26 julho 2007

As várias caras do medo na versão triste do poeta

O medo tem muitas caras e o poeta devia saber disso. Ele ter-lhe-á conhecido uma antes do 25 de Abril perante a qual não soçobrou, honra lhe seja. Outros terão conhecido outras, por aí mais tenebrosas e não pestanejaram, honra lhes seja também. Mas é após o 25 de Abril que o poeta tanto se tem aterrorizado com o medo que já ninguém se deixa assustar quando resolve apelar ao estado de alerta.
Se o poeta teve a sensação de que nem sempre convém dizer o que se pensa não terá sido decerto a primeira vez desde o 25 de Abril. Algumas vezes terá calado por medo, outras por motivos menos louváveis, mas com certeza que já teve ocasião de ser leal com alguém, que subserviente não me parece. Com o seu busto altivo haverá lá medo que passe!
Como poeta até deve estar bem habituado a isso, qual fingidor que manobra o medo como bem lhe apetece. Ainda acresce que hoje o poeta não precisa de ser leal a ninguém na sua postura de auto marginalizado do sistema partidário. O poeta já não é leal, nem conveniente, mas caricato.
Como não existe uma cultura de liberdade individual, o que se reconhece ser verdadeiro, cá está ele para servir de exemplo a quem o queira seguir. Se não tem por que se queixar, já quanto à sua contribuição para essa liberdade, que não para a colectiva, não tem sido brilhante. Ocasiões não lhe faltaram para intervir na prática mas quando o fez só borrou as mãos e a escrita. Jornais fechou ele, mas nessa altura o indivíduo ainda não contava.
O poeta é o espantalho do medo, o esconjurador do medo, o delator do medo. Mordaças e estrangulamentos de alma não são com ele. O governo, esse malvado, vive de álibis e aproveita para promover o pensamento único, quando não o medo, esse fantasma tão presente no seu imaginário poético.
Mas nós também devemos ter medo, de um medo que o poeta não tem, medo do nada, do vazio, da vacuidade. Quando o poeta podia dizer algo de novo, que falta uma estratégia, vá de alinhar alguns factos, analisando-os pelo lado do mais reles populismo, como se estratégia fosse navegar à bolina. O poeta está cá para alertar, para lançar atoardas, a mais não é obrigado.
Tudo se podia resolver, talvez com uma mudança de estilo, talvez sujeitando o governo ao interesse meramente partidário, onde o poeta está e não está, conforme a conveniência. O poeta não tergiversa: A liberdade sempre e agora, que já se não pode pensar de maneira diferente de Sócrates, mas também da dele, ideólogo da poesia triste.
O que o poeta não perdoa é que José Sócrates personifique uma política que, bem ou mal, põe em prática, fugindo sempre que pode ao “talvez” com que lhe querem armadilhar o caminho. O que o poeta queria era uma política em que tudo fosse posto em causa a cada momento e que continuamente houvesse alternativas, enfrentamentos, decapitações.
O poeta anda agora atrás de uma vida que perdeu em tantos anos de aparelho. Mas não se tornou inimigo dos partidos políticos, diz. Inimigos são os que promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura. O que teria andado esta ave a fazer durante tantos anos? A cuidar da sua vida de certo, que a sua noção de vida política se resume a esta conversa balofa.
O seu medo será de perder o estatuto? O que estará em causa na sua liberdade? O seu valor não pode estar só no busto, na presunção, na vaidade. Porque se analisarmos a sua acção política não passa do habitual desastre que neste País é usual permitir, sem queixas, aos poetas.
Melhor fora dedicar-se à poesia, mesmo com o cariz triste de quem está sempre insatisfeito e de quem da tristeza se não consegue libertar. A não ser talvez quando abandona a Assembleia da República para ir às suas imprescindíveis caçadas. Mas há sempre quem goste destes bustos a que a patine do tempo dá um aspecto solene, de passionarismo decadente.

21 julho 2007

Moderação nos ímpetos regionalistas, persistência na acção

O Portugal, como o sentimos ontem e hoje, na sua dimensão octocentenária, criou-se por aglutinação, já que Afonso Henriques e seus descendentes lá conseguiram agregar esta faixa litoral até ao sul sempre com uma largura semelhante ao Norte e todos ficaram satisfeitos.
Sendo centralistas, como todo o poder o é, tendo transferido a capital para Sul, levaram consigo o efeito centrípeto, o poderio das ordens, o poder do paço real, o poder de esbanjar, o poder de dar luzimento a si mesmos. É isto que caracteriza o poder e o poder está desde então associado a Lisboa.
As nossas gestas descobridora e mercantil reforçaram sobremaneira o seu brilho, a sua condição central, difusora de cultura mas economicamente concentracionária. Do Mondego para cima a influência positiva de Lisboa nunca foi muito relevante mas a negativa é acentuada até pela apatia, pela sua intervenção minimalista.
Só a escolarização geral, embora limitada no tempo, promovida de modo contraditório por Salazar e diga-se, a sua única política louvável, levou a criar um espírito de unidade até aí presumivelmente mais ténue. E o seu propósito era de certo esse, de reforçar o espírito nacionalista.
Por razões políticas após o 25 de Abril criou-se uma divisão norte-sul que, porém, nunca ninguém assumiu como tendo possibilidades e desejos de ser definitiva, antes assentava num princípio de solidariedade que nunca abandonou os protagonistas dessa época. O Norte ajudou a estabilizar o País sem nada pedir em troca.
A manutenção do modelo agrícola de subsistência, a depreciação do valor da produção agrícola, o abandono dos campos, a economia industrial de mão-de-obra intensiva levou a que o Norte, quando estes fenómenos se acentuaram com a integração europeia, visse o valor do seu produto per capita a perder no cômputo nacional.
O mal-estar gerado em quem se acha a alma da nação, e não tem benefícios que se lhe comparem, reverte de novo para factores de índole psicológico que determinam que agora surjam idealistas de um Norte justiceiro, motor de todas as causas nobres, a se misturarem com nostalgias de um Norte às direitas, sempre atrasado no seu passo histórico.
O deslumbre de um brilhantismo da capital perante um regresso à secular apatia do Norte, parece que só entrecortada pelo roncar dos Ferrari do Vale do Ave, faz alguns gritar de raiva quando para si olham.
Estes primarismos, resultado do quanto nos custa olharmos para nós mesmos, sabe-se por onde começa mas não onde acaba, ou antes, não leva a lado nenhum. Os ímpetos incontrolados de quem faz do comentário um escape ou um divertimento são disso uma evidente manifestação.
A inoperância dos governos em detectarem a tempo os problemas resultantes da alteração dos padrões produtivos, a que há décadas se sabia que o Norte inexoravelmente haveria que ser submetido, por efeito da alteração de outros paradigmas em que assentam as sociedades mais evoluídas, é a única razão da actual situação.
Porém todos nós temos a nossa quota-parte de culpa, dado que o clima político é sempre por nossa vontade a favor de politicas imediatistas e não o é a favor do necessário processo de reorganização de toda a administração pública, que se deveria conjugar com a criação de poderes regionais que nele participassem.
Este deveria ser o primeiro passo para poder influenciar os factores que determinarão a adaptação a novos padrões produtivos. Nenhum gestor fará milagres se tiver uma herança caótica e nesta questão não podemos vender o negócio e mudar de ramo. Temos de trabalhar com aquilo que temos e ir mudando sem tentar atropelar as leis a que estes processos estão submetidos.

