uma direcção tão apetecida com a garantia de que se vai fazer um novo Quartel?
Jonny Pedraça – Só sei que tenho os meus soldados sempre prontos a avançar. Os Bombeiros acreditam em mim. E se me faltam alguns nomes para a lista dou uma volta pelo Largo do Zarolho e já componho a fotografia. Eles disseram que não iam a votos, não vão agora mudar de rumo.
Trigalfa – Então está mesmo disponível e não se trata de apoiar o Campestre para a Câmara em troca dum apoio deste à sua candidatura a Bombeiro-Mor?
Jonny Pedraça – Para mim tudo é transparente. Votarei nele porque ele é honesto, bom gestor, excelente presidente, com equipa ganhadora. Um ou dois estão lá a mais, mas eu também não me vou oferecer para tudo. Para isso ofereço-me ao meu partido.
Trigalfa – Não refere que partido é esse por ter vergonha ou por não ter as cotas pagas?
Jonny Pedraça – Conheço um amigo meu que anda aí a dizer que é do CDS e nunca esteve inscrito. Eu pelo menos paguei algumas cotas.
Trigalfa – Na Santa Casa da Misericórdia e na Irmandade de Santo António quem não paga cotas é expulso e não pode ser readmitido.
Jonny Pedraça – Estou pronto a ajudar o partido, mas não agora, a crise chega a todos. Já fui líder concelhio e tenho estatuto. Só pago cotas quando voltar.
Trigalfa – Se não refere sequer o partido que estatuto é esse?
Jonny Pedraça – Sou um homem livre para apoiar o Campestre. Estou na posse de todos os meus direitos para ser candidato a Presidente da Direcção dos Bombeiros. Tenho as cotas em dia, até porque aquele Manel é um chato, que deixa um homem ficar mal em qualquer sítio. Não tenho culpa que o partido não tenha um cobrador assim.
Trigalfa – Então para terminar, acha que um político se faz com uns fogachos, um desfile na procissão das Feiras Novas e outro nas marchas de S. João? Acha que os votos dos amigos chegam?
Jonny Pedraça – Eu sou muito querido por todos os meus amigos e não confundo as coisas. Mas os amigos apoiam-me em todas as condições.
Trigalfa – Não acha que lhe pode acontecer como ao Jonny Barrios na candidatura à direcção da Adega? Está preparado para a ingratidão.
Jonny Pedraça – Br, br, br, … … …

29 janeiro 2009

Trigalfa vai fazer uma série de intrevistas a putativos e não putativos candidatos à Câmara Municipal de Ponte de Lima. Algumas escolhas já estão feitas, há quem se mexa para aparecer e posicionar-se em condições de vir a ser escolhido, mas também há muita indefinição.
Aproveitamos a ocasião para conhecer melhor os candidatos, os seus pontos fortes e fracos, as sua fortalezas e fragilidades. Não está posto de lado o recurso a novas intrevistas para esclarecimentos adicionais, nem sequer intrevistas a pessoas laterais a este processo, mas cuja intervenção pública é conhecida e politicamente relevante.
Claro que esta série de intrevista vai começar com Jonny Pedraça, primeiro herói a sugerir, mas, de forma no mínimo estranha, a não avançar com a sua candidatura. E tanto precisados estamos de gente dinâmica, que nos faça sair deste marasmo.

11 novembro 2008

Momentos da Crise (31)

Todos somos capazes de lidar com o futuro mais ou menos próximo, daquele que construímos com a ajuda dos outros e com a nossa participação activa. Já o mesmo se não passa à medida que esse futuro vai ficando cada vez mais longínquo.
O nosso actual sistema de pensões assenta na contribuição daqueles que estão hoje a trabalhar para pagar àqueles que já deixaram de o fazer. O aumento da esperança de vida, o aumento do custo de manutenção de uma forma saudável nesta etapa “suplementar” da vida, tem levantado o problema da sustentabilidade futura do sistema.
A alternativa apresentada é a criação de um fundo de pensões cujo rendimento garantiria as reformas dos seus depositantes. Cada qual pagaria para si somente, deixaria de pagar para os outros, actuais e futuros. As actuais pensões de reforma, e no futuro um seu valor mínimo, seriam garantidos pelo Estado através da cobrança de uma qualquer contribuição ou imposto.
A tal reforma pessoal futura seria garantida pelo rendimento proporcionado pela gestão de um fundo próprio das contribuições pessoais actuais para o novo sistema. O que a actual crise veio provar é que tais fundos não dão a garantia de qualquer rendimento, antes pelo contrário, não conseguem acompanhar sequer a rentabilidade média dos depósitos a prazo.
Um fundo de pensões é dos elementos mais frágeis do sistema financeiro. Não sendo normal vender o seu património, o que só seria vantajoso se fosse possível prever a evolução do seu valor, tem que viver utilizando os dividendos para pagar as pensões a que se comprometeu.
Ora os dividendos não tem qualquer relevância nesta economia financeira, tal qual hoje a conhecemos. Só uma pequena parte da rentabilidade das empresas vai para dividendos, porque o reinvestimento, a manutenção da máquina gestora levam a parte de leão. Por outro lado o valor das empresas traduzido pelo valor das suas acções é de uma volatilidade incompreensível. A estes fundos nem a venda do património os salva.