19 julho 2007

Um testemunho comunista fundamental

Italianos, franceses, espanhóis e portugueses tem andado juntos quanto se trata de ideias políticas, uns mais avançados que outros, com cambiantes mas com muitos traços comuns. Um deles é que todos tiveram, em diferentes ocasiões históricas, partidos comunistas com significativa influência na opinião pública e até nos destinos dos respectivos países.
Nós temos aprendido essencialmente pelo exemplo desses três outros partidos comunistas, sendo o português o mais hermético e fechado dos quatro. Enfim Zita Seabra fala-nos do caso português, com as suas particularidades derivadas das condições histórico-geográficas e políticas próprias. Fala-nos, dado o seu longo e preenchido percurso, da organização, dos métodos usados, dos fins perseguidos.
O partido comunista teve em Portugal um percurso que a partir de certa altura se pode relacionar com o de Zita Seabra e de muitos outros da seguinte forma: Há um período mítico, um revolucionário, um ideológico/ constitucional, um decadente e a actual situação em que a divisão deu origem a um partido moribunda e uma mulher revigorada.
Tendo entrado na primeira fase, ainda com Salazar vivo, participou na construção da seguinte, principalmente desde que assumiu a direcção da U.E.C. e que terminaria no 25 de Novembro de 1975, empenhou-se na terceira com desilusão, na quarta até à sua exclusão para que a quinta não ocorresse.
Pelo seu significativo trabalho de organização Cunhal promoveu-a ao posto hierárquico mais alto a seguir ao seu. Saiu na fase decadente estupefacta com o dito “socialismo real” mas tentando salvar o que fosse possível salvar, salvando a face dos bem-intencionados.
Zita Seabra revela factos que demonstram o cinismo da maioria dos dirigentes, mesmo quando eles se agarram a Álvaro Cunhal como o único que lhes podia salvar a face, escondendo as suas intenções, recuando o mínimo possível e negando o passado tão só porque já o não conseguem repetir.
Mas, se o relato destes factos dá consistência à história, Zita Seabra não se serve deles para fundamentar a sua tese que não é de atacar o carácter das pessoas antes sim de atribuir todas as culpas à política proposta, ao centralismo democrático e à ditadura do proletariado, ao sistema assim criado.
É um livro benéfico para todos porque há tiques que nós carregamos do nosso passado, só possíveis de germinar neste passado e de que nos temos que livrar. Cunhal copiou tiques de Salazar porque tinha a ideia que era o único capaz de se lhe equiparar. Aqueles que ainda hoje fazem elogios a Cunhal, sacralizaram-no e têm a ideia de terem herdado algum bocado do seu espírito.
Só nos libertaremos desta nódoa com a verdade nua e crua que Zita Seabra teve a coragem de contribuir para desvendar. Se muitos mais falassem seria mais fácil mas inacreditavelmente muitos calaram-se e limitaram-se a mudar para o que consideravam as margens do comunismo: O P.S. ou o B.E.
Porque a margem P.S. é desde a Fonte Luminosa radicalmente diferente, o silêncio dos que para lá foram só se justifica pela vergonha de se sentirem enganados. Zita Seabra afirma-o e confirma-o, que nunca foi enganada. Por isso, quando foi expulsa, nunca o aceitou, ao contrário dos dissidentes que nunca lhe perdoaram a frontalidade de ter enfrentado Álvaro Cunhal enquanto lhe deram essa possibilidade.
Os outros foram enganados e saíram cabisbaixos. Ela foi traída pelo seu próprio intelecto e saiu de cara levantada. Como ela, muitos viram no P.C. a única forma de desestabilizar o sistema salazarista e lavaram a peito o seu projecto na medida em que se foram integrando e identificando com o projecto perverso personalizado em Álvaro Cunhal.
Só a qualidade do empenho de cada um levou a que uns vissem mais cedo a natureza do sistema que existia na U.R.S.S. e que cá se queria montar. A saída deste empenho teve no caso de Zita Seabra implicações na saúde, mesmo de natureza psico-somática, mudou-lhe a idiossincrasia.
Ela adquiriu a lucidez de quem não atribui culpas às pessoas mas sim aos sistemas que carregam em si diferentes doses de perversidade. Reordenou as suas ideias à volta de valores humanos que devem prevalecer sobre todas as ideologias. A estas nunca se devia deixar que assumam carácter absoluto. Se pensarmos que os mortos do comunismo merecem o mesmo tratamento que as vítimas do nazismo estamos no caminho certo.
As pessoas também não gostam de vidas completas porque elas comportam necessariamente reviravoltas. Gostam que elas sejam o mais linear possível, para bem as perceberem e à sua maneira. Zita viveu e continua a viver o que há no seu tempo, que de linear nada tem e por isso não agradará a muitos, como se as mudanças fossem em si um crime.
O intelecto de Zita Seabra assumiu diferentes perspectivas intelectuais em diferentes momentos da sua vida, mas sabemos agora o que então desconhecíamos: O intelecto atraiçoa-nos quando gera sentimentos perversos de que não nos “queremos” aperceber. Quando passamos a percebê-los não praticamos qualquer crime.
Cunhal teve sempre essa vida linear, pelo menos no aspecto público, porque antes quis morrer com o seu erro a dar o braço a torcer. Contrariamente a Cunhal, Zita Seabra apercebeu-se do erro e quis rectificar o que de mal tinha feito na sua vida. Foi a tempo de o fazer integralmente: Os mortos, os injustiçados do comunismo ajudaram-na.

14 julho 2007

A Terra, as Cidades, as Regiões e o Progresso

Não foi fácil agarrar o homem à terra, fazer dele agricultor. Os dados históricos indicam-nos a região do Oriente Fértil como aquela em que a agricultura primeiro se desenvolveu e obteve tal êxito que permitiu que se desenvolvessem as primeiras civilizações dignas desse nome, com escrita, organização e leis.
As cidades foram elemento essencial numa evolução assente na complementaridade, mas que se não ficou por aí. Estabeleceu-se uma ligação equilibrada entre o amanho da terra e outras funções diversificadas que só nas cidades podiam ter justificação e garantido o progresso com a simultânea evolução das actividades intelectuais.
A produção de alimentos era suficiente para que um grande número de pessoas se desligasse de novo da terra, já não para serem colectores na natureza, mas para se dedicarem a actividades do espírito, da ciência e da técnica.
Houveram outros processos evolutivos noutras zonas do globo que, por não terem tido traços tão marcantes como este, pela menor repercussão que tiveram no evoluir da humanidade, não deixaram de se basear nos mesmos princípios, estivessem ou não sujeitos a regressões, a problemas demográficos, chacinas, calamidades e pestes.
O nosso canto, e permitam que vos deixe a clara definição dos seus limites, não foi dos mais fustigados por estas ocorrências, dado o seu posicionamento periférico em relação à Bacia do Mediterrâneo, durante largo tempo berço e centro das principais civilizações em que a nossa teve as suas raízes, mas que só cá chegaram após sujeitas a processos de filtragem.
Mesmo a influência civilizacional por mar nunca foi muito profunda, nunca foi muito para além da costa, a não ser no Sul, de certo por razões orográficas e hidrográficas. Mas mesmo o Sul, colonizado pelo Norte, haveria por razões políticas de perder muitas das suas vantagens no correr dos séculos.
Na paisagem acidentada do Centro e Norte do País o povoamento foi sempre muito disperso e os centros urbanos desenvolveram-se mais mercê de decisões administrativas do que da pujança natural dos seus habitantes.
As mudanças operadas na importância relativa das cidades, no atrofiamento de umas e no desenvolvimento de outros, derivaram mais dos equilíbrios entre poder religioso e político, do reino ou império em que nos integrávamos, em questões estratégicas colocadas por quem detinha o poder.
Ainda outros factores condicionaram o desenvolvimento das nossas cidades e dos centros urbanos de menor dimensão. Limitaram-se a ter uma função complementar à ruralidade, deixaram-se vencer pela dificuldade de movimentação, pelas restrições que lhes eram continuamente colocadas.
O interesse das ordens religiosas, do poder religioso, dos proprietários mais abastados convergia com o temor dos menos afortunados em abandonar a pouca terra que detinham para engrossar a massa urbana e se desligarem definitivamente da sua lavra. Quando a fome apertava e tinham que emigrar, faziam-no para longe, para a sorte, que, se houvera que morrer à fome, os não viam mais.
Este passo decisivo que era dado em situações dramáticas e para um futuro incerto não era dado facilmente para as urbes mais próximas e dinâmicas, que aqui quase certa era a indigência que os esperava. E, como aqui já havia bastante, o caminho de volta era o mais recomendado.
As nossas cidades nunca exerceram uma atractividade irresistível, os poderes políticos nunca estiveram interessados em que assim fosse, tudo era mantido em dimensões mínimas para que se não desfizessem equilíbrios no sector primário, aquele que durante séculos constituiu a base das preocupações de quem governava.
O poder religioso foi contribuindo com a sua parte, disseminando os seus agentes pelo território, instituindo centros de culto em regiões inóspitas que desviassem as pessoas da sua confluência natural para o monumento urbano, espelhando uma cultura anti-citadina no campo e anti rural na cidade.
Muito desse poder religioso implodiu, como implodiu a União Soviética. A coincidência entre paróquia e freguesia é hoje um artifício. O Estado tem de “aproveitar a ocasião” para acabar com a palhaçada da nossa organização administrativa, fruto do caciquismo prevalecente há duzentos anos em Portugal. A freguesia, sem a paróquia atrás, falta-lhe a alma.
Uma organização racional do território terá que assentar em municípios mais pequenos e na extinção pura e simples das freguesias. A clara definição de critérios objectivos que tenham em consideração todas as variáveis importantes determinarão com certeza a necessidade de aglomerados urbanos com funções inter-municipais, supra-municipais, regionais ou nacionais em domínios específicos como a justiça, o turismo, o abastecimento de água, etc.
Como é irracional andarmos a votar para todas as organizações que de algum modo exercem funções de soberania ou delas derivadas, ficaríamos pelos concelhos, as regiões e o governo que estabeleceriam entre si, com critérios de razoabilidade, a distribuição de recursos e competências e formas complementares de organização que se justificassem.
A implementação de regiões é um passo essencial numa lógica de aumento da dimensão das unidades intermédias. O Concelho cederia o seu lugar de hoje à Região. A Região passaria a ser a autarquia maior em face do Governo Central.
O número de escalas permaneceria em três, igual ao que hoje temos. Bastavam porque mais uma já seria a confusão. Promovam-se sim cidades, sem preocupações de falsas justiças, que o que há de mais pérfido é distribuir misérias e elefantes brancos por todos.

Visite nos próximos tempos a Serra de Arga e a sua Arte na Leira a poucos quilómetros da saída da auto-estrada de Dem, Caminha.

13 julho 2007

Infelizmente este Couceiro, que tanto desprestigiou o País, não está só

Não vou falar de futebol, de tácticas, preparações, mentalizações. Tão só direi que líder que se preze tem de ser, de alguma forma, um exemplo a ser seguido. E também tem que manifestar algum espírito ganhador, que não espírito caceteiro. Isto vale para um Couceiro qualquer, seja treinador de futebol, como vale para um líder partidário.
A figura que ele está a fazer, de ir pensar, que ele não vai querer prescindir de uma indemnização e não se demite, não o dignifica minimamente. Mas que pode ele fazer de pior do que já fez.
A figura caricata de um líder político da nossa praça nacional ainda não teve oportunidade de contribuir tanto para o desprestígio do País, para borrar a nossa dignidade, porque as suas asneiras ainda não passaram fronteiras, mas não o podemos deixar fazer pior.
Como fraco treinador das suas tropas, que procura adestrar no mais primário trauliteirismo, contagia muitos espíritos que mereciam um bem mais saudável ambiente em que pudessem amadurecer e expor as suas ideias.
Para que os seus correligionários possam ter a ambição de contribuir para o bem nacional, também este não terá outra atitude a tomar na segunda-feira, senão ir-se embora, após a derrota na eleição para a Câmara Municipal de Lisboa.
Este tipo de gente não dignifica nenhuma instituição, seja a Universidade Atlântica, seja qualquer empresa fornecedora de serviços à P.T., seja a Federação Portuguesa de Futebol. Mas não lhes podemos dar-lhe mais oportunidades de sujar a nossa imagem nacional. Esta gente não tem vergonha.

12 julho 2007

Um patrocínio que não dignifica a Câmara de Ponte de Lima

Dos Jornais: Em Felgueiras uma mulher de 47 anos ficou gravemente ferida depois do ataque de um doberman. O animal estava ao cuidado da mulher desde pequeno. Os ferimentos quase mataram a senhora que sofreu lesões muito graves no pescoço e rosto, tendo sido sujeita a várias operações plásticas.
Entretanto a Câmara Municipal de Ponte de Lima patrocina a expansão do comércio deste tipo de feras. Qual será a intenção dos membros da Câmara ao irem ao arrepio do mais elementar bom senso e daquilo que já está acordado no Parlamento Nacional?
Lembremos que na Assembleia da Republica está em fase de aprovação uma lei "mais apertada que reforce a responsabilização de proprietários, comerciantes e criadores de cães considerados perigosos" é o que pretende a deputada Rosa Albernaz, autora do projecto de lei do PS, já debatido na Assembleia da República em simultâneo com outro do CDS-PP. Ambos os diplomas foram aprovados para discussão em comissão parlamentar.
Tanto socialistas como democratas-cristãos partem do princípio de que um animal é potencialmente perigoso e a sua perigosidade depende, em grande medida, do seu proprietário. Daí que o CDS-PP proponha exames de aptidão física e psicológica para os proprietários e o PS defenda a existência de um registo exaustivo de cada animal.
"É preciso que os criadores inscrevam nessa ficha os dados genéticos do animal e a filiação", disse ao JN Rosa Albernaz, ao lembrar a existência de manipulação genética de raças com fins criminosos e ilegais.
O CDS-PP exige ainda aos proprietários um registo criminal limpo de crimes contra a vida e integridade física, contra a liberdade pessoal ou autodeterminação sexual e contra a saúde e a paz públicas. "Por outro lado, aumentamos o número de competências dos funcionários municipais no controlo destes animais", explicou ao JN António Carlos Monteiro, o deputado autor do projecto de lei dos populares.
Na opinião da deputada socialista, que propõe também o aumento das coimas para reincidência na violação da lei, "esta clarificação pretende ser um passo na defesa da segurança das pessoas mas também dos animais". "É que um cão é o que o dono quer que ele seja", concluiu Rosa Albernaz.
A Direcção-Geral de Veterinária divulgou entretanto que estão registados 4 458 cães considerados potencialmente perigosos, ao abrigo da legislação que obriga os proprietários destes animais a fazerem o registo respectivo nas juntas de freguesia. O maior número concentra-se no distrito de Lisboa (1 003), seguindo-se os de Faro (618), Setúbal (612) e Porto (606).
Os distritos com menos registos daqueles animais são Castelo Branco, Portalegre e Vila Real.

09 julho 2007

As minudências como base de uma campanha política

Quando pressuporíamos estar a discutir que funcionalismo público queremos, que estruturas devem suportar as actividades essenciais do Estado, que meios humanos e de que maneira o Estado deve recorrer a eles para executar as funções a que se propõe, vai daí os sindicatos, directa ou indirectamente comandados pelo Partido Comunista, saltam a defender a estagnação e o imobilismo. Nada a opor.
O Execrável, para animar um pouco as suas hostes, puxa de um assobio e apita a todo o contacto físico, qual árbitro novato que ainda não tem a noção do que anda a fazer. Ora este já é uma carraça velha e a única justificação é já estar caquéctico.
Os apoiantes socialistas parecem vacilar, dada a aparente indiferença com que José Sócrates os tem tratado, na sua postura de se dirigir preferencialmente a todo o povo e de por à frente de tudo os interesses nacionais. Muitos já gostariam que o apoio à política socialista se volatilizasse.
Claro que se formos analisar friamente a actuação do executivo só em 50 % estaremos em consonância absoluta com as suas medidas, mas os outros 50 % serão bem compensados porque a alternativa Execrável de certo que só conseguiria, na melhor das hipóteses, uns míseros 10 % do meu apoio.
A social-democracia só perde em apresentar este irresponsável, incapaz sequer de atingir os tempos áureos de manobrador ao serviço do cavaquismo que haveria um dia de saturar o próprio Cavaco Silva.
Mas os apaniguados deste repelente animal político, a que chamamos o Execrável, vêm dizer que está em causa a Liberdade e outros Valores Superiores, quando tão só estão em causa uns tachos de uns tantos que passam a sua vida de funcionários públicos a fazer politica da mais ordinária.
É um triste sinal da incapacidade intelectual, da baixeza moral, do esquecimento do passado, de desrespeito pelos humilhados no antigo regime, confundir interesses mesquinhos de pessoas avulsas, sem valor, sem elevação e a quem ninguém tirou qualquer meio de subsistência.
Por mais que se possa atribuir a erro certos procedimentos, os valores que eles eventualmente possam atingir são tão irrisórios e irrelevantes que quem se põe na sua defesa revela um carácter mesquinho, antes se preocupasse com aqueles que perdem um emprego efectivo.
A alma destes críticos do governo está prenhe de interesses vis, da impunidade em que sempre tem vegetado, da avidez de não olhar a meios para passar por cima de outros bem mais capazes, mas que não possuem ou não se aproveitam do seu cartão partidário.
Critiquem a politica de saúde, discutam a politica de ensino, ponham em causa a política de transporte, ataquem a politica agrícola, de pescas, de turismo, todas as outras e mais algumas que se possam identificar, mas, por favor, com estas minudências não.
Não se trata aqui de calar, mas de dar somente a importância relativa que estas coisas têm. Não servem de base honesta a qualquer campanha política. Não põem em causa qualquer política do governo.