10 novembro 2008

Momentos da Crise (30)

Esta crise é demonstrativa da vitória absoluta e definitiva do dinheiro, como símbolo da riqueza não necessariamente utilitária nem sumptuária. O único valor sólido no sistema é aquilo que noutras épocas seria mais vulnerável a uma crise, quase diríamos a uma moda, a um capricho.
Tempos houve que se dizia que a moeda era falsa ou má e ninguém acreditava nela pelo que o preço dos outros bens inflacionava para atender ao risco do uso de tal dinheiro. Noutras ocasiões não haveria dinheiro e quanto maior fosse a produção de bens maior a dificuldade no seu escoamento, o que levaria à depreciação dos preços e à mudança de uma produção competitiva para uma produção selectiva.
Hoje há dinheiro, entenda-se valor escriturado ou em moeda, dentro ou fora do sistema financeiro, líquido para poder servir para troca ou empréstimo e que se mantém sólido enquanto o mesmo não acontece com os bens que alguém possa receber em sua troca. É a procura do dinheiro, mais do que a procura de qualquer um dos outros bens que determina os preços destes bens e a fluidez da actividade económica.
A determinação do preço do dinheiro, do juro pago pelo seu empréstimo, é uma função do Estado que lhe permite intervir em termos indicativos e assim manter a estabilidade do dinheiro. Só que a voracidade com que se engoliram etapas, a velocidade a que se conseguiu progredir e de certo modo antecipar o futuro, criaram a veleidade de pensar que seria possível antecipar esse futuro ainda mais.
O que ficou por determinar é o preço a pagar por isso, o juro que haveria que ser pago, a base em que deveria assentar. Numa realidade em permanente mutação optou-se por antecipar o futuro, aplicando o preço de hoje e o custo hoje dispendido, isto é, o juro que seria hoje pago. Por isso a fixação das taxas indexantes mutáveis e a cristalização em dados momentos dum futuro imprevisível.

09 novembro 2008

Momentos da Crise (29)

Sempre se deu consistência à ideia de que onde estivesse o dinheiro estava o poder. A Banca era assim o símbolo do poder. Banca e dinheiro seriam sinónimos pelo que a Banca seria toda-poderosa, inatacável, inabalável. Neste sentido todos os que não rejeitam a economia de mercado, embora não morram de amores por ela, fazem todos os esforços para se não deixarem dominar pelos senhores do dinheiro. A presente crise tem desmentido esse poder e este temor.
Um primeiro princípio da democracia é que o poder político não seja dependente do poder económico. No entanto nesta crise é o poder económico que necessita de se libertar de uma certa força passiva que o manieta, que não é ele que gera, que lhe é exterior e que no fundo é o sinal da soberania do Estado e da força do poder político, o dinheiro.
Que o dinheiro seja utilizado na execução da sua dupla função de moeda de troca e de reserva de investimento é uma responsabilidade do Estado. Qualquer grande bloqueio que ocorra e não permita a fluidez do comércio e o financiamento dos empréstimos necessários à actividade económica pode reproduzir-se em cadeia e dar numa crise.
Mas uma crise sistémica pressupõe que ocorram problemas a nível global e que a resolução de cada um por si não implique a resolução de todos. Torna-se imperiosa uma intervenção do Estado, dos Estados para que o próprio sistema sofra as alterações adequadas que tornem o dinheiro uma força activa. O Estado não pode delegar em ninguém o poder que o dinheiro constitui, não se pode desculpar com o seu mau uso.

08 novembro 2008

Momentos da Crise (28)

Quando a crise se instala num espaço económico em que prevalece a racionalidade financeira são os outros bens que se depreciam de modo a facilitar a sua trocas e a obter mais rentabilidade para o dinheiro. Na verdade o valor relativo desses bens só alterará se os respectivos sectores entrarem simultaneamente em crise. O dinheiro em si não desvalorizará, mas também entra em crise de carência quando se retrai, se entesoura, quando espera pela melhor oportunidade de aplicação.
Porém independentemente da existência de mais ou menos disponibilidades financeiras, se os bens adquirem tendência para diminuir de valor, as pessoas são levadas a esperar que elas ainda se desvalorizem mais para efectuarem a sua compra. Seja com o intuito deliberado de vender dentro de pouco tempo, seja para salvaguardar a possibilidade de o ter que fazer numa emergência, as pessoas preferem neste caso ter dinheiro. Neste caso podem vir a sobejar bens.
Ao contrário, quando os bens têm tendência para aumentar de valor, as pessoas são levadas a comprar antes que elas se valorizem mais, seja com o intuito deliberado de vender, seja para que o dinheiro fique melhor aplicado, as pessoas preferem neste caso ter bens vendáveis. Neste caso podem sobrar disponibilidades face às aplicações previsíveis.
Quando a crise se instala é pois a primeira situação que ocorre. O dinheiro permanece mais imóvel, hesita-se mais no investimento, sacrifica-se mais o lucro à segurança, destorce-se o mercado, valorizando-se mais o menos volátil e não se arrisca no que está mais sujeito a volatilidade. Paradoxalmente o mais perigoso é aquilo que mais se presta para uma conversão rápida.

07 novembro 2008

Momentos da Crise (27)

Num momento de crise é natural reforçarem-se as reivindicações de apoio ao pequeno empresariado. Já anteriormente se pedia mais colaboração do Estado na instalação e viabilização do negócio desses pequenos empresários. No entanto os Governos no geral fecham os olhos à concentração que se verifica em muitos ramos de negócio.
Ninguém resiste a manifestar os seus sentimentos de simpatia pelos pequenos até porque estes estão sempre mais perto e mais disponíveis. O problema é quando se coloca o problema do preço dos serviços que eles nos podem prestar em similitude de circunstâncias. O grande, aproveitando os ganhos de escala, oferece-nos vantagens e é geralmente o preferido.
A isto acrescenta-se ainda a grande evolução tecnológica que determinou o fim de muitas profissões tradicionalmente exercidas por pequenas unidades de produção. Na produção propriamente as exigências de capital para comprar a tecnologia indispensável e a dispersão do mercado que exige um investimento em marketing incomportável para os pequenos, mais a facilidade de movimentação determinam uma concentração que elimina os pequenos.
Decerto que os grandes não vão deixar de ter crédito para poderem incentivar a produção. Estamos cada vez mais condenados a ser empregados.

06 novembro 2008

Momentos da Crise (26)

Se é verdade que a riqueza é capaz de dar origem a mais riqueza já é mentira que dinheiro gere dinheiro. Com a criação de riqueza a sociedade fica mais rica claro, mas o dinheiro só muda de mão e a sociedade não fica mais rica por haver trocas ou por haver empréstimos que paguem juros. A sociedade fica mais rica se os bens, sejam eles quais forem, estiverem nas mãos de quem lhes der mais utilidade.
Ao dinheiro de hoje, neste mercado global já não se reconhece relação com as economias locais. Os Estados vão emitindo normalmente moeda à medida do crescimento da riqueza mas procuram não inflacionar os preços, não depreciar a moeda. Aliás é a riqueza que se vai depreciando, conforme a base em que está estabelecida, conforme a seu grau de degradação.
A riqueza, embora relativa, será “sempre” riqueza mas só a sua inclusão na economia mercantil corresponde à convertibilidade em moeda. O normal será a riqueza crescer, isto é, haver um saldo positivo entre o valor dos novos bens e o valor que vai diminuindo em relação aos outros bens. À medida que a riqueza cresce mais moeda se torna necessária para garantir a fluidez dos movimentos mercantis.
Se é verdade que tem havido uma certa concentração da riqueza, na realidade tem havido uma concentração muito maior do dinheiro e o seu uso irracional. Independentemente da legitimidade da forma como esse dinheiro foi obtido, há um problema da sua utilização que tem que ser pensado. A todos os bens tem que ser garantido que o seu uso corresponda à sua utilidade social.