04 julho 2007

Da vitalidade das nossas Urbes está dependente o progresso

O progresso, nas suas variadas e controversas vertentes, tem a sua origem nas cidades. Toda a experiência da humanidade nos diz que o povoamento disperso retira qualquer possibilidade de formação de massas críticas para os mais variegados fenómenos.
Salvam-se as actuais sociedades do espírito que havendo múltiplas formas de contacto entre os seus membros proporcionam, seja qual for o local onde se encontrem, uma comunicação e uma partilha nunca antes vistas. Faltar-lhes-á o contacto pessoal, uma vivência comum dos problemas imediatos, sobra-lhes um distanciamento de certo modo inultrapassável.
Maugrado na grande maioria dos aspectos que interessam ao desenvolvimento sócio-económico e cultural de uma sociedade nada se consegue sem uma certa aglomeração física das pessoas. Quando falamos de desertificação do interior é porque há uma progressiva perca de condições, de que se destaca a dimensão dos “ajuntamentos”, para nele operar o desenvolvimento:
Há uma diminuição do número de habitantes e/ou concomitantemente a sua dispersão pela paisagem; E paradoxalmente, e não tanto, há em simultâneo, por efeito do progresso exterior, um aumento da massa crítica que seria necessária para que se justificassem certos serviços, certos comércios, certas indústrias e, pior do que tudo, para que brotasse algo de novo, nem que fosse enxertado por estranhos.
Para haver a dita aglomeração física é mesmo necessário que não acho excessiva dispersão habitacional. É preciso haver ruas, praças, jardins, locais de encontro. Em tempos, na nossa superior ignorância, ou no nosso exacerbado egoísmo, achávamos uma prepotência inaceitável todas as limitações à construção por parte do municípios e de outras entidades públicas. Todos querem uma casa bem isolada, de preferência no cimo dum penhasco.
Os poderes públicos bem bradavam que o povoamento disperso aumentava o preço da acessibilidade, seja por caminhos, fios eléctricos e telefónicos, condutas de água e saneamento, afinal os custos directos deste luxo, mas não se fazia referência aos custos indirectos, aos efeitos no tecido social.
Os candidatos autárquicos lá ponham timidamente nas suas propostas eleitorais, copiando-se desavergonhadamente, mas sem intenção de mexer uma palha, que eram a favor do desenvolvimento de centros urbanos de dimensão razoável que pudessem comportar algum relacionamento e conforto “citadino”.
Pura ilusão, eles aprenderam que as pessoas dispersas são mais individualistas, mais influenciáveis, mesmo mais fidelizáveis. Têm uma menor noção de pertença a grupos, sentem-se menos envolvidas e responsabilizadas pelo que a sua fidelidade se deve mais à sua imobilidade intergrupal, o conservadorismo em todos os aspectos agradece.
O que agora se não dispensa é mesmo a mobilidade individual. Para nós já é igual se, para nosso interesse, tivermos que ir a 20, 50 ou 100 km. Assim não há cimento social que resista. Desvanece-se o espírito do lugar.
Os autarcas têm responsabilidades porque se sujeitam facilmente ao egoísmo reinante. Os bons exemplos do passado devem-se mais aos condicionalismos exteriores do que a opções conscientes e a saberes transmitidos. Por isso os Centros Históricos estiolam. Hoje a ligação à terra não existe, o que há são lugares com mais ou menos valor comercial.
Ao progresso interessaria que as pessoas se agrupassem mais, contactassem ao nível da vivência diária, cimentassem no lugar as suas relações, nem todas boas necessariamente, fossem mais livres, menos condicionados a abordar as suas opiniões, menos dependentes da imagem de perfil que um dia mais lhes agradou, abandonassem a hipocrisia de arrogar-se a propriedade de algo quando quase tudo é importado, até os valores o são.
No passado, bem ou mal, havia um cimento solidário, assente numa cultura tradicional partilhada, numa religião sempre presente e abrangente, um saber prático capaz de responder a todas as situações da vida real. Não era de todo mau manter deste passado o espírito de participação pessoal no colectivo.
Tudo isto está porém em declínio ou já feneceu. Da cultura popular ficou o folclore, da religião a fraca usança, do saber um desfasamento irremediável, mercê das mudanças operadas nos nossos modos de vida, da participação cívica uma caricatura, quando não uma clara aversão.
E é isto que nos faz duplamente ignorantes porque o somos e estamos convencidos do contrário. Somos ignorantes e ignorantes que o somos. E quando sabemos isto tudo, mais grave ainda, somos masoquistas. Atiramos culpas para cima de todos nós, insultamo-nos e humilhamo-nos.
Vejamos bem as coisas! Erramos, vimos a tradição pelos seus aspectos mais atávicos e prejudiciais ao progresso, vemos o progresso pelos seus lados mais banais e lúdicos. Repensemos, não nos envergonhemos de admitir que estávamos enganados.
O desenvolvimento das nossas terras não se fará por decreto, sem mudança na nossa maneira de ver o futuro. A aposta num futuro consistente é a alma que lhes falta e que só nós lhes podemos dar. Não podemos pensar nelas só por desenfastio, o que acontece enquanto a nossa máxima for só subir na vida, seja lá onde for, e não for viver numa sociedade solidária.
As visões egoístas não nos permitem viver o lugar, porque o associamos a atraso, vemo-lo afundar-se e não queremos ir com ele. Mas não há espiritualidade sem sítio onde nos agarrarmos ao chão. E a maioria de nós não tem a virtuosidade de fazer do mundo o seu lugar.
Só os emigrantes sentiam o que era esse andar desgarrado pelo mundo. Hoje a maioria de nós já aqui assim se sente. O mundo a sério dos emigrantes é agora o nosso mundo virtual em que nós vivemos e em que só nós contamos. Alheamos de tudo o que nos rodeia, ainda lhe não ganhamos afecto.
Pensemos também nos outros. Ponhamos aquilo que temos de melhor a contribuir para a dimensão e grandeza da nossa aldeia, vila ou cidade, cientes de que o futuro é na sua grande parte implacável e indomável pelas nossas fracas forças.
No entanto temos um futuro e por isso temos que dar as mãos, no que isto comporta de mentes, saberes, recursos, disponibilidades. E, se a nossa dimensão não chega, não sejamos mesquinhos e aliemo-nos àqueles que também nos podem deitar a sua mão.
É necessário redimensionar os concelhos, acabar com as freguesias sem dimensão mínima ou agrupá-las quando isso se justificar, definir centros privilegiados de fixação de actividades comunitárias, de serviços locais e estatais e de todos aqueles que, sendo de índole privada, vejam vantagem em aí se instalarem.
Bairrismos e espírito de paróquia dispensam-se. Massa crítica é imprescindível. Do lado da nossa má tradição está o fomento antecipado das divergências com justificações que não vêm a colher. Mas é tão só a aplicação da velha e absurda máxima de que, a morrer, morramos todos mas cada qual para seu lado.
Não podemos discutir a regionalização sem discutir as outras dimensões que lhe são inferiores: As Cidades, as Vilas e as Aldeias, onde ainda haja lugar para elas. Se não podemos ter umas, as mais pequenas, apliquemos a nossa força nas maiores. Só Urbes com vitalidade nos trarão o progresso e sem a expectativa deste não há regionalização que resista.

03 julho 2007

Um acesso cada vez mais labiríntico à Vila

O acesso à Vila de Ponte de Lima pelo lado da Ponte da Senhoria da Guia está cheio de estrangulamentos. Confluem aí duas estradas com muito movimento, vindas da Correlhã e de Arcoselo e logo em seguida há uma entrada para um parque de estacionamento que obriga a virar à esquerda.
Temos depois a chamada curvas das Cunhas, o cruzamento do Gaio e o estrangulamento do Largo do Município onde está a estátua de D. Teresa. Mas a situação vai-se complicar com a utilização do acesso ao cemitério como acesso à zona escolar e a uma nova superfície comercial.
Este acesso, se não forem feitas obras no seu cruzamento com a estrada oriunda da ponte, vai ser complicadíssimo. Mas os problemas já começaram, os grandes transportes para o referido supermercado já por aí transitam.
O piso do acesso ao cemitério é irregular, a ligação ao novo arruamento construído no seguimento do seu primeiro lanço está deteriorado e sobe bastante. Um veículo pesado não conseguiu ultrapassar estes obstáculos e ficou sem embraiagem. O condutor resolveu a situação deixando descair o atrelado contra uma berma, tendo ficado atravessado na estrada.
Uma via que vai ter muito movimento não foi pensada de raiz antes se emendou o que já funcionava mal. O mesmo se pode dizer na ligação inversa à referida superfície comercial. A ver vamos.

As geleiras já chegam à sala de visitas

Desde há muito que advogamos que os autocarros, seja qual for a sua natureza, sejam de carreiras normais de passageiros, sejam de excursões, não deviam entrar na Vila de Ponte de Lima, excepto para cargas e descargas em local para esse efeito fixado.
O único acesso seria feito pela Avenida António Feijó e a inversão de marcha far-se-ia no Largo do Município para cujo efeito deveria ser adoptado. Recentrar-se-ia a estátua de D. Teresa, criando uma rotunda de dimensão adequada, uma placa giratória que facilitasse o muito transito que aí aflui. Reservar-se-ia no final da Avenida todo o espaço necessário para a carga e descarga de autocarros e táxis e o estacionamento destes.
Só excepcionalmente, com pedido prévio, autorização da Câmara Municipal e das autoridades policiais e acompanhamento destas se poderia ultrapassar esta zona da Vila.
Se a Central de Camionagem é exterior à rodovia que circunda a Vila e é normalmente suficiente, já quando as excursões são em número elevado terão que estacionar noutra zona também exterior. Mas o principal problema é a inexistência de um parque de merendas e também de um restaurante de dimensões apropriadas para grandes afluências.
Ainda esta semana perto de mil pessoas de S. João da Madeira por cá passaram mas para almoçar foram à “Malafaia”, em Esposende. A solução desta situação deveria ser da iniciativa privada mas aqui ninguém gosta de correr riscos.
Quanto ao parque de merendas somos contra a sua construção na zona interior da Vila, sendo antes a favor de pequenos parques distribuídos pelo concelho à semelhança dos já existentes na Boa Morte ou Senhor da Saúde, melhorando-se as condições dos existentes.
O que não somos é a favor desta situação ocorrida no sábado passado pelas 19 horas em pleno Largo de Camões.