05 novembro 2008

Momentos da Crise (25)

Se nós produzimos milho queremos que alguém no-lo venha comprar. Se nós produzimos tesouras da poda temos que encontrar a quem as vender, de preferência por grosso, porque a retalho dá muito trabalho, a clientela possível está demasiado dispersa. Mas se a nossa produção for pequena e tivermos uma clientela fiel perto da porta talvez não necessitemos de intermediários.
Em tempos emprestava-se muito dinheiro a pessoas conhecidas, a pessoas que tinham bens penhoráveis ou que apresentavam algum fiador com crédito evidente. Emprestava-se em casos de emergência, emprestava-se para que se pudesse realizar algum negócio inadiável, emprestava-se para iniciar alguma actividade independente, emprestava-se para emigrar.
As pessoas que recorriam a empréstimos empenhavam também a sua palavra, sentiam-se na obrigação de cumprir todos os compromissos assumidos, as penhoras e as fianças eram processos raros. Quando algum usurário ficava com propriedades valiosas para pagamento de empréstimos de menor valor também era o seu nome que ficava mal visto.
A Banca nasceu da necessidade de haver uma intermediação entre quem tem dinheiro disponível e quem dele necessita. Assim a Banca tem que garantir proventos a quem empresta e ganhos para se manter a si própria em funcionamento. Quem coloca o dinheiro no Banco é lá que o pode ir buscar, não a casa ou às propriedades daqueles que lhe estão em dívida.
Quem vai à Banca buscar dinheiro sem o lá ter sujeita-se a perder os seus bens, mesmo que chamem de tudo à Banca. Já antigamente, quando as coisas não corriam como o desejado, se ficava sem as terras, sem honra, sem apoios. Mas hoje a Banca tem responsabilidades na economia em geral e nas nossas dificuldades em particular que os antigos usurários não tinham. A função da banca é demasiado importante para que funcione em roda livre.

04 novembro 2008

Momentos da Crise (24)

Dentro da crise geral que atormenta economistas, financeiros e políticos a nós cabe-nos uma crisesinha, daquelas que não tendo a gravidade da crise lá de fora, não dando para uma corrida aos bancos ou para a falência, dá mesmo assim para especulações quantas bastem.
Nacionalizar está mal, diz Cadilhe, ele que foi o Salvador chamado para atacar as labaredas que já então consumiam o BPN, que tão ciente estava do êxito da sua missão, que até prescindiu de uma choruda reforma que já auferia do BCP por ter por lá passado uns tempos.
Ele que foi chamado a uma armadilha, que até denunciou em tempo útil, vai sair desta crise perdendo tudo, irritado com tudo e com todos, mas por questões ideológicas, porque não resiste ao apelo cínico da política mais mesquinha e corriqueira, não atribui as culpas a quem o traiu, aos seus amigos, mas ao Ministro que está a defender o erário público.
Quem tem amigos como Cadilhe até nem precisa de inimigos. Poder-se-ão desculpar que afinal até ninguém estava à espera que o Governo utilizasse a legislação que está preparada para a grande crise nesta crisesinha já tão gasta e velha.
Porque convenhamos, se não é a grande crise, os nossos banqueiros continuariam a ser considerados pessoas de bem, sobre os quais quaisquer suspeitas tem como consequência o banco dos réus para quem as levanta.
O que está em causa é o papel social dos homens sempre engravatados. Hoje “só” fazem a rapinagem de todos os recursos disponíveis, controlam a sua utilização e retiram os grandes lucros. Exercem uma actividade necessária mas não directamente produtiva, a não ser para os próprios.