25 junho 2007

O interior é um factor decisivo na regionalização

Portugal é um País rampeado, inclinado para o mar. Mas valha a verdade que não o é homogeneamente. Tem mais declive para um lado, Lisboa, do que para o resto da costa. E o próprio litoral Norte pende para o Centro-Sul, assim como o Sul também balança para essa posição ao nível do mar que é Lisboa.
Mas mesmo que se conseguisse nivelar o litoral de Caminha a Vila Real de Santo António, mesmo assim o País inclinar-se-ia exageradamente para o oceano, esse mar tão salgado mas que nós adoramos e bendizemos, porque é a nossa verdadeira fronteira com o mundo.
É por isso que a grande questão em que os defensores da regionalização têm que assentar é na luta pertinaz e consequente contra a desertificação do interior, esse interior que é o berço da maioria de nós e a que nós viramos as costas logo que arranjamos um pouso à beira-mar.
Libertamo-nos definitivamente dos nossos irmãos espanhóis na sequência da derrota de Armada Invencível e nunca haveríamos de ter qualquer necessidade de afirmação perante eles mas tudo mudou. Já começamos a ter vergonha nessa outra fronteira que tão mal nos deixa ficar.
É verdade que quem vê telejornais, e presumo que quase cem por cento de nós, se surpreende todos os dias com coisas novas que nos são mostradas e aparecem fora dos grandes aglomerados urbanos.
O problema é que no interior se gastam milhares e já se consegue uma obra com certa visibilidade e nas capitais se gastam milhões para obter o mesmo efeito. O problema é que no interior se discute interminavelmente se se há-de iluminar uma torre medieval e no Porto não há problema para iluminar os arcos da Ponte da Arrábida toda a noite. E, embora haja, não podemos dizer que é tudo dinheiro mal gasto.
O reforço das disparidades regionais, a cada vez menor coesão nacional, parecem ser as consequências mais evidentes das medidas propostas por alguns regionalistas que, no sei afã anti-centralista, mais parece anti-lisboeta, advogam ideias contraproducentes que, a serem postos em prática, nada trariam de benéfico para o interior.
Há aqueles que terão o suficiente calculismo para disfarçar, mas convenhamos que haverá outros que nem disto são capazes e mais valia reflectirem melhor. Nunca será possível nivelar os territórios, mas o nivelamento dos mais ricos parece preocupar mais do que a recuperação dos mais pobres.
A questão do interior não é fácil porque depois do capital também já lá vai faltando gente e, se não houver uma inversão desta situação, tudo se vai agravar. Os mais cínicos dirão que não havendo residentes também não haverá votos contra a regionalização.
É uma tendência tão forte que só o Estado está em condições de contribuir para a sua inversão. Mas, estando asseguradas as infra-estruturas básicas, terão que ser os empresários a ter a iniciativa, a capacidade e o engenho de encontrar as actividades que aí terão implantação.
A simples aposta nos sectores tradicionais não é suficiente para garantir a sustentabilidade de um sistema sócio-económico em profunda crise, arrastado precisamente por aqueles sectores.
Realço o que Emilio Pérez Touriño, Presidente da Junta da Galiza, diz em entrevista ao JN:
A descentralização política, a autonomia, ajudou muito ao que o meu antecessor (Fraga Iribarne) chamava de auto-identificação do país, ao gerar forças próprias e estímulos endógenos. Mas não é o cem por cento da explicação. Tem também muito a ver com iniciativa empresarial. A autonomia foi um factor decisivo para gerar iniciativa empresarial, para lhe dar asas, para que voassem as iniciativas e para dotar a Galiza de equipamentos, de serviços, de estruturas, e para o crescimento das universidades. A excelência empresarial tem muito a ver com o âmbito autonómico. Mas, dito isto, também é verdade que a própria iniciativa empresarial, que umas vezes acerta e outras não, foi determinante.

24 junho 2007

Dêmos força à campanha contra o fogo nas florestas

Os primeiros sinais do Estio estão aí, é bom prevenir, difundir a mensagem: Portugal sem fogos depende de todos. Proteja a floresta. Denuncie os que atentam contra ela. Em Ponte de Lima ligue o 258900240. Grave no seu telemóvel.
Nunca será de mais reforçar as afirmações dos cartazes que proliferam por aí. Mas há nesta mensagem um pequeno pormenor daqueles que às vezes nos atraiçoam. Na minha opinião o apelo à denúncia não será o mais apropriado.
O que se pede é perfeitamente justo, mas as conotações que a palavra “denúncia” transporta tornam-na contraproducente. Talvez se encontrassem no léxico português uma palavra menos ligada à transmissão a outrem com poderes próprios da ocorrência de factos que se terão passado num ambiente que se presumia de confiança mútua.
Subjectivamente nada seria pois mais inapropriado para uma situação em que tenhamos a infeliz sorte de surpreender alguém a atear fogo. Não pode haver desculpas para aqueles que possam ter tais intenções. É bom que eles se consciencializem de que estamos seguramente dispostos a “denunciar” o seu comportamento, e esta será uma palavra forte e adequada ao efeito.
Mas se nos possa causar engulhos, esqueçamos as palavras e as suas subtilezas. Dêmos testemunho activo de uma situação socialmente lesiva, irresponsável, irracional. Não deixemos passar em branco, não ocultemos nada. Comuniquemos antes tudo o que nos parecer suficientemente capaz de gerar uma situação de catástrofe. E não tenhamos medo que nos chamem denunciantes ou outras coisas piores.

21 junho 2007

Apresentação do Programa e Cartaz das Feiras Novas

Independentemente de eventualmente podermos estar em desacordo com certas alterações ao programa ou podermos formular outras e justificadas considerações críticas as Feiras Novas não sofrem da nossa parte qualquer contestação na sua substância. Alias quem faz a verdadeira Festa é o Povo.

Programa:

Sexta-feira, 14
19,00 – Bandinha da Alegria
21,00 – Tuna Académica da Universidade de Coimbra
22,00 – Euro Canção
23,00 – Estudantuna e Spestuna da U.F.P. e Tesa e Tunesa da E.S.A.
00,30 – Fogo se Artifício
01,00 – Bandas de Música de Moreira do Lima e se Souto

Sábado, 15
08,00 – Alvorada
08,30 – Concurso Pecuário
08,30 – Zés Pereiras e Gaiteiros
09,00 – Bandas de Música de Ponte de Lima e de Melres
12,00 – Concentração de Zés Pereiras
15,00 – Corrida de Garranos
15,15 – Desfile de Fanfarras
16,00 – Cortejo Etnográfico
22,30 – Rusgas, Concertinas e Folclore
01,00 – Fogo se Artifício

Domingo, 16
08,00 – Salva de Morteiros
08,30 – Zés Pereiras e Gaiteiros Espanhóis
09,00 – Banda de Música de Tarouquela e Nova de Fermentelos
12,00 - Concentração de Zés Pereiras
15,00 – Desfile Taurófilo
16,30 – Tourada
21,00 – Festival Folclórico com dois palcos simultâneos
00,30 - Fogo de Artifício – Sessão espectacular

Segunda-Feira, 17
08,00 – Salva de morteiros
09,00 – Bandas de Música: S. Martinho da Gandra e Moreira do Lima
10,30 – Missa solene
16,30 – Procissão
20,30 – Grupo Santa Cruz – Música popular portuguesa
22,00 – Grupo Roconorte

Agora venha à festa e se não traz alegria vai ver que a leva daqui.

19 junho 2007

Não olhes para o que digo ao Trigueiro, olha para o que digo ao Mendes

No sentido de pôr um pouco de disciplina na questão da aplicação da justiça aos autarcas, o P.S. elaborou um projecto de lei que prevê a suspensão automática do seu mandato em caso de ser feita uma acusação que possa implicar um pena de prisão superior a três anos.
Não sendo os partidos donos dos mandatos autárquicos, tão só são senhores de propor pessoas para os assumir, também não cabe aos seus líderes determinar a sua perda quando os autarcas estão em funções.
O objectivo é que exemplos como o de Lisboa se não repitam com um Marques Mendes qualquer, politiqueiro do pior que nós temos, armado em justiceiro mor, a determinar quem está ou não em condições de continuar a exercer um mandato para que foi eleito.
Mas em Ponte de Lima também temos um justiceiro à nossa medida que peca por não exercer nenhum cargo na estrutura partidária social-democrata mas anda muito activo aproveitando talvez o facto de ser Presidente da Assembleia de Freguesia de Ponte de Lima e atirando francamente pedras a tudo que se mova, dentro e fora do seu partido.
Daniel Campelo foi constituído arguido, desconhecendo-se até se a acusação foi ou não confirmada após o período de instrução do processo. Os crimes de que é acusado, e que envolvem mais dois funcionários da autarquia, são denegação de justiça e prevaricação e a acusação foi formulada após a perca por parte da Câmara Municipal de uma acção que um particular lhe moveu e que ela perdeu em todas as instâncias, tendo que indemnizar aquele.
O Presidente da Câmara diz que, se agiu erradamente, a isso foi induzido pelos pareceres dos técnicos autárquicos, embora pareça a todos ser evidente que a Câmara terá utilizado meios mais expeditos do que aqueles que a lei lhe permitiria. Tanto assim que Daniel Campelo até invocou uma pretensa ingovernabilidade da Câmara se houvesse um cumprimento estrito da lei.
Há aqui um evidente julgamento político a fazer e esse é sobre a falta de rigor decisório, assente na falta ou no excessivo preciosismo, na falta ou excessivo facilitismo que nós vemos em muitas ocasiões. Podemos facilmente invocar a falta de equilíbrio e de bom senso que seria necessário manter para gerir situações complexas que a lei não está habilitada a configurar detalhadamente em todos os seus diferentes pormenores.
Mas é evidente que as relações mais problemáticas duma autarquia não são com os particulares mas sim com os empreiteiros e essas é que deveriam merecer das oposições maior empenho em que fossem mais transparentes e sérias e, porque não, merecer os comentários destes politiqueiros, mesmo que sejam tão só franco atiradores.
Se o João Carlos julga dar uma prova de independência ao estar a criticar tão veementemente o seu Chefe Mendes, só se pode tomar como uma posição pessoal, um conflito interno ao seu partido local.
A lei tem que ser clara e não poder ser dado aos caciques locais e nacionais o direito de se imiscuírem no exercício das funções autárquicas. Mas os tribunais devem ter esse direito e esses devem poder determinar a suspensão dos mandatos quando haja perigo da continuação de uma actuação delituosa.
Deixemos que sejam os tribunais a determinar se este caso é suficientemente grave, se a Câmara deve ser ressarcida dos prejuízos que teve, se os funcionários devem ser penalizados e se o Presidente da Câmara, como supremo avalista de um procedimento já reprovado ainda terá que sofrer penalizações que o inibam dos seus direitos cívicos.
Além de o não julgarmos antecipadamente e em local inapropriado não pretendemos uma antecipação de uma lei projectada mas de que se não definiram ainda os exactos contornos e as implicâncias que possa ter em cada caso específico.
Enfim este bloguista http://pontedelima.blogspot.com/ é contraditório: Queria condenar Campelo e salta em defesa dos coitados dos perseguidos autarcas. Condena Marques Mendes por perseguir autarcas e queria que Manuel Trigueiro retirasse a confiança institucional a Campelo. Este Senhor é um trapalhão que tropeça demasiado no tempo.

15 junho 2007

O papel dos interessados na solução da crise do comércio tradicional

(Continuação)
E que esperar dos principais interessados, os comerciantes? De certo muito, individualmente quando se trate de concorrer, associativamente quando de trate de convergir.
É irrealista esperar a diversificação dos horários dos serviços públicos, a constituição de fundos de apoio ao comércio ou a feitura de acordos globais sobre preços e variedades.
Será vantajoso apostar na inovação e diferenciação entre os comerciantes mas também em relação às grandes superfícies, na cortesia, na promoção global do Centro Histórico, no portal na Internet.
Caberá à Associação Empresarial de Ponte de Lima, curiosamente neste estudo não referida, e eventualmente a outras, suprir as lacunas aqui apontadas: O empreendorismo, o associativismo, a alteração de horários de abertura, a formação e rejuvenescimento, os estudos de viabilidade, as estratégias conjuntas de comunicação, a apresentação dos espaços comerciais, a aposta nos produtos autóctones.
Saliente-se que esta última aposta só será viável com a colaboração de outros sectores económicos, como a agricultura e a pecuária, sectores que vivem crises semelhantes, que estão em permanente evolução e que na região são por natureza avessos ao risco e à inovação. Têm demais os pés na, ou antes agarrados à, terra.
É verdade que o comércio não sairá deste clima depressivo sozinho. Mas haverá algum comércio que atingiu agora o seu máximo esplendor, como outro o atingiu no passado e está de momento em declínio. Deste, uns comerciantes pelo imobilismo, outros abatidos pela competição não sairão mais da crise, contentando-se com paliativos, até porque os filhos também já levaram outros rumos.
Também no comércio há heranças, segredos, sortes e outros factores aleatórios a pesar no seu sucesso. Como nós, todos se vangloriarão dos momentos de glória e todos se lamentarão quando o desânimo deles se apoderar. Cabe-nos neste caso, é nosso dever, dar o nosso apoio nestas ocasiões.
Um dos problemas é o conflito de interesses e efectivamente não se vêm os proprietários de imóveis comerciais preocupados com esta situação e com a sua, se não baixavam os preços de venda ou aluguer.
Sendo o comércio um fenómeno tipicamente urbano e carecendo o concelho de centros urbanos de pequena dimensão que justifiquem a instalação de alguns serviços e comércio diversificados a crise já há muito que se não nota na maioria do concelho porque simples e infelizmente já não tem a quem afligir. O comércio de aldeia sobrevive enquanto sobreviverem alguns velhotes que fazem desta actividade um complemento da reforma.
Direi mesmo que a maioria dos munícipes normalmente se está borrifando para quem vende desde que não os obriguem a entrar de fato e gravata nos estabelecimentos comerciais. Direi mesmo que a maioria é a favor das médias, grandes ou mistas superfícies porque dão emprego aos seus filhos, que o comércio tradicional já não dá, dão facilidades que aqui se reivindicam e bem para uma zona, mas que aqui custam ao erário público.
Além de mais a nossa estratégica posição já deveria ter sido aproveitada pelo comércio grossista e alguns operadores já se terão apercebido disso. Mas as visões estreitas já nos terão feito perder algumas muito boas oportunidades.
Não podemos ser contra as superfícies comerciais sejam de empresas distribuidoras, de particulares, associativas ou do tipo feira. Os limites artificiais à concorrência são atavismos prejudiciais e se temporariamente funcionam cá, não funcionam a nível regional ou nacional.
É de todo impossível obrigar as pessoas a comprar o que não querem, os comerciantes a vender o que não existe, o que não tem procura ou o que não dá lucro. È de todo impossível criar clientes ideais, configurar clientes, fossilizá-los, torná-los obedientes.
Possível, urgente, imprescindível é criar cursos ligados ao comércio e serviços, projectos inovadores e atitudes pedagógicas das forças policiais, último patamar da acção do Estado. Em suma a pedagogia falta-nos em todos os domínios desde a actividade particular, à actividade associativa, à actividade política e tão só à corrente actividade cívica.
Foto: O paraíso dos taradinhos