03 novembro 2008

Momentos da Crise (23)

As crises são muito boas para chamar a atenção para muitos erros, excessos, desvios. Porém passadas as tormentas o espírito humano é muito pródigo em esquecer lições. Nesta crise muita gente sabia os erros que se estavam a cometer, muitos os cometeram deliberadamente, mas poucos tiveram a coragem e a ousadia de remar contra a maré, de resistir à tentação de atirar o anzol para as águas de onde outros estavam a tirar bom peixe.
Muita gente sabe que, se não forem tomadas medidas a tempo, o sistema financeiro terá tendência para enveredar pelos mesmos caminhos. Mas para medidas de controlo suficientemente apertado ainda não terá chegado o tempo num processo que tem de ser de dimensão mundial.
Aliás se não houver também mudanças no sistema monetário permanecerá o vírus da instabilidade no sistema. Também quanto a esta questão deveremos acreditar que não terá chegado o momento de tomar decisões, mas mais tarde ou mais cedo lá chegaremos.
Quanto ao manuseamento do dinheiro ele tem que ser claro, transparente mesmo, as operações bancárias não podem estar escondidas tantos anos como no caso BPN. Registos em balcões virtuais a substituir os reais parece ser uma técnica só possível perante o olhar complacente das autoridades de supervisão.
Não são espiões, dizem os homens do Banco de Portugal. Se não for assim não seu como será possível controlar a emissão de moeda falsa?

02 novembro 2008

Momentos da Crise (22)

Em tempos até se instituiu um Dia da Poupança. A ideia era meritória porque visava incentivar a prática de juntar sempre que possível umas economias para instituir um pé-de-meia o mais elástico possível, para ocorrer a uma despesa mais imprevista, a um investimento mais vultuoso na habitação ou na mobilidade.
A ideia de ter uma poupança é uma ideia sadia, que não seja mais do que ter um fundo de maneio suficientemente vantajoso para que nos livrasse ao menos daquela sensação de aperto em que vive quem corre o risco de gastar até ao dia 20 o dinheiro que lhe deveria chegar até ao fim do mês.
Esta ideia que o nosso Salazar levou até aos extremos tem os seus méritos, conquanto possa ser partilhada por gente com más intenções, como é o caso. Infelizmente não é esta a única ideia posta de lado por ter sido já usada com intuitos políticos ou por gente que faz associações de ideias pouco claras e abusivas só para satisfazer ideias de outra índole, como se passa com a ideia de família.
Aliás poupança e família são duas ideias que se ajudam, que se reforçam e que podem conjuntamente servir de base a muita tomada de decisão. Poder-se-á dizer que há uma relação directa entre capacidade de poupança e o prolongamento da família através da entrada nesta de filhos.
Só que hoje está bem mais em voga a antecipação do futuro, o gastar agora e pagar depois, o viver por conta do rendimento que há-de vir. Se tal fosse feito com comedimento, se não fosse posto em causa o necessário equilíbrio do orçamento familiar, as vantagens seriam evidentes.
Mas substituir tão só o aperto da poupança voluntária pelo aperto dos compromissos certos, inadiáveis e prioritários é que parece mais confrangedor.

01 novembro 2008

Momentos da Crise (21)

A todo o momento, quando conversamos com alguém menos preparado para a dialéctica, estamos a deparar constantemente com pensamentos terminais, daqueles perante os quais é difícil argumentar, pois quase nos deixam sem outra escolha que não a de aceitação ou rejeição.
Se conseguimos ultrapassar esses autênticos nós górdios também normalmente somos acusados de falar muito e dizer pouco, pois tais pessoas estariam tão só à espera de um sim/não redutor. Por isso temos de os tratar como perigosas encruzilhadas, autênticas ratoeiras que os mais destituídos utilizam quando não conseguem ir mais além.
Mas a crise é neste aspecto um ajudante expedito para obrigar as pessoas a encontrar razões, a não se ficarem por trivialidades. A crise estilhaça a argumentação simplista, a sentença fácil, a estagnação dialéctica. Com a crise dá-se a implosão de muita verdade tida por inquestionável.
Perante a crise e o seu evoluir ziguezagueante muitas das perguntas deixaram ou vão deixando de fazer sentido. Quando as respostas sim ou não deixam de corresponder a opções viáveis ou quando o caminho começa a ser só um e cada vez mais estreito, as pessoas vão-se convencendo que as suas perguntas eram falaciosas.
As perguntas a fazer agora não são sequer como vamos sair da crise, como se estabilizarão os parâmetros mais importantes que configuram a situação económica, mas sim como deve ser estruturado o sistema financeiro, que serviços e produtos ele deve fornecer, que controle deve ser estabelecido para que uma situação como a presente se não repita.

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

Acerca de mim

A minha foto
Ponte de Lima, Alto Minho, Portugal
múltiplas intervenções no espaço cívico

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck
O mais perfeito retrato da solidão humana