Propostas de solução da crise do comércio tradicional

(Continuação)
Se, quanto às causas da crise do comércio tradicional de Ponte de Lima, as nossas divergências não são muitas, quanto aos remédios propostos nesta reflexão há de tudo, desde placebos, a não digeríveis pelos sistemas administrativo e outros, a demasiado ambiciosos para serem aplicáveis, a bem intencionados mas impossíveis de elaborar com actores e meios e a alguns viáveis. È necessário ser positivo, elaborado e sintético.
O que se propõe que o Estado faça é no geral tão benévolo, sem controvérsia, que assinaríamos por baixo, não fora podermos ser considerados ingénuos ao propor algumas medidas improcedentes, inviáveis ou inoportunas. Projectos estruturantes, acesso ao crédito, sistemas de apoio e incentivos, horário de funcionamento das grandes superfícies, fundos de pensões, são no geral descriminações positivas, não facilmente aceites. De pleno só concordaríamos com o acabar com a concorrência desleal.
Esperaríamos também mais realismo nas treze medidas a propor à Câmara Municipal. As seis primeiras são de natureza política: Eleger o desenvolvimento económico, elaborar um plano estratégico, criar um pelouro, dinamizar projectos estruturantes e pólos industriais, articular políticas municipais e empresariais, que ainda por cima desconhecemos.
De duvidosa eficácia, impossíveis, discriminatórias, contraproducentes são outras tantas seis medidas: Impedir novas superfícies e pugnar pelo seu impedimento no território Valimar, impedir espaços comerciais no rés-do-chão, trazer grandes eventos desportivos, criar zonas e espaços especiais nos pólos industriais e diminuir genericamente taxas, tarifas e licenças.
Veríamos favoravelmente o abandono da política de construção de zonas comerciais para concessão que está a tornar a Câmara um “promotor turístico” em detrimento de outras vertentes.
É referida neste ponto uma medida de natureza psico-sociológica que se refere ao conselho de, em alternativa, fazer compras no comércio tradicional e outra de natureza empresarial no que se refere ao abrir espaços de referência.
Achamos que em relação à Câmara Municipal impor-se-ia que se esclarecesse se os jardins e o sarrabulho lhe chegam, se vai continuar a subestimar o alojamento, em que tipo de turismo está disposta a apostar, se abandonou de vez a aposta em pequenas centralidades a mais de cinco quilómetros do Centro.
Também são propostas vinte e uma medidas específicas para o Centro Histórico, das quais nove merecerão o nosso apoio imediato: Facilitar a acessibilidade e o estacionamento, a recuperação do parque habitacional em especial destinado a arrendamento, a requalificação da zona ribeirinha, a reorganização da feira, a animação do Centro Histórico, a implementação de regras protectoras do comércio “fixo” local. Quanto ao Albergue dos Peregrinos peca por inoportuno falar no que se encontra em construção.
Já nos parece não serem de apoiar coisas controversas como: As zonas de uma animação nocturna que não esporadicamente, o limianismo, cujas figuras, além de que algumas se possam confundir com figurões, não traz qualquer mais valia evidente ao comércio.
Somos contra: Levar os transportes públicos ao Centro Histórico, antes somos favoráveis a uma única entrada e saída e a um melhor local de inversão de marcha, o instalar parquímetros, antes devem ser incentivados os comerciantes a deixarem os seus próprios carros nos parques e não à porta dos estabelecimentos, só porque são os primeiros a chegar, ficando assim os clientes privados dos escassos lugares no Centro. Paradoxal, em face da antecedente, é a proposta de tornar livre o estacionamento nos parques subterrâneos existentes que, além do mais, é irrisório.
A preocupação com o mercado municipal, já transformado num imenso restaurante, poderia passar pela sua quase integral conversão. Também por discriminatória não seria de reclamar a implementação de benefícios especiais e não parece apropriada a disseminação de eventos por estes carecerem de dimensão e os espaços possíveis num Centro pequeno não serem assim tantos. São oito medidas de impacto controverso.
Podemos constatar que a promoção de Ponte de Lima e do seu comércio nem sempre serão convergentes. A tradição, o património e o ambiente podem ser vendáveis mas para que o comércio em geral beneficie é necessário ir mais além dos jardins, dos solares e do sarrabulho. Esta proposta parece-nos redutora em função do objectivo a atingir.
Parece-nos ser de natureza empresarial e por isso dever caber ao próprio comércio o aferir os ramos comerciais e se for caso disso especializá-lo para o turismo. Caberia a todos definir “que turismo?” para adequar estratégias. Quanto ao artesanato já haverá pouco a inventar.
(Continua)

14 junho 2007

Reflexão sobre comércio tradicional em Terras de Ponte

A Assembleia de Freguesia de Ponte de Lima criou um grupo de reflexão para constatar aquilo que é óbvio: O comércio tradicional está, por efeito de múltiplos factores, numa crise profunda. Essencialmente porque a dinâmica comercial não acompanhou outras dinâmicas, como a da construção de casas, que ainda por cima tem um efeito nefasto ao promover a desertificação do Centro Histórico, e a construção de jardins, que desvia as atenções dos habitantes e das televisões.
Maior concentração da população à volta do Centro deveria significar o seu maior desenvolvimento mas isso só seria possível se o crescimento do aglomerado urbano tivesse sido planeado em termos de integração e complementaridade. Por sua vez os jardins servem de atractivo passageiro para pessoas que não vêm a Ponte de Lima com o intuito de comerciar.
No entanto no Centro Histórico, já não falo nos residentes mas naqueles que regularmente o frequentam, parece que todos esperam que as dinâmicas se invertam miraculosamente. A tendência é para piorar como bem se constata, pela diversidade de factores apontados e outros, de origem local e nacional, de comportamentos e preferências, de organização e de meios, de imobilismo e de resignação.
Neste sentido esta reflexão tem a sua razão de ser porque, se a tarefa é ciclópica, é necessário despertar pessoas e instituições, detectar constrangimentos, avaliar estrangulamentos, encontrar soluções. Convenhamos porém que esta reflexão não apresenta os melhores, os mais concretizáveis, equitativos e legais instrumentos.
Há um largo espectro de causas que foram identificadas, não suficientemente clarificadas quanto à origem, influência e irreversibilidade. Algumas até já serão intocáveis, inultrapassáveis, outras ainda podem ser tidas como condicionantes e inflectíveis, outras ainda até podem ser vistas como oportunidade para outros negócios. Mas acima de tudo algumas podem ter aqui um efeito nefasto e noutros aspectos benéfico e compensador. O mal de uns, não raro, é o bem de muitos outros.
Assim se definiria aquilo que é humanamente possível exigir aos poderes exteriores, ao poder local, às associações e aos parceiros comerciais, sendo que a estes cabe mais receberem preparação para o negócio mas talvez não conselhos para promoverem este ou aqueloutro tipo de comércio. A oportunidade, a iniciativa, o risco são da natureza de qualquer empreendimento.
O documento identifica cinco causas gerais: Globalização, crise nacional, endividamento familiar, mudança de hábito de consumo e atractividade das grandes superfícies. Causas que, pela sua natureza, têm um tempo desconhecido de gestação, de vida e morte e a que só nos resta adaptarmo-nos (esclareça-se que nos resignamos só para este fim).
Outra causa tem a ver com a política governamental: O alojamento de serviços públicos vem sendo feito ao inverso dos bancos e por falta de edifícios públicos no Centro, com a construção ou aluguer na periferia. A última causa referente à reduzida sensibilidade para a qualificação só pode ser vista como do âmbito do movimento associativo.
Restam onze causas atribuíveis, em graus diversos, ao poder local: Autorização de instalação de superfícies comerciais, política urbanística que permite comércio nas novas habitações, que cria novas centralidades e dificulta o acesso privado e de transportes públicos, o estacionamento, a degradação dos prédios, as rendas elevadas, a desertificação do Centro. Salienta-se o falhanço da reestruturação do Mercado e da animação.
(Continua)

12 junho 2007

O Tribunal dos sonhos

Parti com um mais pobre do que eu. Esta expectativa de ter que “defender” uma causa abominável fiz-me renunciar a tudo: Ao futuro, a uma profissão, a uma companhia. Imponham-me uma arma, um alvo, uma vítima. Mas não tinha que renegar o amigo.
Restava-me ver em mim alguém cuja fraqueza é imanente mas que será suplantada quando conseguir espetar nos outros o olhar do mais puro ódio que me anima contra a vilania e a tirania. Esse sentimento corrosivo que nos faz vencer o medo, avançar.
Restava-me o apoio de alguém que não era mais que a minha sombra, a imagem mais esbatida ainda de um ser sem força, que mais não exige de si do que simplesmente sobreviver sem ser subserviente.
Não se imponha a Salazar, nem a Caetano ou a Américo Tomaz que provassem que estavam a defender a melhor solução para uma causa que envolvia a dignidade de um País. Eram múmias arrogantes, soberbas, de olhos fechados ao humanismo e à humildade.
Ou seriam só seres mansos sobre os quais apenas uns mal intencionados lançavam a suspeição de que seriam acompanhados de demónios terríficos para aterrorizar incautos?
As múmias guardavam bem essa sua imagem que lhes era tão familiar como outra qualquer, uma negra sombra de que a maioria dos outros só conheceriam os contornos, mas de que se procurava que ignorassem a opacidade. Eram maus sem terem é certo especial prazer na maldade.
Marcaram o seu tempo, escreveram o seu nome na história com o sangue alheio, ainda hoje são lembrados por frequentarem Academias em que só aprendiam a defender o passado, copiado a papel químico através de uma visão arquitectado com a grandiloquência de um espelho convexo.
Transmitiam uma ideia de sábios, capazes de todas as prestidigitações e de inverter o curso da história. Quanto mais decrépitos, mais respeito pareciam infundir naqueles que os viam como estátuas firmes perante si, simples transeuntes que se pensavam ser neste mundo com donos certos.
Transmitiam alguma da sua aura com um discurso empastelado e molengo, que se incrustava na ignorância de quem sabe que nada se consegue sem sacrifício e é preciso amenizá-lo. E a primeira coisa que ele atinge é a carne, só através desta chegará ao espírito.
A minha companhia era só eu e outro ainda mais pobre do que eu. A quem eu dei o sonho de que não mais seria necessário sonhar porque tudo seria mais claro que a luz. Eu não precisava mais desse sonho, da luz estática e brilhante, que o futuro haveria que se enfrentar de peito feito à ventania.
Nunca trocaria o sonho da luz fixa pelo da luz errante, mas é este que prolifera. É o grande sonho da multiplicação dos sonhos. Sonho próprio dos seres transfigurados, mutantes, que se não sentem vivos se não tiverem em quem aplicar o seu ódio, seja dirigido aos indefesos colonizados, seja aos que se viriam a opor ao seu novo sonho de dirigir o mundo baseados em falácias.
Mas os sonhos andam por aí, tantas são as falsas luzes, herdam-se, sem que sequer se possa dizer que têm donos, que alguém se responsabiliza por eles e que a História tenha hipóteses de os julgar. Há paternidades atribuídas aos sonhos que não são aceitáveis, não têm qualquer razão de existir. E não há julgamentos sem réus.
Há boas e seguras razões para que não só a realidade, mas também os sonhos, em especial esses vagos e vagabundos, sejam levados a juízo, sem arguidos, sem acusados e sem que a pena tenha que ser aceite por alguém.

07 junho 2007

Como, sem o sabermos, chegamos aqui?

Há uns séculos onde se podia encontrar a nossa riqueza que não fosse na agricultura? Com os descobrimentos e o comércio marítimo houve desenvolvimento noutros sectores mas também o agrícola beneficiou.
Introduziram-se plantas trazidas da América que se adaptaram bem ao País. O milho de maçaroca, a batata, a abóbora e o feijão americano tornaram-se culturas normais, revolucionando a agricultura, aumentando a produção, mudando hábitos e práticas agrícolas. A agricultura manteve assim o seu papel destacado na economia nacional.
Com os descobrimentos beneficiou principalmente a realeza e os comerciantes e os que dependiam das suas actividades. A não ser em relação àquela inovação nos produtos, a parte que coube para o progresso do interior foi diminuta. Tudo se gastou em sumptuosidades e no litoral.
No entanto o interior sempre foi tido por rico, era a terra que dava tudo, dizia-se, apesar das suas populações viverem permanentemente em estado de necessidade e também a terem que emigrar periodicamente.
Quando havia crises, é natural que quem mais as sentia fossem as populações das cidades, mas logo o Estado tratava de colectar os “excedentes”, deixando aos agricultores o mínimo para não morrerem de fome, que as couves os iam aguentando.
Toda a actividade económica do interior se ficou sempre pela agricultura e pelo que lhe era complementar, os serviços que lhe eram prestados e o tratamento e transformação primária dos seus poucos produtos, como a madeira, o vinho, o azeite, o linho e a lã. A actividade mineira também chegou a ser significativa.
Tudo era drenado para a beira-mar, para as povoações costeiras, mesmo com privações dos residentes. Só num aspecto o interior nunca se cansou ou fartou: o de fornecer gente. Também aí estava uma riqueza.
As gentes das capitais com isso escusavam de estar preocupadas. Se era necessária gente para as naus, soldados para combater, raparigas para servir, ao interior se recorria. Assim foi até há poucos anos.
O interior nunca foi um motivo de reflexão. Lá vivia-se bem, não faltavam os passarinhos, o bom ar, o bom vinho, o pão na maceira, o porco na salgadeira e no fumeiro, o cheiro das flores silvestres.
Havia o ouro escondido algures numa arca, fosse ela de carvalho ou de pinho. Afinal a riqueza diluiu-se, os herdeiros tiraram cursos e partiram, levaram os restos para a cidade, o ouro foi ajudar a pagar a casa, alguma boiça que por lá restou é para ser todos os anos pasto das chamas.
Foi-se o ouro, ficou a paisagem, paradisíaca, diz-se, que sempre se arrastou connosco a saudade de um dia lá voltar. Mas longe vão os tempos em que era garantido que alguém ficaria, a família nunca ia toda, e os que estavam na terra tratavam de tudo e tinham-nos agarrados ao lugar
A paisagem está deserta nuns sítios, e paradoxalmente impregnada de casas por outros lados, Constrói-se de todo o tipo, renegam-se as próprias raízes, o habitat, os modos de vida, os relacionamentos. Dispersa-se tudo, nem se respeitam aldeias, nem tradições, o que interessa é ter um lugar reservado, isolado, longe dos olhares indiscretos. Não há povoamento, há ocupação.
O que era rico tornou-se pobre num ápice, quase sem darmos por ela. Quando trabalhamos, imaginamos o campo como um jardim, ambicionamos estar lá a descansar. Mas quando enfim para lá poderíamos ir verificamos a falta de sustentabilidade, o abandono e renegamos as nossas fontes. E no entanto tudo se passou vagarosamente.
Os padres ainda se passeiam pelos Centros de Dia a fazer irradiar o seu poder sobre almas desamparadas, que não é de agora, sempre precisaram da intermediação doutrem. Tudo vive mas tudo morre lentamente, com uma estranha impressão de vagar, para quem nunca teve pressa.
Que vamos fazer do interior? Depois de ter perdido a sua importância na economia nacional, como há-de recuperar, agora diversificando as actividades. A agricultura passou de actividade principal para actividade residual, cada vez menos fornecedora de emprego.
Um Centro de Dia ou um Centro de Vida? Definir polaridades, acabar com bairrismos bacocos, centralizar a Vida, Nova Vida em Centros Urbanos pré-determinados. Aplicar bem o dinheiro. O desenvolvimento em Portugal nunca foi obra do acaso, a expressão cega de forças incontroladas.
A palha protege-se aconchegada numa moreia, devidamente organizada e defendida, não no meio do campo onde rapidamente se deteriora. O campo tão depressa está um jardim como está uma selva. Um jardim custa a criar, uma selva desenvolve-se rápido.
Pensar o interior não é aplicar-lhe chavões, agarrarmo-nos a ideias feitas, a arquétipos de um outro tempo, a imagens de uma decadência sadia, comparada com a decadência das cidades industriais, mas decadência.
Pensar o interior não é só abrir auto-estradas, definir rotas turísticas, virar museológico um ambiente que exigiria outra economia, outros parceiros, outros modos de vida, outras exigências.
Os malditos índices roubam-nos a paz, o sossego, Aplicamos ao campo, a este campo que nós temos, a este interior descapitalizado e infeliz, vítima secular de todas as soberbas e ganâncias dos predadores, só sabemos aplicar-lhe estes índices de outras paragens e começarmos a exigir:
Queremos elefantes brancos e pretos, mimetismos do que existe noutros sítios, que são exemplos do seu progresso mas aqui nada dizem. Não olhamos para o fundo, o essencial, o lastro, a base à qual uma política sempre igual tem reduzido o Portugal mais profundo. Portugal é um declive para o mar.
Até já não chegam projectos, nem dinheiro, é preciso gente. Sem gente nada de útil cá vem ter, só se fazem sumptuosidades para atrair pássaros de “arribação”.

06 junho 2007

A Vaca das Cordas, brincadeira ou crueldade?

A Vaca das Cordas saiu intrépida, decidida a vender caro o papel que lhe atribuem perante a ousadia de uns tantos que, fiados nas cordas que a prendem, se vão aproximando e arrenegando para ela a eles se fazer.
Jogo selvagem, sinal da brutalidade, resquício de barbaridade que impregna o nosso passado? Nada disso. A nossa agressividade sempre se manifestou mais contra os nossos próprios semelhantes do que sobre os indefesos animais.
Claro que muitos são mortos para servir de alimento, mas nunca com o acompanhamento da crueldade que faz de nós os maiores carrascos de nós mesmos. Pelo contrário o seu sacrifício foi muitas vezes entendido como necessário para aplacar as divindades que se veneravam.
A morte dos animais raramente serviu como castigo, a não ser para aqueles que consideramos como parasitas prejudiciais ao equilíbrio ecológico da terra. Também o uso dos animais para divertimento é um fenómeno esporádico, que não tem qualquer natureza persecutória.
A Vaca das Cordas submete-se involuntariamente a actos que estão de tal modo longe das sevícias, dos horrores da inquisição, da escravatura, do holocausto, de muitas guerras de África e Ásia, até mesmo do circo romano, que acho que ela tudo nos perdoaria se não lhe déssemos logo o cruel destino de ser transformada em bifes (suculentos dizem).

Aqui pode vir a falar-se de tudo. Renegam-se trivialidades, mas tudo depende da abordagem. Que se não repise o que está por de mais mastigado pelo pensamento redondo dominante. Que se abram perspectivas é o desejo. Que se sustentem pensamentos inovadores. Em Ponte de Lima, como em todo o universo humano, nada nos pode ser estranho.

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múltiplas intervenções no espaço cívico

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck

"Big Man" 1998 (1,83 de altura) - Obra de Mueck
O mais perfeito retrato da solidão humana